Sobre como eu acho a idéia de simplicidade do Black Keys mais válida do que a de todo o punk de 77
E o Black Keys, em curtíssimo tempo de trabalho (The Big Come Up saiu em 2002) nunca foi comparado veementemente com qualquer banda punk. Mas tanto eles (Ramones, Sex Pistols) quanto o Black Keys se apoiam (se apoiaram) numa idéia de simplicidade quase primitiva para criar música. A maneira como eles vêem o que é “ser simples” é que dá toda uma diferença. E, perfavore, sem contextualizações. Citar o período histórico em que a música punk foi criada para justificar sua qualidade é o mesmo que comparar a qualidade do Is This It com a bem-sucedida e violenta investida do mundo oriental na derrubada do maior símbolo do mundo ocidental (oh! oh!).
Então, vai que o punk de 77 foi criado para substituir uma música saturada de idéias, com idéias em demasia, capicce? E esses caras, ao menos os primeiros (vulgo aqueles gabba-gabba-hey lá) disseram que fizeram tudo aquilo por causa do Stooges, uma banda que apresentou idéias em demasia, mas organizadas em músicas de duração média de 3, 4 minutos, não ultrapassando a barreira do ridículo, mas também evitando ficar imóvel num espaço de 1m²*. Coloquemos nesses termos: a música progressiva, primeira vítima daqueles pobrinhos lá, sempre me lembra uma mulher com maquiagem em excesso, mais próxima de um traveco do que de um ser humano; o punk é essa mulher ao acordar de manhã, com um bafo desagradável, desgrenhada, despida de enfeites, baranga enfim, que você estará disposto a consumir se nada melhor se fizer presente.
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E há o meio-termo. Lugar que o Stooges conseguiu se fixar com toda a inteligência e falta de elegância que o pop** pode comportar. A música localizada nesse espaço sempre me lembra as melhores garotas da vizinhança, aquelas que estão por perto e quase inalcançáveis, porque possuem uma dosagem de bom senso que as coloca exatamente no meio de todos os extremos e, por isso, são superiores a ambos. É no meio-termo que as melhores bandas estão. E quando elas querem atingir a evolução através de um bem-vindo processo de mudança, me fazem pensar nessa garota vestida para sair à noite, ligeiramente mais produzida, mas ainda sustentando todo um ar de simplicidade.
E é exatamente assim que o Attack and Release me parece. Antes dele, só existia guitarra e bateria. Agora, uns pianos, banjos e flautas aparecem aqui e acolá para 1) surpreender, 2) fazer você pensar “precisa mesmo” e 3) “caraleo, troféu joinha de melhor-adição-sutil-de-novos-elementos do ano”. A característica ausência de firulas do Black Keys em respeito a uma simplicidade que te pega de surpresa (mas não como um um trombadinha de cabelo verde te assaltando, e sim como algo novo aparecendo onde você só esperava o de sempre) ainda está lá, só que com uns adereços para enfatizar o que já era muito bom de se ouvir. E sem o ranço de analfabetismo que inpregnava quase tudo feito em 77 (ou antes disso, caso do MC5, do New York Dolls).

banho e high heels
Nãããããão, mas a idéia era essa mesmo, criar um som que fosse direto e te desse um soco no estômago, um chute nas bolas, instantaneamente. Só se consegue isso sendo o mais simples possível, primitivo mesmo saca? Não, não saco. O Stooges fazia tudo isso (comigo não, que esse lance de soco no estômago e chute nas bolas é coisa de crítico musical que fala “seminal” pra tudo que não é mpb) e nem era simplório. A melhor banda surgida em 77 – que, no primeiro disco, parecia claramente só ter a intenção de se aproveitar do bonde andando, porque eles não precisariam fazer muita coisa pra aparecer, só macaquear o que já havia sido feito – foi o The Clash. The Clash era toda uma macaqueação, das melhores, mas eles mesmo nunca esconderam que só queriam soar como o que estava por ali. Dois anos depois veio o London Calling, que é o que dizem por aí, sem nenhum exagero e nenhuma preguiça, atingindo o meio-termo sem passar direto pro nível do ridículo. Um ano depois veio o Sandinista!, que possui exemplos perfeitos de como atingir esses três resultados finais.
À exceção de mais algumas (poucas) outras bandas, tudo o que nasceu ou ganhou projeção em 77 e foi abrigado sob a alcunha “punk” não é mais que falta de idéias. A única idéia que surgiu foi engolida, vomitada e engolida de novo por quem viria depois, mas nunca renovada (sabe “bandas locais”? Pra mim, isso é nome de um sub-sub-gênero que denomina aquelas que acham que citar Ramones, Sex Pistols e Bukowski como influências já lhes conferem algum atestado de qualidade). Se o “movimento” (ugh!) obteve repercussão suficiente para estar aí, sendo lembrado e fazendo blogueiros gastarem tempo falando sobre ele, é porque os jornalistas da época estavam em plena sintonia com os criadores de tudo isso, ambos com muita merda na cabeça e cola no nariz. A atitude de quem elogiava esse tipo de coisa é a mesma de quem abre a boca hoje em dia pra selecionar as três melhores bandas de todos os tempos surgidas no último mês. A falta de perspectiva histórica é a mesma.
Pensa em Legs Mcneill como o Lúcio Ribeiro da época. O que fez o Sex Pistols ser lembrado até hoje e o que fará o Cribs ser esquecido daqui há dois anos é o fato do primeiro ter aparecido em jornais impressos e em TV e o segundo não ir além de blogs. Pra ficar na história fazendo música ruim, tudo o que você tem que fazer é chamar a atenção dos executivos certos.
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*isso é uma metáfora para definir o som dessas bandas de três-acordes-whatever, não uma definição da pose dessas pessoas no palco.
**preciso dizer que é no sentido de “popular”?
Rapaz, movimentos em geral são idiotice. Não escuto bandas de movimentos…Dessa galera que surgiu em 77 como diz tu, só escuto Ramones, e escuto mesmo, todos os dias. O resto, incluindo o Sex Pistols, é uma grande merda. No mais, se foi falta de qualidade, de criatividade, seja lá o que foi, marcou, é fato que se criou um estilo, se ele é simples, chato, sem criatividade…Pode ser, mas marcou. É tanto que hoje ainda tem bandas, e pessoas veja só, que se dizem…Punk! hahahahahaha
“Movimento” é coisa de estudante de Ciências Sociais. Concordo com você que 90% do que saiu dali é lixo mesmo (Sex Pistols principalmente) e que muita coisa sobrevive no gosto dos – va lá – blogueiros mais pela associação com um período que ganhou status de cult do que pela qualidade musical (Sex Pistols, sempre eles).
Mas tem umas coisas boas no meio do lodo também. Falar do Clash é batata, mas tu esqueceu dos Buzzcocks, não sei como. E tenha cuidado ao falar dos Ramones. Muito cuidado…
E os caras do MC5 podiam ser ativistas chatos, mas botavam pra foder.
Esse post deveria ter menos comentários sobre esse povo seboso e mais sobre o disco do Black Keys, que é bem mais interessante do que toda a carreira dos… adivinha? Sex Pistols.
Pois é, Ossada esqueceu Buzzcocks, eu também. E por falar em falta de conteúdo, qualidade e etc…incluo nessa lista 90% das bandas 80’s, 90% das bandas 90’s e 90% das bandas de hoje que são hype ontem e amanhã acabaram ou cairam no ostracismo. Ouço algumas dessas merdas que saem no NME e similares como salvação (de quem não sei) e sempre volto para as décadas de 60 e 70, enfim, quase tudo é lixo e poucos se salvam.
me passe um email, te mando as torrents de suspiria e das legendas tbm. Abraço.