“I was struck less by his looks than by the fact that he was carrying a large teddy-bear”
Enquanto lia pela primeira vez Brideshead Revisited, sempre empacava num grave problema de falta de imaginação por nunca conseguir criar uma imagem satisfatória do Sebastian carregando seu ursinho. Creio que visualizei com um certo respeito e alguma fidelidade todo o resto, mas sempre que topava com uma menção ao Aloysius (nome do teddy-bear), conseguia vê-lo apenas enquanto sua presença era apontada. Exemplo: num encontro entre o Sebastian e o Charles, quando o Waugh informa que aquele está carregando o urso, conseguia vê-lo pendurado nas mãos do Sebastian somente enquanto lia, por exemplo, “Sebastian’s teddy bear sat at the wheel. We put him between us”; continuando a leitura do diálogo travado entre eles, me esquecia completamente da presença do ursinho, mas todo o cenário, figurino e objetos descritos nessa conversa continuavam em seus devidos lugares na minha cabeça.
Mas A-HÁ! Esse fim de semana assisti o primeiro episódio da série da BBC baseada no livro. Ver o Sebastian carregando Aloysius não foi tão normal quanto minha ansiedade antecipava. Na verdade, tenho certeza que foi uma das imagens mais bizarras que já vi, por isso minha imaginação um tanto pequena (devo admitir) se recusou a manter constantemente viva tão estranha imagem. De todas as excentricidades descritas ao longo do livro – TODO o Anthony Blanche, o comportamento do Sebastian em suas viagens feitas já em pleno declínio -, tudo isso me pareceu menos incômodo do que um homem crescido carregando um urso de pelúcia em aparições públicas. Acho que por toda a facilidade do gesto (agarrar um urso depois de vestir um bom terno não demanda muito esforço físico), a caminhada em público com um urso nas mãos me parece A atitude mais excêntrica da qual já tomei conhecimento.
Creio eu que mudanças nesse posto não irão ocorrer em tão breve momento, porque continuo imaginando todo o efeito provocado pela disseminação desse comportamento: adultos carregando ursos de pelúcia, paralelamente à mochilas, malas e outros objetos que possam ser carregados na outra mão. Imagino que em 1945 – data da primeira edição de Brideshead Revisited e também ano em que a II Guerra Mundial chegou ao fim – toda uma multidão de sobreviventes dos campos de batalha voltou para casa e teve que encontrar sua jovem prole carregando ursos de pelúcia pelos pátios das universidades e pior!! dando nomes aos seres inanimados e levando-os aos salões de festa, barbearias, praças…
Sinto que a presença das gravatas borboleta, dos chapéus-coco e dos bigodes aliviava um pouco o choque da visão de um urso sendo carregado por um homem em locais públicos. Transpondo a imagem para os dias de hoje, na principal avenida da minha cidade, tenho certeza que visões de homens em sungas fazendo caminhadas na beira da praia, com um squeeze em uma mão e um teddy bear na outra, me levariam a convulsões instantâneas. E há quem se submeta à dor provocada por perfurações cutâneas com o intuíto de provocar algum choque na comunidade local e chamar a atenção dos mais carolas, desconhecendo o maior e mais indolor causador de espanto: o ato de carregar um urso de pelúcia à vista de todos.
(Mas há mais, bem mais, em Brideshead Revisited do que um bando de afetadinhos fazendo coisas excêntricas. Há um declínio tão onipresente que alcança a todos os personagens, via decadência, ação do tempo ou remorso irredutível. E todos eles caem e é tudo penosamente divertido).
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