dead like me, you and everyone we know
Acompanhem meu priceless raciocínio: você, você, todos você irão morrer e, quando bate o medo do inevitável, a primeira coisa que você pensa é como vai sentir falta de tudo isso: a brisa, o sol, o mar e nipple slip. Tudo muito altruísta, você demonstrando interesse no seu feeling em relação ao mundo aê, como tudo isso vai deixar de existir e você, muito humildemente, só se conforma com a falta que TUDO ISSO vai te fazer. Aí bate o terror e, automaticamente, a idéia do inevitável é esquecida e você começa a pensar em como a moça que acabou de sentar no banco da frente do ônibus ficaria mais agradável se estivesse despida.
Não fosse o vestido delineando o best of da citada moça, meu priceless raciocínio não seria abruptamente interrompido e eu chegaria nessas conclusões: na real, não me importo nem um pouco com o nobre sentimento provocado pela antecipação da falta que TUDO ISSO vai me fazer, acho que é “saudade” ou alguma coisa kistch aí. O que me assusta mesmo é como TUDO ISSO vai perder um dos seus melhores exemplares. Passei a vida inteira me preparando para soar como a mais interessante das pessoas, não decepcionando em público as que estão próximas e sendo solícito e educado com todas a outras. Sendo amável e agradável enfim. Procurei ler, ver e ouvir os melhores, para o meu bel-prazer e para saber como me comportar defronte aos mais diversos tipos de gente, sempre, sempre procurando ser o mais pleasant possível a todo mundo. Tendo a certeza de que eu atingi esse nível aí de simpatia, só consigo pensar em como farei falta pra quem fica e vai ter o prazer de acompanhar a morte de Keith Richards e Léo Batista. E vai ser um merda perder todo esse investimento por causa de um trombadinha, ou de uma cãibra, ou de um tétano, ou de um outdoor contendo um anúncio de cueca caindo em cima da minha cabeça.
E como alguém tão babacamente egoísta e convencido pode se comportar diante daquela bárbara combinação de pretinho básico e foice? Sei lá, mas acho que esse “alguém” aí deveria ser substituído por algo mais ou menos assim: “todo mundo”. Creio eu que o medo da morte não deriva da falta que TUDO ISSO vai me fazer, mas da falta que o meu precioso eu vai fazer a mim mesmo. Essa pessoa fantástica e imprescindível em certos círculos sociais simplesmente não mais vai estar presente, e eu sinto muito por isso. E acho que, quando se chega numa conclusão como essa, apesar do vento estar fazendo o vestido da moça esvoaçar um tanto quanto o esperado e atrapalhar a concentração, você experimenta o mais alto grau de self-respect que um serzinho bípede pode sentir. Therefor, ter medo da morte é dizer implicitamente “eu me amo”, e não “eu amo o mundo”. Mas ter MUITO medo da morte já é atingir um nível assustador de “i’d fuck myself”. Moderação pessoas, moderação. E vocês aí que ainda não chegaram a essa conclusão, é porque precisam esquecer da moça de vestido esvoaçante.
Cannes 69 menos 8
Saiu a insossa seleção de filmes a concorrerem a Palma de Ouro no festival de Cannes 2008. Como nesse exato momento não tenho muito o que fazer além de exalar um incômodo cheiro de mofo, irei dispensar nesse espaço comentários dispensáveis sobre o rega-bofe com a melhor vista para o mar de todos os tempos.
Júri:
A presidência ficou com Sean Penn, que deve estar feliz como um solteiro no rio de janeiro por ter como subordinada a Natalie Portman. Também o Alfonso Cuáron vai dar pitaco pra decidir quem vai levar o troféu de melhor five-to-one do ano, mais uns anônimos impronunciáveis aí: uma atriz alemã, um diretor francês, um cantor/modelo/ator italiano e um tal de Apichatpong.
Seleção oficial:
Os filmes selecionados para a 61ª competição formaram o maior quem-é-quem na nayte dos últimos 3 anos. Falemos então de quem já passou pela tela de 20″ lá de casa:
Os irmãos Dardenne estão na roda com Le Silence De Lorna, espero eu que com mais uma impressionante sequência de perseguição envolvendo um triciclo e mais uma trágica história de fugitivo da Febem.
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Charlie Kaufman finalmente coloca seu nome abaixo de um “a film by” com Synecdoche, New York. Atuando nesse esperado filme, a ex-dawson e atual viúva do coringa Michelle Williams mais Philip Seymour Hoffman, Katherine Keener, Emily Watson e Samantha Morton. Parece que veremos metalinguagem a granel também nesse filme.
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La Mujer Sin Cabeza é o mais novo sonífero posto no mercado pela farmácia de manipulação cucaracha Lucrecia Martel. O efeito desse será um pouco menor do que o causado pelos dois anteriores (apenas 1 hora e 27 minutos do mais profundo sono) e esse título deve querer explicitar alguma simbologia absurda envolvendo mitologias gregas, a situação econômica da Argentina e a empregada da sua casa, mas não se deixe enganar por esses disparates e prepare-se para encontrar Deus (ou o palhaço Bozo, vai da crença de cada um) na tranquilidade do seu sono.
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Changeling conta a história de uma mãe que teve seu filho seqüestrado e, quando o garoto volta para casa, ela começa a desconfiar que esse talvez não seja o seu filho verdadeiro. Como é do Clint Eastwood, me pergunto: o que será desconstruído durante esse filme? Como tem a Angelina Jolie, acredito piamente na desconstrução e desmistificação do mito de que ela é um boa atriz, ou de que já foi alguma vez. Mas continua muy garbosa, e em trajes de época então…
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Walter Salles e Daniela Thomas ganham passagem para França e hospedagem de grátis graças a Linha de Passe, que traz de volta aquele menino lá de Central do Brasil, o nosso Macaulay Culkin. O filme é mais um sobre futebol e fé, ou alguma coisa que o valha. Ninguém aqui do Brazil vai dar a mínima, o filme possui -10 chances de levar alguma coisa, mas os criadores estarão lá, comendo, bebendo e babando em cima da Natalie Portman sem nenhum custo adicional.
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Soderbergh é um cara massa quando quer ser. Só por ter feito a melhor trilogia da década (Ocean’s 11, 12 e 13) já tem todo o meu respeito. Mas depois de criar todas as situações mais sutilmente engraçadas e elegantes do cinema recente com esses filmes, bateu um feeling de ser pobre e cafona no homem e ele foi no alvo certo: biopic de QUATRO HORAS DE DURAÇÃO de Che. Digo agora que este será o meu personal Tropa de Elite de 2008: jamais verei.
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E teremos mais Win Wenders. Sendo o principal arroz-de-festa de Cannes, o alemão aparece esse ano com The Palermo Shooting, que tem Lou Reed e P-a-t-t-i S-m-i-t-h como Himself e Herself. Acho que, nem desse jeito, essa porção terceira-idade do filme vai fazer mais alguma coisa que preste. Torcer pra que a trilha sonora tenha ficado a cargo de outras pessoas com o senso do ridículo mais apurado.
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La Frontière De L’aube é o novo do Philippe Garrel e a única informação que eu consegui achar sobre esse filme é a de que Louis Garrel está novamente como o protagonista da obra do papai. Gostei bastante de Les Amants Réguliers, espero com alguma ansiedade por esse e torço pra achar mais torrents dos filmes antigos do Philippe.
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Os outros escolhidos para a seleção principal são umas pessoas anônimas com uns nomes estranhos aí. Considerações finais:
Cadê Blindness nessa birosca?
Cadê Burn After Reading?
Lá vai Matheus Nachtergaele arrozdefestear até em Cannes.
Domingão com Karaizão
Tirei um domingo desses aí pra ver os três filmes da trilogia do Wong Karai: Dias Selvagens, Amor à Flor da Pele e 2046. Tinha uma idéia vaga do que tratavam, mas não imaginava que fosem todos intimamente ligados ao óh-óh-amor. Cada um trata de maneira diferente este que muitos de vocês aí dão alguma importância. Digo isso porque, ao término da maratona “domingão com karaizão”, percebi que não havia guardado muita simpatia pelas histórias dos filmes (exceto pela do terceiro, que é a melhor mesmo e a única que dispensa todo o mambo jambo necessário ao tema), o que gostei mesmo foi a maneira como elas foram filmadas.
Dias Selvagens começa com um china dando uma de malandro-carioca, urubuzando uma china songa-monga na barraquinha suco+salgado=1real onde ela trabalha. Tenta umas tantas vezes até conseguir levar a china pro pardieiro onde vive. Ela, se comportando como uma clássica songa-monga, o pede em casamento nem bem foi fornicada. Ele diz que não, ela diz que vai esquecê-lo blá blá blá catshow sachê blá blá blá. Corta pro china malandro-carioca descendo o cacete num mané que gigolozava a sua mãe, dentro do camarim de uma dançarina-puta. O china, depois do quebra-pau, dá em cima da dançarina-puta. Ela, muito fácil, vai pro pardieiro dele. Corta pra china songa-monga sendo amparada por um guarda enquanto se lamenta do óh-óh-amor perdido. Esse casal, mais contido, mais calado, logo mais aturável, é onde o filme se segura para não chatear tanto com a falação do casal malandro-carioca/dançarina-puta, porque, juntos, eles são o mais insuportável de todo o filme, ela tem todo um ciúme e ele não dá a mínima pra isso, só quer saber de encontrar sua mãe verdadeira (que foi puta e ele quer conhecer, mas sua mãe adotiva não dá o endereço dela). É o tipo de combinação de fatores que expõem a extrema pobreza de espírito dessas pessoas, provocando, antes de mais nada, irritação latente: 1)gente feia 2)fazendo escândalo 3)num cortiço. Enfim, é o início de uma trilogia que fala sobre óh-óh-amor, logo, mostra toda a imaturidade do início das relações e como as primeiras não devem ser levadas a sério. Pra encerrar, uma rápida sequência de luta implorando pela atenção do Tela Class.
Amor à Flor da Pele é bem diferente do Dias Selvagens: possui um senso de estilo inexistente no filme anterior e ultrapassa a sua imaturidade. A ligação do primeiro com o segundo é a china songa-monga, que passou numa loja entre um filme e outro, comprou 46 toalhas de mesa e transformou-as em 46 vestidos de modelo único. Ganhou com isso uma elegância que escondeu a sua postura de retardada e lhe acentuou um ar enigmático, que a deixou mais tetéia, claro. Então… A china outrora songa-monga se muda para um quartinho com seu marido. O apê ao lado também está recebendo novos moradores: um china tampinha e jornalista, e a sua esposa. O marido e a esposa desses chinas não comem em casa, ficam no trabalho até tarde – estão, obviamente, se pegando – enquanto os chinas vão toda noite pra fila da barraca de miojo da esquina, em slow motion e sem se cruzarem. Mas eles se encontram em algum momento, partilham a certeza de que seus respectivos estão se pegando e resolvem se pegar também. Mas não se pegam. O jornalista começa a escrever um romance com a ajuda da china e ficam trancados em um quarto de hotel (número 2046) apenas com esse propósito, sempre amigos, nunca adúlteros. E é dessa falta de consumação que o filme trata, tanto óh-óh-amor e tantas convenções para se chegar no seu mais prazeroso estágio. O máximo de contato entre eles que é mostrado são as mãos dadas. É o mais romântico dos três filmes e o mais contido. Por estar filmando um não-caso, Wong Carvalho procura chamar a nossa atenção para algo que supostamente não irá causar nenhum interesse carregando muito bem na fotografia, nos cenários, em todos os segmentos que compõem a FORMA de um filme, sua moldura, etc etc etc.
Mas acho que essa forma chega ao cúmulo de sua beleza plástica em 2046. A ligação do segundo para o terceiro é, dessa vez, o china jornalista. Daí já dá pra ter alguma idéia de que essa trilogia quer falar do tal do óh-óh-amor usando apenas um único casal como exemplo máximo. Os personagens ao redor da china songa-monga e do china tampinha só existem para estimular as atitudes tomadas por eles, que irão justificar o porquê de estarem próximos ou afastados um do outro. E em 2046, o china está sozinho, escrevendo sobre “2046″: um lugar onde as pessoas vão para recapturar memórias perdidas, porque nada muda em “2046″. É nesse livro que o china vai tentar explicar para si mesmo o porquê do seu relacionamento com a china songa-monga ter falhado, fazendo uso do gênero que mais se apoia na criação de metáforas para dar algum sentido à realidade: a ficção científica. É através dessa definação sobre “2046″ que Wong Karai vai desfiando o estado de espírito do seu protagonista, que passa o filme inteiro se lamentado pela ausência do seu grande óh-óh-amor, enquanto traça outras china (as mais tchans da trilgogia estão nesse filme) e enche a cara de cana. 2046 foi tachado de “confuso”, um filme que não deixa transparecer em qual tempo sua ação se desenrola e que se confunde com a obra criada pelo china. Acho que ver a trilogia inteira de uma vez acaba com essa sensação de confusão, já que esse é o filme solo do china, onde ele vai recordar várias vezes momentos dos dois anteriores e encontrar alguns de seus personagens. Ele fornece a melhor definição para entender todas essas idas e vindas: “O amor é uma questão de timing, não adianta encontrar a pessoa certa muito cedo ou muito tarde. Se eu vivesse em outro tempo ou espaço, minha história talvez tivesse um final diferente”. 2046 é o mais triste da trilogia, sustentado apenas por um profundo sentimento de remorso que tenta se esconder atrás de um sem-número de personagens e suas sub-tramas que só atenuam o pesar da história principal. E, por isso tudo, é também o melhor e o mais satisfatório.
Esteja lá para ouvir / É a sua única chance
Tem uma música que eu tenho ouvido diariamente, há quase duas semanas, sempre antes de dormir. E isso não é intencional, não programei ouvir essa música por duas semanas, sempre antes de dormir, não sou metódico nem disciplinado e acho até que, se eu tivesse programado, não teria ouvido essa música todos os dias antes de dormir. É porque quando eu me deito, quero ter essa imagem que eu criei na primeira vez que eu ouvi essa música. É uma imagem agradável o suficiente para me pôr em um sono tranquilo, tão confortável quanto é a música que me fez criar essa imagem que, de tanto pensar nela, acabo tendo um sono tranquilo.
Sentado no canto de um grande salão, vestindo roupas que nunca usei e vendo algumas poucas pessoas, todas vestidas de maneira não-ordinária, escuto essa música e começo a prestar atenção nela. Olho para o outro lado desse salão e vejo que uma garota também presta muita atenção nessa música e eu deixo de prestar atenção na música e começo a olhar para ela. Quando ela percebe, olha para mim e, durante alguns míseros segundos, ficamos assim, imóveis, até que ela se levanta e eu me levanto e nos encontramos bem no meio do salão, e nos abraçamos. Quando o cara da música começa a cantar, ela encosta o queixo no meu ombro e começa a acompanhar a música, ela conhece todos os versos e os acompanha sem nenhuma hesitação. Então resolvo acompanhar também, já que eu conheço bem essa música de tanto a ouvir antes de ir dormir, há um tempo atrás. Encosto meu queixo no seu ombro e começo a cantar, baixinho, no mesmo tom de voz dela e do cantor. Ela sente no seu ombro o movimento feito pela minha boca enquanto canto, e é a mesma sensação que eu estou sentido no meu ombro enquanto ela canta, e isso é bom. E quando o cara da música pára de cantar e, no lugar da sua voz, entra um saxofone, nós também paramos de fazer movimentos com a boca, mas continuamos ali, no meio, indo um pouco para um lado e um pouco para o outro, mas nunca saindo de um imaginário espaço que nós delimitamos para conter movimentos bruscos e nos manter ali, quase imóveis. Quando o solo de sax termina e a voz volta, para encerrar a música com uma rápida subida de tom, a sensação de ter alguma coisa sendo levemente pressionada nos nossos ombros também volta e é ainda melhor, já que a música está chegando ao fim e o constragimento de não saber o que fazer ou dizer depois ainda é só uma ansiedade. E ela termina e o constragimento se instala, e a gente se separa, como se só pudéssemos nos juntar de novo quando essa música começasse a tocar novamente, porque só consigo pensar nessa imagem enquanto essa música toca.
E mesmo que algum dia eu consiga reproduzir tudo isso que imaginei, não vai ser tão espontâneo quanto parecia ser na minha cabeça, porque foi planejado. Então já me conformei que isso nunca vai acontecer. Porque eu queria que acontecesse com o pacote todo, a música, a garota, o salão, as roupas e, principalmente, a espontaneidade. Como eu já imaginei tudo isso, nunca vou sentir a mesma sensação de surpresa que senti quando imaginei tudo isso. Então é reconfortante saber que, sempre que eu imaginar de novo e de novo essa cena na minha cabeça, enquanto escuto essa música, vou sentir o elemento surpresa que todos esses acontecimentos ordinariamente comuns – mas não corriqueiros na minha vida – me fazem sentir. Um dia, essa imagem vai me cansar porque abuso de tudo o que eu escuto demais. Mas passo um tempo sem ouvir e volto a escutar e a sensação de supresa presente em toda a imagem que eu criei vai estar lá, intacta.
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