Da Década!

O Que Fazer Para Compensar a Constante Presença de Coisas Feias no Seu Campo de Visão

Publicado em Cinema, Literatura, Música, Sem-categoria por Tiago Lopes em Março 26, 2008

Eu mesmo não possuo o que chamam costumeiramente de “padrão ocidental de beleza”, not at all, mas a tenho em um nível que me torna aceitável em alguns círculos sociais, e nenhum deles é de jogadores de rpg ou sadomasoquistas, logo não sou, assim, freaking ugly. Mas essa cidade os possui em demasia e isso tem me afetado de uma maneira negativa, a ponto de diminuir meus pensamentos a quase um único: como vou compensar o tremendo rojão de feiúra que insiste em se instalar no meu campo de visão diariamente? De que maneiras irei reestruturar as áreas do meu cérebro danificadas por visões tão infernais quanto as que me assombram no decorrer de um dia?

Aqui, irei explicar o que fazer depois de passar um longo tempo exposto a uma enorme concentração de cafuçus, ou péssima escrita num livro ruim, ou ritmos desengonçados numa música vulgar, ou imagens tacanhas num filme brega, enfim, tudo que vá contra os princípios de beleza e estética do mundo branco ocidental terá a sua cura apresentada na lista de O QUE FAZER PARA COMPENSAR A CONSTANTE PRESENÇA DE COISAS FEIAS NO SEU CAMPO DE VISÃO:

Pessoas: Comecemos pelo que mais incomoda: ver gente feia. Em caso de ônibus lotado na direção da zona norte, não só ver, como: ter seus vírus expelidos diretamente dentro de seu nariz através de tosse, espirro ou fala cuspida; sentir suas axilas cabeludas no seu pescoço, em graus variados de fricção, dependendo da velocidade do ônibus ou do acidentamento da estrada; tocar em suas tranpirações excessivas; ouvir suas conversas sobre “traição”, “assassinato”, “roubo”, “o show do calypso no faustão”, “o paredão do big brother”, “a novela das oito”, “vestibular”, “emprego”, “tela quente”, “filmes da julia roberts e da sandra bullock”, “primeiro paredão do primeiro bbb”, “velocidade excessiva do motorista”, “velocidade baixa do motorista”, “traição”, “ana baria braga, xuxa e betty faria são pessoas bonitas”, “beijo gay”, “celular com câmera e mp3″, “traição”. Num ônibus lotado, à medida que as pessoas vão falando, vão se tornando cada vez mais feias, cada vez mais próximas de um grau Costinha de feiúra, a ponto de despertar em você um tipo de complexo de édipo menos estudado: a vontade de furar os olhos com a presilha mais próxima. Isso, se não tratado da maneira correta, irá interferir na sua vida criativa, emocional e até mesmo sexual, caso tenha uma. Ao descer de um ônibus como esse e chegar em casa, lave as mãos, antes de qualquer coisa. Depois, ache em algum lugar (tv, internet) um desfile da Victoria’s Secret. Não importa o ano do desfile, o importante é deixar as imagens das angels substituirem gradativamente as de pessoas que mais parecem excremento de cavalo do que seres humanos na sua cabeça. Ver a Alessandra Ambrósio indo e vindo numa langerie é sufocar a imagem de uma big mamma com cara de cocô que veio sentada do seu lado no ônibus e não teve sequer a educação de segurar sua mochila. Ver a Isabeli Fontana dar um giro na ponta da passarela, empinar a bunda e abrir um leve sorriso para a câmera é esquecer instantaneamente da pirralha que não parava de respirar catarro bem ao lado do seu ouvido. Confesso que o Seal cantando não é my idea of fun, então vê o desfile em mute e põe o Kind of Blue, aí sim você vai apagar definitivamente da sua memória aquela música iradadahoramuitolôca que tocou durante todo o trajeto, em diferentes saídas de som. Taí, Kind of Blue e desfile da Victoria’s Secret: uma parceria que dá certo!!

Literatura: Ler um livro ruim e descobrir que ele só é ridicularmente ruim na centésima página é raro, muito raro. Aconteceu comigo duas vezes: Mate-me Por Favor e Mulheres. O primeiro ocupa, tranquilo e imóvel, o posto de pior livro que já li. E o segundo… Toda uma história. Gostava muito do Bukowski enquanto ainda era um jovem mancebo. Aos 15 anos, já havia lido duas coletêas de contos dele e ainda o achava um dos meus escritores favoritos. Aos 15 anos, eu levava muito a sério Linkin Park. Depois de um tempo, Mulheres caiu nas minhas mãos e fiquei até empolgado em ler uma novela do cara. Cheguei na página cem certo de uma coisa: eu era uma besta aos 15 anos. Se o meu eu de hoje conhecesse o meu eu de 15 anos, sentiria vontade de cuspir na cara de um pirralho tão idiota. Deveria ter desperdiçado meus 15 anos lendo mais literatura policial – que eu lia muito antes de topar com esse sujeito e achar que gostar dele era um sinal de amaduracimento – e menos Bukowski. Engraçado como aos 15 anos, qualquer coisa que contenha o menor sinal de sacanagem é algo passível de idolatria. Hoje me arrependo de verdade de ter perdido tanto tempo nessa besta, nesse sub-Henry Miller, nesse anarfa. Caralho! Muito puto de ter perdido tanto tempo lendo esse cara. Então, para compensar o excesso de feiúra literária que se alojou no meu cérebro advindo de tanta merda, qualquer diálogo, qualquer mesmo, do Shakespeare. Transcrevo um dos meus favoritos, extraido de Ricardo III, por enquanto, a minha peça favorita dele:

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ANA: Foste provocado pelo teu espírito perverso que nunca sonha com mais nada senão carnificinas. Não mataste este Rei?
RICARDO (Duque de Gloucester):Concedo-vos que sim.
ANA: Concedes-me, porco-espinho! Pois me conceda Deus também uma maldição sobre ti por esse feito perverso. Oh, como ele era amável, doce e virtuoso.
RICARDO (Duque de Gloucester): Melhor para o Rei dos céus que o tem agora.

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Oh! Quanta finesse! Ironia! Em míseras linhas apenas. Sério crianças, não há mentira alguma no que dizem sobre Shakespeare. E ele não precisou escrever “pau” e “buceta” pra causar sensação de repúdio (se é isso que você procura num livro), só algumas tragédias absurdamente violentas, enfeitadas com os melhores diálogos de todos os tempos.

Música:

Love me or leave me and let me be lonely
You wont believe me but I love you only
Id rather be lonley than happy with somebody else

You might find the night time the right time for kissing
Night time is my time for just reminiscing
Regretting instead of forgetting with somebody else

Therell be no one unless that someone is you

I intended to be independently blue

I want you love, dont wanna borrow
Have it today to give back tomorrow
Your love is my love
Theres no love for nobody else

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Considero esses versos os mais bem escritos para uma canção popular de todos os tempos. A aliteração é tão perfeita porque não é só uma mera sequência de vogais desconexas (o que já qualifica toda a mpb como um troço aquém do incapaz), mas algo que atinge o objetivo máximo e essencial da música popular sem parecer minimamente cafona: falar sobre amor. A música foi escrita por Walter Donaldson e a letra por Gus Kahn em 1928. De lá pra cá, a wikipedia lista mais de 40 versões feitas por diferentes artistas. Só conheço a versão gravada pela Nina Simone e acho impossível ela (a música) soar tão bonita na voz de outra pessoa. Ouve todo o resto depois de ouvir isso aqui, quando sentir a necessidade sempre presente de abafar qualquer barulho incômodo (eu sei que música ruim não é uma “coisa feia no seu campo de visão”, mas é algo feio que, não importa o quanto você feche os ouvidos, sempre vai estar lá, logo, ligeiramente pior que uma imagem incômoda é um barulho incômodo).

Cinema: Aqui é fácil. Primeiro: evite ver filmes numa tela de computador. Isso foi criado como uma última alternativa e não como a única para se ver filmes. Dito isso, para cada Cinderela Bahiana ou similares que você acidentalmente tenha visto, não precisa lavar os olhos com água corrente. Procura ver Era Uma Vez No Oeste, Manhattan, qualquer um que tenha a Scarlett (menos esse aqui), 2001, qualquer um do Wes Anderson, Jules e Jim, O Homem que Não Estava Lá, O Melhor da Juventude, Quanto Mais Quente Melhor e outros tantos que ou possuem elementos de um altíssimo grau de beleza, ou foram filmados nesse mesmo padrão. Só mais uma, para tentar dar um extreme makeover na crítica especializada: filme não é confete ou serpentina para ficar pregado na retina.

11 Respostas

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  1. rudá said, on Março 26, 2008 at 11:23 pm

    Pessoas: Porra, eu pego o 33 e fico puto. Imagina você que vai pra ZN. Só lamento…

    Livros: De Bukowski só li Miixto-Quente, muito recentemente, e achei uma bosta. Um dos piores livros que li. Acho que essa zuventude deveria mesmo se livrar de quem escreve “pau” e “buceta” e descobrir que Saramago, por exemplo, é um cara legal.

    Música: Você ainda tá me devendo uns discos de Nina Simone. Depois eu te passo John Coltrane pra você ‘também ficar ligado nessa parada…’.

    Cinema: Nunca vi o pior filme da Scarlett oO

  2. ju. said, on Março 27, 2008 at 4:17 am

    vou fazer que nem rudá XD

    pessoas: eu passei mais de ano morando na zn e pegando aquela delicinha que é o ônibus da hora de pico da manhã… tipo 6h20. ¬¬
    não há forma de evitar. o lance é ver desfile da victoria’s secret MESMO.

    livros: você tá muito xiita pra alguém tão novo. bukowski tem seus momentos. o problema é que ele foi super estimado… eu nunca entendi porque vocês colocavam deus no céu, bukowski na terra. Oo’. eu, como sempre consumi com moderação, acho de boa até hoje. agora shakeaspeare, bicho! eu acho shakeaspeare uma coisa tão de baitola, daqueles que fazem artes cênicas e põem no about do orkut “ser ou não ser, eis a questão”. ficadica.

    música: e pensar que a officina interiores passou uns dois anos com essa música na trilha da propaganda deles. adoro! sempre canto no banho [não fique imaginando]. agora quando alguma música sebosa gruda na sua cabeça a única saída é cantar total eclipse of the heart, porque essa gruda mais que qualquer outra no universo. turn arouuuuund.

    cinema: pára tudo, como assim você não recomenda ‘a love song for bobby long’? um filme que tem nos extras a seguinte cena, NÃO É RUIM AT ALL

    http://youtube.com/watch?feature=related&v=-k_6sq2OOKE
    [favor assistir sem volume que colocaram uma música trash de fundo e eu tô com preguiça de ficar fuçando youtube atrás de um video melhor]

    da scarlett eu não recomendo the island, que ela tá idiota e loira platinada Oo’

  3. Ramilla said, on Março 27, 2008 at 9:59 am

    isso tudo me lembrou minha ida ao posto de saúde ontem, requerir aqueles exames de cocô, xixi e sangue que eu estava adiando há uns três anos. cá entre nós, posto de saúde é uma versão piorada de ônibus pra zn. (que eu como boa amiga e pessoa solicita me dou ao trabalho de pegar mesmo morando em candelária e com mamãe gritando no telefone que na zona norte só tem ladrão e maconheiro. ah, mamãe, sempre tão espirituosa.) mas o pior de tudo, pior mesmo que as conversas sobre traição, big brother, novela e traição é quando começa o papo social e todo mundo fica muito enraivecido por causa da má qualidade do serviço público ou do transporte coletivo e ficam falando sem parar com você mesmo quando você está respondendo há meia hora com anrãs e balançar de cabeça. a diferença é que no ônibus no mais tardar em duas horinhas você tá em casa. eu passei umas cinco horas plantanda ao lado de gente feia e fedida (tinha um cara do meu lado que fedia muito). posto de saúde sempre me dá vontade de morrer.

  4. Alexis said, on Março 28, 2008 at 11:09 am

    Pode ficar tranquilo, que no seu aniversário vou lhe dar uma piteira de presente.

  5. Hugo Morais said, on Março 29, 2008 at 11:15 am

    Vou dizer uma coisa, vocês precisam se mudar urgentemente para a Europa e para um país da Europa onde só tenha gente rica, vocês inclusive, e bonita.

    A porra da vida de vocês seria uma merda sem graça se todas essas porcarias não existissem. Sabe o que iam fazer? Se matar igual aos japas, aos suecos e mais uma pá de gente que mora em países ricos, onde se tem tudo, onde as mulheres são bonitas (mas dizem que não fazem sexo, ou fodem ou trepam, como as brasileiras).

    Pois eu gostava de pegar ônibus, não lotado. Gostava porque sentava e lia meu livro, escutava minha música. Agora experimentem pegar um carro e dirigir as 18h pela Hermes da Fonseca. Experimentem pagar gasolina e todas as exigências que se fazem por possuir um carro.

    Enfim, a vida não tem graça sem suas mazelas.

    Shakespeare de cu é rola.*

    *Em sua homenagem Tiago.

  6. Hugo Morais said, on Março 29, 2008 at 11:26 am

    Já conhece a dança do pisca Tiago? Aprenda para dançar na próxima LoQueSea:

  7. Tiago Lopes said, on Março 30, 2008 at 6:29 pm

    Hugo, curto andar de ônibus, sou a pessoa mais pró-ônibus que você conhece. Mas bicho, zona norte não te diz nada não? Se eu pudesse pegar um 46 lotado diariamente eu seria menos infeliz num ônibus lotado. Você reclama que eu reclamo porque não sabe o que é a zona norte. Não conheço porra de dança de pisca não caralho, e não vou conhecer também. E pra todos vocês que desdenham do bardo (nhéééé, feio usar essa expressão, mas precisava fechar minha cota de cafonice diária, já que é um domingo e eu só vejo serejo nas segundas e sextas), só sinto pelo desnecessário feeling negativo.

    Alexis, depois de ler Pride and Prejudice, quero um casaco de veludo pra usar com umas ombreiras… ó! Vai ficar tudo muito pawww.

  8. Hugo Morais said, on Março 31, 2008 at 10:55 am

    Ok Tiago. Tu já pegou o 66 (Ponta Negra Campus – Cid da Esperança – Cid Nova – Dix-sept Rosado – Quintas) domingo as 17h? Experimente. O povo voltando da praia bêbado, fedorento, sujo de areia e ainda por cima com um batuque na traseira do ônibus. Experimente.

  9. Érico Niemeyer said, on Abril 3, 2008 at 5:17 am

    Segundo Henfil: Zico desequilibra e se faltar o Zico, pôe uns livros de apenas um dos lados da tv. compensa o desequilibrio.

  10. Devotchka said, on Abril 4, 2008 at 2:48 am

    Achei que ue fosse o único ser do mundo capaz de sentir uma enorme repulsa por pessoas, argh, do cotidiano…não sei como ainda tem gente capaz de escrever livros e fazer filmes retratando essas anomalias!

  11. RamonPapão said, on Abril 8, 2008 at 3:15 pm

    Essa parada do ônibus foi foda! tu por acaso sabe onde mora?

    cara, qualé… ficar com merdinhas de que tudo de fora é melhor e mais digno é coisa de cagalhão.

    não querer o pobre ao teu lado é negar de onde veio, na boa. querer distância de pedreiro, de empregada doméstica, de prostituta, de bêbado, de suados trabalhadores é, como já disse, negar as origens, e isso é fruto de uma má educação.

    cara, dê um tempo na net, a vida ñ é só filmes, pare um pouco e assista ao cotidiano que você vai enterder como tudo isso é belo e tem um sentido tão massa. a beleza é só uma questão de educação do olhar.


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