o outro é o medo de estar próximo a um transportador de oxigênio
Antes de sentir a traseira do palio vermelho encostar na lateral do seu joelho direito e notar que, à medida em que o carro ia descendo mais ainda a leve inclinação da ladeira do estacionamento, seu joelho direito era empurrado com uma força cada vez maior; tentou ficar em pé e fez com que a força do carro contra a lateral do seu joelho direito chegasse também ao seu joelho esquerdo, fazendo com que suas pernas ficassem numa inclinação incômoda, como um triangulo em que o cateto ‘a’ seria a distância entre o chão e a traseira do carro e o cateto ‘b’ seria a distância entre a traseira do carro e os seus joelhos e a hipotenusa fosse toda a extensão das suas pernas, a ponto de elas não mais conseguirem se mexer, impossibilitando ao rapaz uma fuga da força da traseira do palio vermelho e fazendo com que, enfim, seus dois joelhos se partissem exatamente no ponto em que a traseira do palio vermelho havia encostado e forçado todo o peso do restante do carro com a ajuda da leve inclinação do chão do estacionamento, deixando dois ossos quebrados de maneira irregular, e ele viu que estavam quebrados de maneira irregular porque, antes de cair com o ombro esquerdo no chão, a dor dos joelhos se partindo conseguiu chamar a sua atenção para o exato momento em que esses se partiram e perfuraram a pele e ficaram expostos a uma temperatura amena de 25° na sombra, já que o rapaz agora ocupava um espaço sombreado, quando caiu no chão e viu a traseira do palio vermelho continuar seu caminho irrefreável em direção à rua, fazendo com que a visão do sol fosse gradativamente substituída pelo escuro da parte de baixo do pálio vermelho, lugar sob o qual ele agora se encontrava completamente escondido, tornando um tanto mais difícil uma possível ajuda de um passante não tão distraído quanto ele. Antes de tentar adormecer para não sentir o sangue que escapava das perfurações em sua pele – abertas pelas irregulares pontas de ossos partidos – chegar às pernas e deixá-las todas pegajosas, atraindo insetos e animais de pequeno porte que porventura consiguissem localizá-lo embaixo do carro, lembrou que, antes de sentir a traseira do palio vermelho encostar na lateral do seu joelho direito, havia prestado atenção exagerada à motorista que acabara de sair do palio vermelho e em como o quê a sua roupa vestia excluía qualquer dúvida que pudesse existir sobre essa mulher ser uma exceção à regra de que o corpo feminino não possui espaço o suficiente para abrigar beleza em excesso e alguma esperteza acima da média. Antes de adormecer, riu da maneira como seu argumento foi ratificado pela falha da mulher que possuía apenas beleza em excesso.
minha idéia para enriquecer no interwebs
Quem são as outras duas single ladies? Ambas são tão sensualmente sensuais quanto a Beyoncé, logo dignas de terem seus nomes conhecidos por todos os apreciadores dessa lasanha de bacon coberta de ketchup em forma de vídeoclip. Divagando mais um pouco sobre isso, tive a melhor idéia para enriquecer entre um entardecer e uma alvorada da década: criar um IMDB de vídeoclips.
Antes de mais nada: “clip” é uma palavra tão feia e desprovida de sentido quando aplicada a essas pepitas de poucos minutos, que sinto vergonha sempre que sou impelido a falar esse nome por falta de alcunha melhor, já que “vídeo” abrange muito mais coisas que essas preciosidades de veículo publicitário e “vídeoclip” é tão monstruosa que, ao ser pronunciada, vejo morlocks gigantes lambendo meu pescoço. E o que fazer para denominar vários deles? Chama de “vídeoclipS“? Pelas barbas de Absalão! Soa como um coral de lobos tocando flauta-transversal para uma platéia cheia de will smiths. Não que eu tenha qualquer outra palavra para colocar no lugar, mas estamos aí, há quase 40 anos fazendo “vídeos” comercialmente e os ventos da esperteza ainda não sopraram em nossos cangotes para denominarmos de maneira justa a única forma de arte criada no século XX (péra, isso e séries de tv).
Retomando aqui, se existisse um banco de dados sobre clips (vamos de clip, porque rima com “hip”, “vip”, “tip” e “kibe”), iria facilmente achar o nome das anônimas single ladies e, de posse de tão necessária informação, poderia googlar e achar até mesmo edições especiais da playboy com fotos das moças em momento pré-mini-fama na vizinhança.
As pessoas que atuam em clips certamente aspiram por grandes papéis em grandes filmes e vêem nesses curtas musicados uma possível catapulta para um maior objetivo. Mas, devido a inexistência de créditos ao fim dos clips, todas são reduzidas a um inexplicável ostracismo, já que aparecem diariamente em horário nobre por mais de um mês. As únicas atrizes de clips que conseguiram furar o bloqueio do anonimato imposto pela ausência de um banco de dados foram: a Chloe Sevigny, que fez Sugar Kane (Sonic Youth) e taí até hoje, toda saudável, fazendo Zodíaco e não esquecendo das suas origens (como você pode conferir nessa beleza de clip que é Gamma Ray); Angelina Jolie, que começou estática e gigante num vídeo dos Rolling Stones e seguiu estática e pequena em filmes quintessenciais como Hackers e Gia; e Mary Lynn Rajskub (fez-se necessário uma googlada), que fez The Good Life (Weezer) e reprisou esse mesmo papel em absolutamente tudo que fez depois, só que em locais de empregos diferentes, como na CTU de 24 Horas.
Só iremos de “possível” para “definitiva” catapulta para grandes papéis quando um organizado e completo banco de dados sobre clips estiver à disposição de todos. Nomes serão erguidos e carreiras construídas graças a essa minha grande invenção. Dançarinas finalmente deixarão de ser “aquela de colant roxo” para terem seus kimberlies e stacys ecoando na boca de seus milhões de viewers. Roteiristas sairão da sombra dos diretores e serão devidamente creditados. Essa indústria terá, enfim, um rosto mais completo.
Não saco nada do internets, aceito colaboração e shareio lucros & bitches igualmente.
mashup de muié
Venho me entretendo durante umas caminhadas solitárias trocando a Green pela Mendes. Naquela cena de abertura de Os Donos da Noite, par example, depois da minha suecada, a Green é quem tá gemendo e fazendo biquinho de francesa enquanto uma de suas duas grandes e firmes acompanhantes sai pra se refrescar na boca do Phoenix lá. E no Cassiano Royale, a Mendes é que faz o pega-pega-pega-já-peguei com o Craig na cama de hospital (altíssimo potencial de bond girl essa Mendes possui). Quê mais? Tem aquela cena lá do The Dreamers, em que a Mendes se deita no chão, trajando apenas seu tom de pele, e aquela outra de Dia de Treinamento, em que a Green perde um pouco do seu ar esnobe e fica se engraçando pro Denzel na cama, em uma vizinhança guêto. E a Mendes pode finalmente estar num filme de época e mostrar para as mulheres desse mundão como encher de excitação o simplório ato de apagar uma vela. Aí, quando pensei que, eventualmente, a Green teria que ser par do Will Smith num filme tacanho aí, meio que quis parar a brincadeira, porque seria muito injusto com ela, muito mesmo.
Clube A.V.
Tem esse site, o A.V. Club, braço jornalismo-cultural do The Onion, que é muito massa. Atinge bem o seu objetivo de cobrir o que muita gente se dispõe a falar sobre, mas quase nunca de uma maneira tão completa, periódica e tão perspicazmente engraçada assim. O melhor do site são as entrevistas com diretores. Toda semana, algum figurão cede humildemente um tanto do seu tempo (as entrevistas são geralmente bem longas) e da sua sinceridade. As perguntas nunca desviam do tema proposto: se Wes Anderson for entrevistado devido ao lançamento Criterion de Bottle Rocket, o tema sequer é desviado da sua estréia e de como serviu de experiência para seus projetos posteriores. Os entrevistadores NUNCA fazem perguntas bocós ou pedantes, e ainda confrontam o entrevistado com seus fracassos, fazendo com que a insegurança nem seja vista como um defeito, de tão onipresente que é. Também conhecem bem a obra do interlocutor, a ponto de opinarem sobre as faixas de comentário de dvd’s e de alguma curiosidade que nem a mãe do dito cujo saiba.
Toda semana, alguém de altíssimo nível fala sobre seu mais recente projeto posto a venda. Essas aqui são as minhas entrevistas favoritas:
Como é sobre a sua estréia, ele fala um bocado sobre a estréia dos outros, tanto de quem o influênciou como de quem começou junto.
Sobre The Wrestler, seu primeiro filme a atingir um grande público. O massa aqui é quando ele admite que sua cria favorita é The Fountain, ponto em que eu jamais descordarei e seguirei defendendo e anunciando que nem uma Obama Girl.
Sobre Che, o que já dá alguma noção do quão grande essa entrevista é. O Soderbergh fala muito mesmo e tudo é aproveitável demais, desde a sua opinião sobre recepção a seus projetos mais pessoais, a como o roteiro de Che chegou a proporções bíblicas durante a pesquisa feita sobre sua vida. Mais interessante ainda: saber que um de seus próximos projetos será um musical em 3D sobre Cleópatra (Catherine Zeta-Jones) com músicas feitas pelo Guided By Voices. “Projeto pessoal” vira eufemismo quando se tenta classificar isso aí.
Sobre Synecdoche, New York e como ele não entendia nada sobre direção quando pisou no set para o primeiro dia de filmagens. De todos os entrevistados aqui citados, Kaufman foi o que deixou transparecer maior insegurança sobre o que os críticos falam de suas obras (já que, antes de estrear na direção, seus roteiros filmados eram mais conhecidos por “roteiro de Charlie Kaufman” do que, por exemplo, “um filme de Spike Jonze”) e como todas essas opiniões afetam sua vida pessoal, já que suas obras são todas pessoais demais.
Sobre Chasing Amy. Como essa é um pouco mais antiga, o entrevistador desvia um pouco do tema principal, o que é bom, porque dá uma oportunidade massa pro Kevin dizer que gosta muito de Mallrats e que Patricinhas de Beverlly Hills (que também me diverte muito) conseguiu atingir o objetivo que ele queria ao fazer seu maior fracasso: uma homenagem/paródia do gênero. Também divaga um pouco sobre o porquê de Clerks ter sido o sucesso que foi, mesmo sendo pobre de recursos, de atuação, de direção: se apoiou num ótimo roteiro, por isso todo mundo perdoou todos os outros defeitos. “It’s all about the script”, ele repete umas cinco vezes.
Sobre Vicky Cristina Barcelona. Aqui, ele também fala que, quando um filme está pronto e não parece tão bom, 90% é culpa de um roteiro desleixado. Interessante é que, numa das respostas, ele dispensa um bom tempo em justificar porque VCB é um filme pessimista em todas as leituras possíveis. Sempre achei os filmes do Woody protagonizados por mulheres trágicos demais. Até as comédias com um nome feminino no topo dos créditos terminam sem nenhuma redenção ou compaixão ou qualquer sentimento arrebatador no final, todos chegam ao fim cheios de pesar, proprocional ao sofrimento inflingido a elas durante todo o filme e escondido em grandes piadas. Todos os seus dramas oficiais são protagonizados por mulheres, à exceção de Match Point, mas, mesmo nesse, o protagonista é causa maior do sofrimento de todo o elenco feminino (não é à toa que acho a atuação do Jonathan Rhys-Meyers nesse filme exageradamente afetada). Woody Allen não acredita que o seu gênero possui motivos para experimentar um sofrimento genuíno, quando os homens tentam exprimir alguma dor, mais parece um capricho que sempre pode ser resolvido usando-se futilmente a fêmea mais próxima. Assim que tiver algum tempo, escrevo mais 10 páginas entediantes sobre o assunto.
Acho de muito valor saber absolutamente tudo que os funcionários da Pixar têm a dizer.
O mesmo dito acima vale para qualquer Monty Python. Frustrante mesmo saber que o papel de Michael Caine em Os Safados foi oferecido a ele e teve que ser recusado por causa da turnê de divulgação de A Vida De Brian. Ele também diz que ama o Pierce Brosnan e que o segundo melhor Bond evah é simpático demais assim.
I just want four walls and adobe slabs for my girls
Originalmente publicado no O Inimigo. Só redundei para esse espaço porque talvez eu demore a postar alguma coisa que valha o precioso tempo de vocês aí. Talvez! Amanhã, pode ou não pode ter um novo ensaio rocambolesco sobre Crime e Castigo por aqui. Vão lá no
se quiserem ler as listas mais ufanistas de Alexis Peixoto e Hugo Morais.
***
E 2008 foi – contrariando as expectativas criadas por um 2007 um tanto escasso de sons orgânicos – bastante prolífico em simplicidade, devido à decisão tomada pela grande maioria dos listados abaixo de colocarem uma BANDA na linha de frente, dando uma enxugada sonora entre seus discos anteriores e os listados aqui e criando seus trabalhos mais refinados. Taí, 2008 foi um ano bem refinado pra música. Até as estréias mais interessantes foram bastante refinadas, como se possuíssem a experiência de três discos nas costas. Então, segue o resultado todo desse refinamento:
1) The Walkmen – You & Me

O Walkmen é uma das escassas bandas em plena atividade que ainda faz ÁLBUM, conjunto de canções que podem ser aproveitadas ao máximo se ouvidas em conjunto, do início ao fim do disco que as contém. E esse é o disco do Walkmen que faz mais justiça a esse conceito.
2)Stephen Malkmus & The Jicks - Real Emotional Trash

Em nenhum outro disco de 2008 há de se achar tanta guitarra quanto nesse. Se, em 2007, LCD Soundsystem e M.I.A. ajudaram a desmoralizar um pouco quem se baseava em guitarras pra fazer música, só alguém como Stephen Malkmus para trazer o noise de volta. “Real Emotional Trash” é uma das melhores músicas criadas pelo ex-líder do Pavement: com pouco mais de dez minutos e “dividida” em duas partes, é tão obra-prima quanto “Newark Wilder”, “No Life Singed Her Now”, “Shady Lane”…
3)Beck - Modern Guilt

Aparentemente, a mesa de som do Beck perdeu uns 70% de botões no dia do início das gravações de Modern Guilt, e ele decidiu, pela primeira vez desde o Mellow Gold, que não ia atingir a perfeição combinando reco-reco com áudio de game boy. Colocou a banda na linha de frente – e usou os 30% que restaram dos botões – pra fazer a obra mais simples e fácil de se ouvir da sua extensa discografia. Viciante como nem o Odelay conseguiu ser (não que seja melhor que o Odelay, só é mais viciante mesmo).
4)The Black Keys – Attack & Release

Os ventos da mudança conseguiram alcançar também o Black Keys, que é tão massa e nunca deu sinais de desgaste em sua simplíssima configuração: esse é o primeiro disco da banda não gravado num porão, mas num estúdio de verdade. Mas a mudança foi sutil, como era de se esperar de uma banda que não possui um erro sequer no currículo. E, se nas baladas nunca acertavam 100%, até esse deslize conseguiram corrigir com “Lies”, grande música roedora de 2008. O rock ta lá, mais direto ainda em “Remember When (Side B)”, e muito bem talhado em “Oceans & Streams”.
5)Vampire Weekend – Vampire Weekend

Nem gostei muito às primeiras audições, mas elas foram o suficiente para deixar o disco alojado em algum lugar da cabeça. Depois de um tempo, o cérebro pediu por mais audições e, quanto mais se ouve esse disco, mais se quer ouvir de novo, e de novo, e de novo. Zero clichês roquenroll, tudo soando um tanto original, mesmo quando você acha que “Mansard Roof” cabe muito bem num trio elétrico e que alguma coisa eles surripiaram das trilhas dos filmes do Wes Anderson.
6)Fleet Foxes - Fleet Foxes

“White Winter Hymnal”, sozinha, já garantiria alguma vaguinha no roll das bandas que iremos lembrar daqui a 10 anos ao Fleet Foxes. Mas todo um disco à altura dessa música foi entregue juntamente com ela. Hippongas deveras convincentes mesmo, pra conseguir agradar meio mundo não falando sobre nada além do onipresente “tema rural”.
7)Little Joy – Little Joy

Mãedinazeando um pouco, acho que o Little Joy vai ser banda de um disco só. Quando a porção rica do projeto voltar para suas ricas origens, falaremos do Little Joy apenas pela nostalgia da coisa. Então, bora elogiar o discão de estréia deles enquanto é tempo, porque pode ser, literalmente, a singular obra dessa promissora banda. Melhor concentração de baladinhas de 2008 e despretensão que não pende pra burrice ou preguiça, só vontade sincera de tocar música boa mesmo.
bônus:

8)She & Him – Volume One

Queria colocar esse disco ao lado do Little Joy. Os dois discos são idênticos quando se julga os seus melhores acertos: a despretensão e a sinceridade em tocar música boa só pela vontade incontrolável de fazer isso, sem pensar em objetivos mundanos. Quem canta aqui é a Zooey Deschanel, mais conhecida como atriz (Guia dos Mochileiros, Fim dos Tempos) e dona de um chamativo par de olhos azuis. Só é muito massa porque possui o basicão que os bons ouvidos estão acostumados a ouvir desde sempre: pop radiofônico dos ‘60, country…
9)Tv On The Radio – Dear Science

Achava que nunca ia acontecer, mas o Tv On The Radio cedeu um pouco no artê que, às vezes, prejudicava demais umas músicas com maior potencial, e finalmente vez um disco for real de negão: cheio de ginga. “Dancing Choose”, “Golden Age” e “Red Dress” são provas bastante swingadas disso. O defeito maior desse disco foram umas músicas lentas tão equivocadas que podem se passar fácil por cria do Pet Shop Boys, como bem disse o Alexis.
10)Hot Chip – Made In The Dark

Made In The Dark sofre do mesmo problema que impediu o Dear Science de ser um discaço sem ressalvas: a insistência em fazer baladas, que sempre ficam constrangedoras demais porque, claramente, suscitar emoções noveleiras não é um talento que essas bandas possuem (as desse disco parecem hip-hop-de-amor do top 10 da Multishow). Mas de resto, o Hot Chip me parece a única banda que soube usar bem o Devo como influência e ainda ser mais divertida que os donos do conceito de pop cabeçudo.
***
Créditos das imagens: 1); 2); 3); 4); 5); 6); 7); bônus; 8); 9); 10).

