Da Década!

os mais-mió

Publicado em Cinema por Tiago Lopes em Dezembro 26, 2008

Grande ano pro terror, mesmo que eu só tenha conseguido contabilizar quatro grandes filmes. Mas, não lembro de um de 2007 que eu tenha gostado então, repito: grande ano pro terror.

Antes de mais nada, preciso dizer que Brown Bunny foi a pior coisa sobre a qual meus olhos estacionaram suas retinas cansadas nesse ano, péor ainda foi o meu par de globos oculares ter se mantido aberto por longuíssimas duas horas para presenciar um FINAL DAQUELES HEIN! “Ela(e) estava morta(o) o tempo todo” é o filhote mais tacanho de “foi tudo um sonho”, e quem sequer chegou a pensar em usar esse recurso é porque nem deveria ter começado a escrever um roteiro. Mas, se eu me demoro um pouco mais na análise dessa grosseria e vou além dos piores adjetivos, me saio com isso: são duas horas de nada, DE ABSOLUTO NADA; desde aquela exibição em cannes, o que se tinha sobre esse filme era somente, e nada mais, a instigante informação de que Chloe Sevigny metia a boca no trombone sem medo de ser feliz. Quer dizer então que só isso deu força o suficiente a esse filme para que ele chegasse a ser exibido numa sala de cinema em Natal? Se eu filmar, por três horas, o movimento das ondas da praia de pirangi e quiser exibir essa obra-prima da contemplação sensitiva em salas de cinema do mundo inteiro, só tenho que inserir, no final, uma sereia meia-noveando uma baleia famosa (digamos, Willy)? É isso que eu preciso fazer pra chegar em cannes e fungar o cangote da Penelope Cruz?

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(alguns spoilers ahead)

Fim dos Temposaqui falei sobre, exatamente depois de ter assistido.Vi de novo esses dias e a empolgação dessa resenha nem foi fruto do recém armazenamento de informações, é porque é massa mesmo. Assim como James Gray, Shyamalan tem zero respeito dentro do país que financia suas obras, mas a França, que soube dar boa acolhida ao Hitchcock antes mesmo dos americanos, acha a filmografia dos dois irrepreensível e única. Isso é um Filme B classe A, o problema é que o mundo leva a sério demais as coisas e não aceita que um ótimo filme B venha embalado num grande orçamento, tem que ser tosco pra ser cult. Shyamalan is raising fingers pra vocês.

O Nevoeiro – Outro exemplo clássico do que foi dito anteriormente. Os EUA praticamente ignoraram esse filme, o melhor na filmografia de alguém que, antes, não era mais que um rascunho de grafite do Frank Capra. Fez um Filme B tão massa, mas tão massa, que todo mundo que entendeu bem a piada chegou a desperdiçar elogios, só para tentar chamar mais ainda a atenção de quem não queria ver esse achado por algum motivo besta, como “sério que são insetos gigantes? redéculo!”. Ah you people, certeza que cês escapam da realidade vendo Claudio Assis.

REC – Já tinha visto via torrent, porque era realmente improvável que chegasse nas salas de cinama do país, quanto mais de Natal, visto que o remake americano tinha estreado semanas antes do original chegar por aqui. Mas chegou, e chegou chegando. Ocupou 2 salas locais por mais de um mês, sendo um filme de execução meio sebosa (hand-camera, cortes escassos, ausência de trilha sonora), foi bem surpreedente. E essas decisões que o filme tomou deram tanta ênfase à hora do pega pra capar, a ponto de dar uns calafrios assim. De verdade. Aquela coisa do final me deu uma vontade de fechar os olhos que nem na primeira vez que vi o frozen Jack Nicholson n’O Iluminado.

O Orfanato – Mexer com criancinhas já dá aflição só de pensar na idéia. Todos esses filmes atingem algum ápice de susto quando se prestam a fazer algum mal aos indefesos (a morte dos guris em Fim dos Tempos, a menina contaminada de REC, a morte do filho do protagonista de O Nevoeiro). O Orfanato é todo feito de tragédias infantis. Segue bem cadenciado, um filme de suspense calmo, só pra fazer do final uma parada mais chocrível ainda. E ainda é todo bonito e tem a melhor MILF do ano.

:O

Publicado em Cinema, Música por Tiago Lopes em Dezembro 15, 2008

inimigo

Porque eu acho essa logo muito bem transada e cheia das mudernidades, sempre vou estampá-la por aqui quando postar um texto por lá. Então, clica na img e procura “O Trigo do Joio I: Kings of Leon“, para se esbaldar com as minhas words of wisdow sobre o equívoco que são os dois discos mais recentes dessa outrora grande banda. Depois, passeia pelo resto do sítio para ler mais sobre di-veeeer-sos assuntos, em textos serelepes de Hugo Morais  e Alexis Peixoto.

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andrew-bird
boina: you’re wearing it right! (daqui)

Andrew Bird, o melhor letrista aí na atividade (ouvir “Armchairs” como prova irrefutável) e um cara único em sua humilde ambição de tornar o barulho do assovio em algo tão complexo quanto os produzidos por tradicionais instrumentos musicais, teve seu mais recente disco vazado no último fim de semana. Já ouvi umas dez vezes, já tenho umas favoritas e puerra! musicão essa “Masterswarm”. Já já, resenha avaiable n’O Inimigo.

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Já faz pouco mais de duas horas que comecei a fazer esse post. Nesse tempo, procurei algum still da Claire Forlani em Mallrats, mas não achei nenhum que satisfizesse meus desejos: do começo do filme, na primeira aparição dela, vestindo uma blusa cinza, com a barriga à mostra e uns óculos grandes de aro preto na cara, compondo uma das personagens mais “sedução sensual” dos anos 90. Queria postar essa imagem aqui e ficar admirando até cansar a vista, mas necas. Até coloquei o dvd no computador, dei um print-screen, mas tudo que apareceu no arquivo salvo foi uma imagem preta, ligeiramente diferente do que eu queria. Então, hei de me conformar com essa aqui:

boobs

O Legado da Família Winshaw – Jonathan Coe

Publicado em Literatura por Tiago Lopes em Dezembro 9, 2008

Tudo uma questão de adição dos detalhes certos. O que é mostrado primeiramente é uma breve descrição de dois eventos que irão marcar a família Winshaw até à sua mais recente geração. Um, ocorrido no auge da WWII e outro, claro, numa reunião familiar.

Depois, Michael Owen, o protagonista, passa a nos dizer o que vêm acontecendo em sua reclusa vida recentemente. Um isolamento que durou por mais de dois anos e que, quando extinguido graças a aproximação de uma mulher, vai mostrar que a covardia e o relapsismo foram as sequelas mais visíveis dessa misantropia, em um quase-diálogo genial (ééé, tipo, pela maneira como ele mostrou que, quando não se está interessado numa conversa, qualquer coisa é motivo de distração, mas a outra parte não percebeu a falta de atenção  e continua falando, até o constragimento virar vergonha, quando a conversa é interrompida por um “nao entendi o que você falou”).

Até o ponto de intersecção: Michael é um escritor contratado por uma editora para redigir uma biografia sobre os Winshaw, encomendada pela Winshaw mais velha e principal alvo do sofrimento causado pelas tragédias narradas nos primeiros capítulos. Então, aos melhores detalhes que irão estreitar ainda mais a relação de Michael com seu objeto de estudo, até isso se transformar numa obsessão e causa maior de todos os males da sua vida.

Detalhe 1: no auge do governo Tatcher, TODOS os membros vivos da família Winshaw lucraram com as reformas econômicas da dama de ferro, que consistiam, basicamente, em cortes de orçamento em todos os principais serviços públicos oferecidos pelo estado. A mais recente geração de Winshaws é apresentada individualmente, contando as suas principais especialidades e campos de atuação (política, artes, mercado de armas, imprensa e alimentação), sem esquecer de enfatizar o egoísmo característico de todos eles e como são responsáveis diretos pelos efeitos danosos das reformas bastante impopulares da primeira ministra. Jonathan Coe criou algo mais fácil de se atingir do que o poder britânico e tão pernicioso quanto, somente para efeitos de vingança. Quando Michael precisa dos serviços de emergência de um hospital e esses não funcionam como deveriam, ele culpa os Winshaw pela ausência de médicos e leitos num momento crucial, mas a responsável por tudo isso é Tatcher. Só que seu ódio se volta para alguém mais facilmente alcançável do que uma primeira ministra.

Detalhe 2: há uma piada recorrente em quase todo o livro que se sobrepõe a todas as outras: sexo em literatura. Quando Michael leva para o seu editor o rascunho da biografia, este, antes de dar o seu parecer sobre a obra, faz um discurso sobre o mercado editorial nos dias de hoje, que só vende porque inclui auto-ajuda e sexo gratuito. Explica que a sua editora sempre foi contra isso, mesmo que os lucros continuem escassos. Mas, quando dá a sua opinião sobre a obra, nota, antes de mais nada, a falta de sexo na romanceada biografia dos Winshaw e coloca a culpa na ausência do mesmo na vida de seu autor. Mais na frente, o pedido é atendido (num dos capítulos dedicados aos membros da família Winshaw) e seu hilário making off é mostrado (na parte do livro narrada por Michael Owen).

Isso tudo é movimentado por vááários personagens, localizados em tempos diversos, numa narrativa que necessita das idas e vindas em que é mostrada só para expandir seus tópicos de interesse para muito além da vida de seu protagonista fracassado, dando ressonância a todos os gostos das pessoas que o rodeiam. Comentários díspares sobre a tv britânica, Guerra do Golfo, métodos de sacrifício animal, esquerdismo juvenil, conservadorismo, sistema de saúde, arte moderna, etc, estão lá em seus devidos lugares e, ás vezes, somente como matéria-prima para ótimas piadas que debocham de quase tudo.

Essa aparentemente complicada narração também serve para esconder a ausência de dotes únicos na maneira de se escrever do Jonathan Coe, que às vezes, beira o novelístico de tão simplória. Só que a história que conta é tão sólida e bem elaborada, com reviravoltas que sempre aparecem na hora certa e devidamente justificadas, que já o coloca num patamar bem acima de vários escritores que se contentam apenas com a narração de suas desinteressantes opiniões sobre não-sei-lá-quê, geralmente tentando justificar uma angústia gerada pela “modernidade dos tempos”, pelo “vazio de sentido”. Tudo isso servindo de maquiagem para esconder a incapacidade de ir de A a B ou até de definir onde A e B começam. Em O Legado da Família Winshaw, Jonathan Coe vai a 150 km/h de A a D, demorando um pouco mais em cima do Ç*. Favoritão da casa já.

*muito me demorei tentando tomar uma decisão sensata: publicar ou não publicar essa metáfora final? Feedbackem-me, por favor, e me deixem saber se foi uma boa decisão.