O Que Fazer Para Compensar a Constante Presença de Coisas Feias no Seu Campo de Visão
Eu mesmo não possuo o que chamam costumeiramente de “padrão ocidental de beleza”, not at all, mas a tenho em um nível que me torna aceitável em alguns círculos sociais, e nenhum deles é de jogadores de rpg ou sadomasoquistas, logo não sou, assim, freaking ugly. Mas essa cidade os possui em demasia e isso tem me afetado de uma maneira negativa, a ponto de diminuir meus pensamentos a quase um único: como vou compensar o tremendo rojão de feiúra que insiste em se instalar no meu campo de visão diariamente? De que maneiras irei reestruturar as áreas do meu cérebro danificadas por visões tão infernais quanto as que me assombram no decorrer de um dia?
Aqui, irei explicar o que fazer depois de passar um longo tempo exposto a uma enorme concentração de cafuçus, ou péssima escrita num livro ruim, ou ritmos desengonçados numa música vulgar, ou imagens tacanhas num filme brega, enfim, tudo que vá contra os princípios de beleza e estética do mundo branco ocidental terá a sua cura apresentada na lista de O QUE FAZER PARA COMPENSAR A CONSTANTE PRESENÇA DE COISAS FEIAS NO SEU CAMPO DE VISÃO:
Pessoas: Comecemos pelo que mais incomoda: ver gente feia. Em caso de ônibus lotado na direção da zona norte, não só ver, como: ter seus vírus expelidos diretamente dentro de seu nariz através de tosse, espirro ou fala cuspida; sentir suas axilas cabeludas no seu pescoço, em graus variados de fricção, dependendo da velocidade do ônibus ou do acidentamento da estrada; tocar em suas tranpirações excessivas; ouvir suas conversas sobre “traição”, “assassinato”, “roubo”, “o show do calypso no faustão”, “o paredão do big brother”, “a novela das oito”, “vestibular”, “emprego”, “tela quente”, “filmes da julia roberts e da sandra bullock”, “primeiro paredão do primeiro bbb”, “velocidade excessiva do motorista”, “velocidade baixa do motorista”, “traição”, “ana baria braga, xuxa e betty faria são pessoas bonitas”, “beijo gay”, “celular com câmera e mp3″, “traição”. Num ônibus lotado, à medida que as pessoas vão falando, vão se tornando cada vez mais feias, cada vez mais próximas de um grau Costinha de feiúra, a ponto de despertar em você um tipo de complexo de édipo menos estudado: a vontade de furar os olhos com a presilha mais próxima. Isso, se não tratado da maneira correta, irá interferir na sua vida criativa, emocional e até mesmo sexual, caso tenha uma. Ao descer de um ônibus como esse e chegar em casa, lave as mãos, antes de qualquer coisa. Depois, ache em algum lugar (tv, internet) um desfile da Victoria’s Secret. Não importa o ano do desfile, o importante é deixar as imagens das angels substituirem gradativamente as de pessoas que mais parecem excremento de cavalo do que seres humanos na sua cabeça. Ver a Alessandra Ambrósio indo e vindo numa langerie é sufocar a imagem de uma big mamma com cara de cocô que veio sentada do seu lado no ônibus e não teve sequer a educação de segurar sua mochila. Ver a Isabeli Fontana dar um giro na ponta da passarela, empinar a bunda e abrir um leve sorriso para a câmera é esquecer instantaneamente da pirralha que não parava de respirar catarro bem ao lado do seu ouvido. Confesso que o Seal cantando não é my idea of fun, então vê o desfile em mute e põe o Kind of Blue, aí sim você vai apagar definitivamente da sua memória aquela música iradadahoramuitolôca que tocou durante todo o trajeto, em diferentes saídas de som. Taí, Kind of Blue e desfile da Victoria’s Secret: uma parceria que dá certo!!
Literatura: Ler um livro ruim e descobrir que ele só é ridicularmente ruim na centésima página é raro, muito raro. Aconteceu comigo duas vezes: Mate-me Por Favor e Mulheres. O primeiro ocupa, tranquilo e imóvel, o posto de pior livro que já li. E o segundo… Toda uma história. Gostava muito do Bukowski enquanto ainda era um jovem mancebo. Aos 15 anos, já havia lido duas coletêas de contos dele e ainda o achava um dos meus escritores favoritos. Aos 15 anos, eu levava muito a sério Linkin Park. Depois de um tempo, Mulheres caiu nas minhas mãos e fiquei até empolgado em ler uma novela do cara. Cheguei na página cem certo de uma coisa: eu era uma besta aos 15 anos. Se o meu eu de hoje conhecesse o meu eu de 15 anos, sentiria vontade de cuspir na cara de um pirralho tão idiota. Deveria ter desperdiçado meus 15 anos lendo mais literatura policial – que eu lia muito antes de topar com esse sujeito e achar que gostar dele era um sinal de amaduracimento – e menos Bukowski. Engraçado como aos 15 anos, qualquer coisa que contenha o menor sinal de sacanagem é algo passível de idolatria. Hoje me arrependo de verdade de ter perdido tanto tempo nessa besta, nesse sub-Henry Miller, nesse anarfa. Caralho! Muito puto de ter perdido tanto tempo lendo esse cara. Então, para compensar o excesso de feiúra literária que se alojou no meu cérebro advindo de tanta merda, qualquer diálogo, qualquer mesmo, do Shakespeare. Transcrevo um dos meus favoritos, extraido de Ricardo III, por enquanto, a minha peça favorita dele:
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ANA: Foste provocado pelo teu espírito perverso que nunca sonha com mais nada senão carnificinas. Não mataste este Rei?RICARDO (Duque de Gloucester):Concedo-vos que sim.
ANA: Concedes-me, porco-espinho! Pois me conceda Deus também uma maldição sobre ti por esse feito perverso. Oh, como ele era amável, doce e virtuoso. RICARDO (Duque de Gloucester): Melhor para o Rei dos céus que o tem agora.
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Oh! Quanta finesse! Ironia! Em míseras linhas apenas. Sério crianças, não há mentira alguma no que dizem sobre Shakespeare. E ele não precisou escrever “pau” e “buceta” pra causar sensação de repúdio (se é isso que você procura num livro), só algumas tragédias absurdamente violentas, enfeitadas com os melhores diálogos de todos os tempos.
Música:
Love me or leave me and let me be lonely
You wont believe me but I love you only
Id rather be lonley than happy with somebody else
You might find the night time the right time for kissing
Night time is my time for just reminiscing
Regretting instead of forgetting with somebody else
I intended to be independently blue
I want you love, dont wanna borrow
Have it today to give back tomorrow
Your love is my love
Theres no love for nobody else
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Considero esses versos os mais bem escritos para uma canção popular de todos os tempos. A aliteração é tão perfeita porque não é só uma mera sequência de vogais desconexas (o que já qualifica toda a mpb como um troço aquém do incapaz), mas algo que atinge o objetivo máximo e essencial da música popular sem parecer minimamente cafona: falar sobre amor. A música foi escrita por Walter Donaldson e a letra por Gus Kahn em 1928. De lá pra cá, a wikipedia lista mais de 40 versões feitas por diferentes artistas. Só conheço a versão gravada pela Nina Simone e acho impossível ela (a música) soar tão bonita na voz de outra pessoa. Ouve todo o resto depois de ouvir isso aqui, quando sentir a necessidade sempre presente de abafar qualquer barulho incômodo (eu sei que música ruim não é uma “coisa feia no seu campo de visão”, mas é algo feio que, não importa o quanto você feche os ouvidos, sempre vai estar lá, logo, ligeiramente pior que uma imagem incômoda é um barulho incômodo).
Cinema: Aqui é fácil. Primeiro: evite ver filmes numa tela de computador. Isso foi criado como uma última alternativa e não como a única para se ver filmes. Dito isso, para cada Cinderela Bahiana ou similares que você acidentalmente tenha visto, não precisa lavar os olhos com água corrente. Procura ver Era Uma Vez No Oeste, Manhattan, qualquer um que tenha a Scarlett (menos esse aqui), 2001, qualquer um do Wes Anderson, Jules e Jim, O Homem que Não Estava Lá, O Melhor da Juventude, Quanto Mais Quente Melhor e outros tantos que ou possuem elementos de um altíssimo grau de beleza, ou foram filmados nesse mesmo padrão. Só mais uma, para tentar dar um extreme makeover na crítica especializada: filme não é confete ou serpentina para ficar pregado na retina.
Sobre como eu acho a idéia de simplicidade do Black Keys mais válida do que a de todo o punk de 77
E o Black Keys, em curtíssimo tempo de trabalho (The Big Come Up saiu em 2002) nunca foi comparado veementemente com qualquer banda punk. Mas tanto eles (Ramones, Sex Pistols) quanto o Black Keys se apoiam (se apoiaram) numa idéia de simplicidade quase primitiva para criar música. A maneira como eles vêem o que é “ser simples” é que dá toda uma diferença. E, perfavore, sem contextualizações. Citar o período histórico em que a música punk foi criada para justificar sua qualidade é o mesmo que comparar a qualidade do Is This It com a bem-sucedida e violenta investida do mundo oriental na derrubada do maior símbolo do mundo ocidental (oh! oh!).
Então, vai que o punk de 77 foi criado para substituir uma música saturada de idéias, com idéias em demasia, capicce? E esses caras, ao menos os primeiros (vulgo aqueles gabba-gabba-hey lá) disseram que fizeram tudo aquilo por causa do Stooges, uma banda que apresentou idéias em demasia, mas organizadas em músicas de duração média de 3, 4 minutos, não ultrapassando a barreira do ridículo, mas também evitando ficar imóvel num espaço de 1m²*. Coloquemos nesses termos: a música progressiva, primeira vítima daqueles pobrinhos lá, sempre me lembra uma mulher com maquiagem em excesso, mais próxima de um traveco do que de um ser humano; o punk é essa mulher ao acordar de manhã, com um bafo desagradável, desgrenhada, despida de enfeites, baranga enfim, que você estará disposto a consumir se nada melhor se fizer presente.
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E há o meio-termo. Lugar que o Stooges conseguiu se fixar com toda a inteligência e falta de elegância que o pop** pode comportar. A música localizada nesse espaço sempre me lembra as melhores garotas da vizinhança, aquelas que estão por perto e quase inalcançáveis, porque possuem uma dosagem de bom senso que as coloca exatamente no meio de todos os extremos e, por isso, são superiores a ambos. É no meio-termo que as melhores bandas estão. E quando elas querem atingir a evolução através de um bem-vindo processo de mudança, me fazem pensar nessa garota vestida para sair à noite, ligeiramente mais produzida, mas ainda sustentando todo um ar de simplicidade.
E é exatamente assim que o Attack and Release me parece. Antes dele, só existia guitarra e bateria. Agora, uns pianos, banjos e flautas aparecem aqui e acolá para 1) surpreender, 2) fazer você pensar “precisa mesmo” e 3) “caraleo, troféu joinha de melhor-adição-sutil-de-novos-elementos do ano”. A característica ausência de firulas do Black Keys em respeito a uma simplicidade que te pega de surpresa (mas não como um um trombadinha de cabelo verde te assaltando, e sim como algo novo aparecendo onde você só esperava o de sempre) ainda está lá, só que com uns adereços para enfatizar o que já era muito bom de se ouvir. E sem o ranço de analfabetismo que inpregnava quase tudo feito em 77 (ou antes disso, caso do MC5, do New York Dolls).

banho e high heels
Nãããããão, mas a idéia era essa mesmo, criar um som que fosse direto e te desse um soco no estômago, um chute nas bolas, instantaneamente. Só se consegue isso sendo o mais simples possível, primitivo mesmo saca? Não, não saco. O Stooges fazia tudo isso (comigo não, que esse lance de soco no estômago e chute nas bolas é coisa de crítico musical que fala “seminal” pra tudo que não é mpb) e nem era simplório. A melhor banda surgida em 77 – que, no primeiro disco, parecia claramente só ter a intenção de se aproveitar do bonde andando, porque eles não precisariam fazer muita coisa pra aparecer, só macaquear o que já havia sido feito – foi o The Clash. The Clash era toda uma macaqueação, das melhores, mas eles mesmo nunca esconderam que só queriam soar como o que estava por ali. Dois anos depois veio o London Calling, que é o que dizem por aí, sem nenhum exagero e nenhuma preguiça, atingindo o meio-termo sem passar direto pro nível do ridículo. Um ano depois veio o Sandinista!, que possui exemplos perfeitos de como atingir esses três resultados finais.
À exceção de mais algumas (poucas) outras bandas, tudo o que nasceu ou ganhou projeção em 77 e foi abrigado sob a alcunha “punk” não é mais que falta de idéias. A única idéia que surgiu foi engolida, vomitada e engolida de novo por quem viria depois, mas nunca renovada (sabe “bandas locais”? Pra mim, isso é nome de um sub-sub-gênero que denomina aquelas que acham que citar Ramones, Sex Pistols e Bukowski como influências já lhes conferem algum atestado de qualidade). Se o “movimento” (ugh!) obteve repercussão suficiente para estar aí, sendo lembrado e fazendo blogueiros gastarem tempo falando sobre ele, é porque os jornalistas da época estavam em plena sintonia com os criadores de tudo isso, ambos com muita merda na cabeça e cola no nariz. A atitude de quem elogiava esse tipo de coisa é a mesma de quem abre a boca hoje em dia pra selecionar as três melhores bandas de todos os tempos surgidas no último mês. A falta de perspectiva histórica é a mesma.
Pensa em Legs Mcneill como o Lúcio Ribeiro da época. O que fez o Sex Pistols ser lembrado até hoje e o que fará o Cribs ser esquecido daqui há dois anos é o fato do primeiro ter aparecido em jornais impressos e em TV e o segundo não ir além de blogs. Pra ficar na história fazendo música ruim, tudo o que você tem que fazer é chamar a atenção dos executivos certos.
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*isso é uma metáfora para definir o som dessas bandas de três-acordes-whatever, não uma definição da pose dessas pessoas no palco.
**preciso dizer que é no sentido de “popular”?
