Da Década!

Domingão com Karaizão

Enviado em Cinema by Tiago Lopes em Abril 14th, 2008

Tirei um domingo desses aí pra ver os três filmes da trilogia do Wong Karai: Dias Selvagens, Amor à Flor da Pele e 2046. Tinha uma idéia vaga do que tratavam, mas não imaginava que fosem todos intimamente ligados ao óh-óh-amor. Cada um trata de maneira diferente este que muitos de vocês aí dão alguma importância. Digo isso porque, ao término da maratona “domingão com karaizão”, percebi que não havia guardado muita simpatia pelas histórias dos filmes (exceto pela do terceiro, que é a melhor mesmo e a única que dispensa todo o mambo jambo necessário ao tema), o que gostei mesmo foi a maneira como elas foram filmadas.

Dias Selvagens começa com um china dando uma de malandro-carioca, urubuzando uma china songa-monga na barraquinha suco+salgado=1real onde ela trabalha. Tenta umas tantas vezes até conseguir levar a china pro pardieiro onde vive. Ela, se comportando como uma clássica songa-monga, o pede em casamento nem bem foi fornicada. Ele diz que não, ela diz que vai esquecê-lo blá blá blá catshow sachê blá blá blá. Corta pro china malandro-carioca descendo o cacete num mané que gigolozava a sua mãe, dentro do camarim de uma dançarina-puta. O china, depois do quebra-pau, dá em cima da dançarina-puta. Ela, muito fácil, vai pro pardieiro dele. Corta pra china songa-monga sendo amparada por um guarda enquanto se lamenta do óh-óh-amor perdido. Esse casal, mais contido, mais calado, logo mais aturável, é onde o filme se segura para não chatear tanto com a falação do casal malandro-carioca/dançarina-puta, porque, juntos, eles são o mais insuportável de todo o filme, ela tem todo um ciúme e ele não dá a mínima pra isso, só quer saber de encontrar sua mãe verdadeira (que foi puta e ele quer conhecer, mas sua mãe adotiva não dá o endereço dela). É o tipo de combinação de fatores que expõem a extrema pobreza de espírito dessas pessoas, provocando, antes de mais nada, irritação latente: 1)gente feia 2)fazendo escândalo 3)num cortiço. Enfim, é o início de uma trilogia que fala sobre óh-óh-amor, logo, mostra toda a imaturidade do início das relações e como as primeiras não devem ser levadas a sério. Pra encerrar, uma rápida sequência de luta implorando pela atenção do Tela Class.

Amor à Flor da Pele é bem diferente do Dias Selvagens: possui um senso de estilo inexistente no filme anterior e ultrapassa a sua imaturidade. A ligação do primeiro com o segundo é a china songa-monga, que passou numa loja entre um filme e outro, comprou 46 toalhas de mesa e transformou-as em 46 vestidos de modelo único. Ganhou com isso uma elegância que escondeu a sua postura de retardada e lhe acentuou um ar enigmático, que a deixou mais tetéia, claro. Então… A china outrora songa-monga se muda para um quartinho com seu marido. O apê ao lado também está recebendo novos moradores: um china tampinha e jornalista, e a sua esposa. O marido e a esposa desses chinas não comem em casa, ficam no trabalho até tarde - estão, obviamente, se pegando - enquanto os chinas vão toda noite pra fila da barraca de miojo da esquina, em slow motion e sem se cruzarem. Mas eles se encontram em algum momento, partilham a certeza de que seus respectivos estão se pegando e resolvem se pegar também. Mas não se pegam. O jornalista começa a escrever um romance com a ajuda da china e ficam trancados em um quarto de hotel (número 2046) apenas com esse propósito, sempre amigos, nunca adúlteros. E é dessa falta de consumação que o filme trata, tanto óh-óh-amor e tantas convenções para se chegar no seu mais prazeroso estágio. O máximo de contato entre eles que é mostrado são as mãos dadas. É o mais romântico dos três filmes e o mais contido. Por estar filmando um não-caso, Wong Carvalho procura chamar a nossa atenção para algo que supostamente não irá causar nenhum interesse carregando muito bem na fotografia, nos cenários, em todos os segmentos que compõem a FORMA de um filme, sua moldura, etc etc etc.

Mas acho que essa forma chega ao cúmulo de sua beleza plástica em 2046. A ligação do segundo para o terceiro é, dessa vez, o china jornalista. Daí já dá pra ter alguma idéia de que essa trilogia quer falar do tal do óh-óh-amor usando apenas um único casal como exemplo máximo. Os personagens ao redor da china songa-monga e do china tampinha só existem para estimular as atitudes tomadas por eles, que irão justificar o porquê de estarem próximos ou afastados um do outro. E em 2046, o china está sozinho, escrevendo sobre “2046″: um lugar onde as pessoas vão para recapturar memórias perdidas, porque nada muda em “2046″. É nesse livro que o china vai tentar explicar para si mesmo o porquê do seu relacionamento com a china songa-monga ter falhado, fazendo uso do gênero que mais se apoia na criação de metáforas para dar algum sentido à realidade: a ficção científica. É através dessa definação sobre “2046″ que Wong Karai vai desfiando o estado de espírito do seu protagonista, que passa o filme inteiro se lamentado pela ausência do seu grande óh-óh-amor, enquanto traça outras china (as mais tchans da trilgogia estão nesse filme) e enche a cara de cana. 2046 foi tachado de “confuso”, um filme que não deixa transparecer em qual tempo sua ação se desenrola e que se confunde com a obra criada pelo china. Acho que ver a trilogia inteira de uma vez acaba com essa sensação de confusão, já que esse é o filme solo do china, onde ele vai recordar várias vezes momentos dos dois anteriores e encontrar alguns de seus personagens. Ele fornece a melhor definição para entender todas essas idas e vindas: “O amor é uma questão de timing, não adianta encontrar a pessoa certa muito cedo ou muito tarde. Se eu vivesse em outro tempo ou espaço, minha história talvez tivesse um final diferente”. 2046 é o mais triste da trilogia, sustentado apenas por um profundo sentimento de remorso que tenta se esconder atrás de um sem-número de personagens e suas sub-tramas que só atenuam o pesar da história principal. E, por isso tudo, é também o melhor e o mais satisfatório.

3 Responses to 'Domingão com Karaizão'

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  1. Rudá said, on Abril 15th, 2008 at 12:36 am

    Acho o “Amor à Flor da Pele” o melhor dos três, pois, como diria nosso amigo Zé (Wilker), ele é mais redondo, mais conciso, mais… cê entendeu.

    O 2046, como cê disse aí, é muito confuso. E longo também, o que não atrapalharia se o Karai não adorasse uma câmera lenta a cada 2 minutos. Mas, mesmo assim, é um filme bão.

  2. Lucena said, on Abril 15th, 2008 at 12:03 pm

    Eu vi “Amor à Flor da Pele” esses dias e gostei pra caramba, lembrei de você me perguntando naquele dia no cinema se eu ja tinha visto algum da trilogia, hehe. Mas o primeiro que vi dele foi o My Blueberry Nights. Já viu? Meio bobão, mas muito bonito.

  3. Hugo Morais said, on Abril 15th, 2008 at 3:38 pm

    Estás cada dia pior. Alexis falou que perto da sua casa tem um beréu.

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