Da Década!

Se vai colonizar, coloniza direito p!

Publicado em Literatura por Tiago Lopes em Setembro 3, 2008

Tô aqui querendo falar do remorso colonizador que já foi diagnosticado há umas boas centenas de anos e que, talvez, só vai se concretizar daqui a mais umas boas centenas. Esse sentimento de quem acha que, para colonizar outro planeta, só com muito amor e compreensão das culturas que nos são estranhas. Se é pra continuar com esse pensamento covarde travestido de consciência, é melhor ir atrás de colonizar os pólos terrestres e desistir de ir além da camada de ozônio.

Porque, pela enésima vez, enquanto lia uma narração de um outro planeta sendo colonizado, apareceu de novo aquele momento em que o protagonista, depois de cair numa armadilha deveras estúpida feita pelos moradores locais, começa a ter consciência da morte iminente e passa a pensar que, realmente, não é uma boa idéia explorar descontroladamente os recursos dos planetas vizinhos. Sabe né? Lá eles também possuem algum coração escondido atrás de uns tentáculos (sempre tentáculos, mas antes tentáculos do que boinas. Aí sim teriam imaginado seres extraterrestres com um extremo mal gosto e falta de respeito). Nesse caso específico, foi um conto do Lovecraft, “Entre as Paredes de Eryx”, que me fez notar o quão chata e amplamente desnecessária é essa consciência que sempre aparece repentinamente, advinda dos momentos em que o terráqueo bobão foi vítima de alguma tecnologia desconhecida, que ele duvidava que existisse além de sua atmosfera.

Se não me falha a memória, num dos capítulos de The Martian Chronicles, o Bradbury mostra uns personagens se resentindo pela maneira como tornaram Marte uma nova Terra (que já estava inabitável quando os terráqueos fugiram para o planeta vermelho), mas é só um breve resentimento, porque o estrago já foi feito, não adianta mais reclamar etc etc. Em todas as crônicas, diversas histórias de como o homem se ocupou em solo marciano e como o lugar estranho o influenciou e vice-versa, mas sem nenhum mimimi-mimimi por causa dos pobres coitados dos marcianos. Uma colonização não deve seguir uma conduta de respeito para com outras culturas, porque daí não é colonização, é intercâmbio estudantil. Uma hora o terráqueo se cansa da culinária dos marcianos e, ou volta pra casa ou sai acrescentando orégano e catchup nos pratos marcianos. Como não vai ter casa pra voltar (por isso a necessidade de colonizar outro planeta), em pouquíssimo tempo, nossas doenças irão dizimar uma população inteira de extra-terrestres.

Engraçado que o Bradbury até eximiu um pouco da culpa dos terráqueos na extinção da raça marciana, fazendo com que essa fosse extinta não por atos agressivos ou conflitos armados, mas por um vírus. Ele tinha a consciência de que não adiantava romantizar os sentimentos dos extra-terrestres e transformá-los em alvos indefesos da nossa oh-oh-perversa ganância, tampouco concedeu aos terráqueos um altruísmo claramente folclórico. É um caso isolado, no meio de um gênero que teima em nos foder sistematicamente na mão de marcianos, só para tentar provar que o nosso egoísmo sempre será o culpado de eventuais falhas em exploração descerebrada de ambientes inóspitos. Um insulto achar que o nosso egoismo não será apoiado por uma armação pesada.

***

Nessa mesma coletânea de contos do Lovecraft (A Tumba, lançada pela LP&M), há um muito redentor. Os outros contos são todos meio entediantes por causa da adjetivação exagerada, recurso usado com moderação pelo Poe e extrapolado pelo púpilo. Enquanto o Poe descrevia uma cadeira como “assustadora”, o Lovecraft confere aura macabra à cadeira e ainda dá um adjetivo diferente para cada uma das suas quatro pernas. Tentar levar o leitor ao susto e à inquietação enfeitando até um par de meias não é lá das melhores idéias. É uma gordura desnecessária, mais ainda se os acontecimentos da narrativa forem, por si só, estranhos o suficiente para dispensarem afloreamentos. É o caso de “O Horror em Red Hook”, que começa como uma ótima história de detetive, descamba num clímax assustadoramente insano e termina de maneira sobriamente sã. (Como vocês acabaram de ler, não recomendo o uso desnecessário de adjetivos).

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