Da Década!

Publicado em Música por Tiago Lopes em Junho 19, 2009

Esse set-list do Blur tá parecendo retrospectiva do Kubrick: só tem clássico.

Working on my night cheese

Publicado em Sem-categoria por Tiago Lopes em Junho 1, 2009

Vi a Alicia Silverstone na tv dia desses. Na hora, fiquei empolgadinho como se a mesma estivesse ao meu lado, trajando apenas a brisa suave do dia. Sempre que vejo a Liv Tyler numa imagem de propaganda de perfume, também fico igualmente empolgadinho, como se a mesma estivesse ao meu lado, naked and mixing cocktails. Se todas as coisas nas quais ambas estiveram envolvidas fossem colocadas dentro de um banheiro, por exemplo, os azulejos do outro lado seriam perfeitamente visíveis, em caso de somente a qualidade dessas obras ser algo substancialmente palpável. Logo, algo tão rarefeito nesse conjunto o tornaria similar a um Jack Griffin.

Mas essa espécie de Jack Griffin está firmemente afixada na minha cabeça, não só pela qualidade indiscutível dos atributos físicos (afinal, são quase os mesmos vistos nas melhores propagandas da marisa) (mesmo esse caso específico tendo sido explorado à perfeição em Crazy). Mas porque me foi mostrado numa idade em que tudo que foi visto e ganhou simpatia instantânea, fixou-se highlanderanamente em uns milímetros cúbicos de minha massa cinzenta.

Então, não importa a quantas revisões minhas preferências sejam submetidas nos próximos 49 anos (o teto de sobrevivência sugerido pela bíblia é um bom padrão), a Alicia Silverstone e a Liv Tyler sempre serão lembradas com a mesma atenção e intensidade reservadas a Claudia Cardinale, Monica Vitti, Shirley MacLaine, Katharine Ross, Jeanne Moreau, Ludivine Sagnier, Jasmine Trinca, e altas aí que já estiveram em trabalhos infinitamente superiores às propagandas de sabonete disfarçadas de filme feitas por A.S. e L.T.

Infelizmente, a cidade onde se cresce também ganha essa mesma atenção, resistente a qualquer revisão futura. A situação é lamentável se a cidade-natal tiver sido uma em que um senso crítico ainda em estado de formação  não permitia que a mesma fosse admirada, sequer suportada, chegando até a incitar uma hostilidade contra aquela que até tinha a melhor piscina de todo o mundo. Esses dias, tenho achado que a vontade de voltar à cidade onde se cresceu é uma surpreendentemente instintiva: está acima de qualquer bom senso, qualquer moral e até mesmo de altíssimos níveis de ridicularidade. E se isso é instinto, é o único que dá vontade não só de rejeitar, mas de direcionar a força de todos os outros para o esquartejamento violento desse.

Porque é bem boboca querer voltar para um lugar em que, se toda sua população fosse reunida num banheiro, por exemplo, os azulejos do outro lado seriam desavergonhadamente visíveis, em caso de apenas seu bom senso ser algo substancialmente palpável. É mais penoso ainda pensar no seguinte: se todo o planejamento de hoje for realmente posto em prática daqui a algum tempo, a 6ª Avenida vai ter que dividir o mesmo espaço de memória e a mesma afeição reservadas à miserável Praça da Matriz; o acervo do MoMA será tão lembrado quanto a completa coleção de livros da Patricia Cornwell da biblioteca do Sesc; a nostalgia de ter vivido naquela casa em que o primeiro andar estava sem reboco vai existir com a mesma intensidade da empolgação de estar morando numa em que, além de reboco nas paredes, tenha posters de todos os melhores filmes. Ao menos uma das comparações futuras não será repudiada: a sensação de flutuar no Mar Morto deverá ser a mesma de ter mergulhado naquela que ainda é a melhor piscina do mundo.

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E é assim que Crazy acaba sendo tão importante quanto .

Publicado em Sem-categoria por Tiago Lopes em Maio 25, 2009

poe

juliet

via uns tumblrs aí.

Publicado em Sem-categoria por Tiago Lopes em Maio 25, 2009

R.I.P Jay Bennett

Sempre achei esse visu dele algo meio Predador, logo asqueiroso. Mas era um sujeito um tanto empolgado durante o processo de criação da banda. Ao menos é o que dá pra notar vendo o quão hiperativo ele era nas gravações do Yankee Hotel Foxtrot, como você pode ver em I’m Trying To Break Your Heart, (categoria “documentário essencial”). Fez ao menos uma das grandes músicas do Wilco, enquanto estava na banda: “My Darling”. Os créditos dessa são divididos com o Jeff, como quase todas do Summerteeth, mas a gente sabe que é só dele mesmo. Ao menos isso o mundo tem que creditar SOMENTE  a ele. Enfim, morreu numa hora até cabalística, já que deve ser lembrado em tooodos os shows da nova turnê do Wilco. Não deixa de ser aparício nem na hora da morte…

3t, 2f

Publicado em Cinema por Tiago Lopes em Maio 15, 2009

The Road:

Nem tanto por ser do Cormac, já que é previsível apontar awesomeness em algo derivado de sua obra. O fator determinante de transposição 100% confiável atende pelo nome de John Hillcoat. A Proposta, seu filme anterior, é um dos dois filmes pós-Os Imperdoáveis que conseguiu, em algum nível, enganar que era uma ligeiríssima evoluação do western, gênero que existe completamente dentro de um único filme – Once Upon A Time in The West.

(O outro é a refilmagem de 3:10 to Yuma. Imagine uma cartela, cheia de quadrados vazios, preenchidos à medida em que os itens descritos nela vão se mostrando no filme. No topo dessa cartela está escrito: “itens para se fazer um western necessário“. A cartela de 3:10 to Yuma está todo preenchida, e o item que diz “use sabiamente a obra de Elmore Leonard” está com o quadrado enfaticamente rabiscado).

The Boat That Rocked:

É o primeiro filme do Richard Curtis que não vai dar vergonha de afirmar, em público, que eu altos curto (toda a filmografia dele me é aprazível). Escolhi esse trailer porque tem Kinks tocando, mas esse outro tem mais piadas.

Nine:

Day-Lewis, o homem que todos nós – se petroleiros ou deficientes ou moicanos fôssemos – queríamos ser, rodeado por Nicole Kidman, Penelope Cruz, Marion Cotillard e Kate Hudson. Além de prometer ser grandessísima coisa, esse filme vai, finalmente, ser a segunda coisa superiormente interessente na vida da Hudson. Desde Almost Famous, ela erra com a mesma constância de um homem feio dando em cima de alguém como ela. E é chato ver alguém a quem você devotou alguns minutos da vida fazendo tanto filme ruim.

A fala da Judi Dench no início é quase tão empolgante quanto a levantada de pernas da Penelope no meio. Sophia Loren quase estraga tudo no final, se fosse pra colocar uma tia, que chamassem a própria Cardinale. No trailer, não consegui perceber quem vai ser a Cardinale. Mas a Anouk vai ser a Cotillard, certo? Grande escolha. Enfim, acho que falta busto para as outras ocuparem o papel da Cardinale. Mas, se o critério for chiquismo, a Nicole é a que chega mais perto.

Também vamos ter Deus, em ousada 3×4 e de bigode;

ferrell

E uma caveira:

chloe

My real name is Dick Whitman

Publicado em Sem-categoria por Tiago Lopes em Maio 4, 2009

No sábado, eu vi  o Frank Sinatra Jr. duas vezes, em duas séries diferentes: num episódio da segunda temporada de Sopranos, jogando cartas; e num episódio de Family Guy, fazendo dueto com o Brian. Nunca soube da existência dele, do nada, mais onipresente do que a minha mãe. Em alguma dimensão, na qual eu jamais entrarei se exigir traje sport fino, isso deve querer dizer alguma coisa.

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Depois de amanhã, começa o Lebowski Fest em Los Angeles. A lista de atividades provoca uma ansiedade penosa, porque, por enquanto, não será positivamente saciada. A lista de convidados, encabeçada pelo cara que faz PAW! no Daily Show e no seis-vezes-visto-em-um-mês Step Brothers, tá tão scrumtrelescent quanto a do Lollapalooza 2009.

No mais, um dos Coen tem uma recém-carreira teatral paralela que parece ser bacana, bacana.

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Esse post deveria ser isso: imagens do Wolverine, de braços abertos, garras à mostra, e fazendo “NOOOO” e “AAAAAH” em cima do Corcovado, no meio dos emos da Rua Augusta, rasgando o logo de caminho das índias e descendo o morro do careca. Tudo baseado na informação de que o Hugh vem ao Brasil. Me falta conhecimento técnico, mas percebo que tem me sobrado pouco senso de auto-crítica, já que divulgo a VONTADE de fazer isso.

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Tá meio vergonhoso colocar essas coisas assim, descompromissadas com qualquer coisa além de superficialmente não fazer você gastar uma viagem. Ex.: o que me faz continuar vindo à universidade é a quantidade de passes estudantis que já gastei nesses últimos quatro anos. É por respeito a eles que me graduarei.

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Espero com a certeza – construída seguramente por experiências anteriores – de que vai me deixar plenamente satisfeito:

wilco

Lazy Flies

Publicado em Sem-categoria por Tiago Lopes em Abril 29, 2009

Passei a pouco em frente a uma placa daquelas que informam ao contribuinte quanto o governo está gastando no canteiro de obras logo atrás. A placa em questão falava de um investimento de R$ 689.524,29 no erguimento de um centro de geofísica. A recém adquirida consciência da indiferença do Governo Federal em, ao menos, tentar conseguir um desconto de míseros R$0,29, tem me abatido desde então. E que constrututora demoníaca é essa que, ao orçar a obra, não consegue descontar nem vinte e nove centavos? Exclamações de indignação… raça humana… uma semana…

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Tenho hesitado em justificar o fato de eu não postar aqui com a já rarefeita constância de outrora porque quero preservar a boa saúde das orelhas das pessoas da minha família. Nunca se sabe qual o valor de determinadas informações. Mas digo que tenho passado bastante tempo em casa, consumindo umas coisas que queria que vocês consumissem também, caso não tenham experimentado ainda. Segue a lista:

1)Ovo frito, misturado com tomate, cebola, orégano, maionese e molho inglês. Arroz branco para acompanhar.

2)Miojo com salsicha de frango cortada em rodelas, cheiro verde, pouco caldo, pimenta e queijo ralado.

3)10 Coisas que Eu Odeio em Você na Sessão da Tarde, só para testar o grau de irritação com o corte de cenas cruciais para o entedimento da trama (como aquela em que a Julia Stiles levanta a blusa para distrair a atenção de um professor, possibilitando uma fuga auspiciosa, pela janela, de um Heath Ledger então em detenção).

4)A Regra do Jogo, do Renoir. Ri e fiquei consternado em iguais proporções. Grande filme. Ignore os que dizem que a obra é “uma crítica a sociedade francesa decadente pré-WWII”. Nonsense que esconde o quão livre de pedantismo, e com grande potencial massífico de agrado, essa maravilha é.

5)Murilo Rubião, para se ufanar, por breves minutos que seja (dada a alta potência de seus contos de pequeno tamanho), desse país, ou ao menos de sua porção mais prolífica, literariamente falando.

6)A companhia de dois gatos. Um todo preto, incapaz de se mover em outra direção a não ser a dos jornais que lhe servem de troninho e a da vasilha de ração; e outra bicolor (p&b), recém-operada e com espamos de hiper-atividade bizarros, como comer lagartixas entre uma corrida e outra.

“No reputation left to destroy”: ha ha ha*

Publicado em Cinema, Literatura, Música, Sem-categoria por Tiago Lopes em Abril 16, 2009

O Castelo dos Destinos Cruzados é okey, com a nota final ajudando numa compreensão melhor da coisa toda e meio que sabotando-a também. Fiquei com a impressão de que todo o intricado e difícil trabalho que o Calvino falou que sofreu para elaborar a segunda parte é um tanto quanto nhé quando você presta bem atenção no seguinte: por mais que ele detalhe os significados das cartas, para elas não parecerem com outra coisa além da que ele está dizendo que são em determinado momento, dá pra notar que o senhor meio que perdeu o critério de verossimilhança. Em algum ponto do final, uma carta podia ser qualquer coisa que ele quisesse que fosse. Essa free-and-loosidade toda também se estende ao leitor, qualquer coisa que eu quero que uma carta seja, ela vai ser, é só eu arranjar uma desculpa que não envergonhe a vizinhança pra ligar todas elas. Então, o esclarecimento que a nota faz no final, quando o Calvino diz que quase abandonou tudo por não conseguir ligar os contos da segunda parte, soa como uma auto-valorização de um trabalho que nem foi tão grande sim. A parte em que ele acha três peças do Shakespeare no meio das cartas confirma o que eu tô querendo dizer.

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The Substance of Style é uma série de artigos da Moving Image Source sobre as principais influências do Wes Anderson. É dividido em cinco parte: Bill Melendez, Orson Welles, and François Truffaut, Martin Scorsese, Richard Lester, and Mike Nichols, Hal Ashby, Salinger e um vídeo do prólogo do Royal Tenenbaums com umas anotações. Não li nada ainda, por falta de unidades temporais disponíveis, mas me senti impelido a indicar (’impelido’ as ’showing my google skills’).

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Ler algumas das resenhas já publicadas sobre Moscou (Coutinho) tem me dado mais satisfação do que a sentida em quase todos os filmes que eu vi esse ano. Com algum exagero, afirmo isso a vocês.

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O disco é irregular e esse vídeo parece bastante influenciado pelas últimas incursões no gênero feitas por george michael, mas a música é BOA, bem boa.

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quê mais? quê mais?

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Dr. Jules Meecham: You mean you don’t drink?
Reverend David Ruteledge: No.
Dr. Jules Meecham: In other words, when you get up in the morning that’s as good as you’re gonna feel all day.

ou

Shelby Munker: Well I try to do natural things. A lot of people in my family died of cancer. Bye.
Ruby Sparr: They… they died of cancer smoking pot?

E esses nem são os diálogos mais engraçados de A Wedding, um dos melhores do Altman. Sério. Já já deve chegar em dvd com o tratamento de luxo da Criterion Collection. Daí, se algum crítico do fim dos 70 ainda estiver vivo e tiver que rever, vai engolir tudo o que escreveu de negativo sobre essa maravilha na época. Gosto muitão daqueles dois grandes planos se abrindo no início do filme: um sobre a igreja e o outro sobre a casa aonde a festa de recepção acontece. O plano final é mais bonito ainda. E o timing. O Altman criou uma espécie de ritmo pra comédia que ninguém conseguiu imitar, ou se aproximar com cuidado suficiente para citar como influência. A maneira como as piadas são montadas aos poucos, uma sequência sendo interrompida por outra, culminando num punch-line sempre hilário das duas (nos melhores filmes), merece uma apreciação respeitosa, no mínimo. Os trejeitos esnobes e um tanto imutáveis que os atores sustentam por quase todo o filme passa uma falsa impressão de que eles são só um mero tamborete para o que realmente importa (a joke). Mas é só falsa mesmo. Tenta você ser esnobe por 30 minutos seguidos que sejam. Acho que só a Kristin Scott Thomas nasceu com o dom de parecer esnobe o tempo todo. Mas só usou-o bem uma única vez (em Gosford Park, sim sim).

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Já que citei Criterion, deixo aqui o link para as listas de top’s 10 dos filmes já lançados por ela, feitas por umas galeras massas aí. Tem de Mike Allred a Adam Yauch (a lista dele é a mais engraçada).

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*Embróglio mais divertido do ano, até agora. Se o cara ganhar a causa com uma desculpa dessas, é o fim do mundo civilizado como o conhecemos. Kids today…

Publicado em Música por Tiago Lopes em Abril 4, 2009

Não há nada nesse mundo que justifique alguma simpatia, a mais misroscópica que seja, de alguém por uma banda como o The Smiths. Até escrever esse nome seguindo as regras da boa gramática e da boa educação, com letra maiúscula, soa como uma auto-ofensa. A música é ruim como nenhuma outra já criada nos limites desse sistema solar, e tenho em mente, principalmente, a produção quantitativa da música criada em nossa região. Nem todos os 39 volumes de uma auspiciosa banda propagadora da “música regional” é tão prejudicial ao bom gosto quanto a criada pelo the smiths. E ver seus integrantes executando a manifestação sonora do adjetivo “degradante” é desgastante como atravessar a nado um mar de 165.454m³ de gelatina com pedaços de cereais gigantes no meio de todo o caminho. Tem um bar (que o fato de eu ainda, esporadicamente, frequentá-lo é prova incotestável de que a minha voz interior perdeu a moral faz tempo) que executa toda a videografia dessa banda em três telas diferentes quase sempre que vou lá. Se me sento numa posição que dificulte o alcance da minha curiosidade mórbida até o seu alvo favorito, ainda assim, escuto meio que em baixo volume a voz de garotinha-em-constante-trabalho-de-parto do morrissey. É como se eu tivesse atirado em trinta mil poodles e estivesse sendo devida e justamente punido. Para os que gostam, é chegada a hora de admitir a existência de um terceiro olho no lugar do umbigo. Só com esse extra de percepção para entender a competência de algo como the smiths.

Mandrake vs. the snake

Publicado em Literatura por Tiago Lopes em Abril 2, 2009

Tenho gostado de pensar que Anna Kariênina só é o enorme livro que é porque Tolstói criou maneiras tão elevadas de descrever diversas vezes, e sem repetir uma sentença que fosse, a beleza da Anna que, se essas descrições estivessem muito próximas umas das outras, o leitor talvez experimentasse um tipo de arrebatamento tão latente que poderia chegar perto da insanidade, tamanha a excitação experimentada. Sem exagero.

E a excitação não é só sexual, é mais pela admiração absurda à maneira de escrever do Tolstói, nascida exatamente no momento em que as sentenças vão se seguindo e formando uma imagem tão exata, tão única e tão perfeita de sua personagem. Se essa imagem fosse, por exemplo, a de uma grande sala lotada de pessoas e seus detalhes, seria quase que igualmente impressionante, o “quase” fica por conta da distância entre objetos inanimados e a mulher mais bonita já inventada.

Entre um estranho e outro que a Anna vai topando com no decorrer do livro (são nesses encontros, geralmente, que o Tolstói providencia o maná de sua literatura), acontece muita coisa, muita coisa mesmo. Grande parte dessas situações  não relacionadas com o adultério da citada. É aí que o Tolstói acalma um pouco os espíritos de quem o acompanha. Substitui o arrebetamento via-Anna por um que é acionado sempre… Bem, sempre. Por todos os diálogos, pelas soluçõs pensadas por alguns personagens para a melhoria das políticas russas em relação ao trabalho, à eduação, ao comportamento social, &c, e, principalmente, pela descrição de encontros sociais de grande porte, como bailes, idas ao teatro e a clubes. Só que não numa escala assustadoramente grande, como quando a beleza da Anna é apontada pela 4587545ª vez.

Tem isso e outra coisa que eu queria dizer sobre Anna Kariênina. Antes de ler o meu primeiro Tolstói, já havia lido uns 6 livros do Dostoiévski (Crime e Castigo, duas vezes). A Rússia era então, pra mim, o lugar mais pobre do mundo. Nunca li nada que fedesse tanto a vômito como os livros do Dostoiévski. E isso não é ruim, é só uma constatação factual: a literatura do Dostoiévski fede, seus personagens, todos parecem que não usam roupas de baixo limpas desde o momento em que nasceram, e os da alta sociedade são tão não-convincentes em relação à riqueza que dizem que possuem, que dão a impressão de usar colônia de supermercado o tempo todo. Já a Rússia do Tolstói é o extremo oposto de tudo isso. Até os seus mujiques dão a impressão de serem os mais asseados de toda a literatura russa.

Daí que lá pelas tantas, o personagem que tem sua história contada paralelamente à da Anna, o good old chap Liévin (é nele que toda a carga de identificação necessária para uma obra ser uma das minhas favoritas é depositada), recebe a visita de seu irmão moribundo. Aí, eu acredito que o Tolstói fez uma grande concessão em favor de sua ambição perfeitamente atingida (a de deixar para as geraçõs seguintes, até o fim dos tempos, a reprodução exata da época em que viveu): ele não podia deixar de fora os pobres. Se os livros do Dostoiévski estão todos cheios de pobres, é certo que a Rússia tinha lá o seu bom quinhão deles. Tolstói criou o livro mais anti-pobre que já li, mas a reprodução exata do seu tempo ficaria imcompleta sem ao menos um pobre-party-crasher. O Nikolai (o irmão em desgraça do Liévin) – e tudo que veio juntamente com ele – é como se fosse uma brecha na porta que dá para o quintal de uma mansão portentosa, e esse quintal é um pântano feio, frio e fétido que nunca é mostrado às visitas. É como ver a barba do Dostoiévski espreitando por essa mesma brecha.