“No reputation left to destroy”: ha ha ha*
O Castelo dos Destinos Cruzados é okey, com a nota final ajudando numa compreensão melhor da coisa toda e meio que sabotando-a também. Fiquei com a impressão de que todo o intricado e difícil trabalho que o Calvino falou que sofreu para elaborar a segunda parte é um tanto quanto nhé quando você presta bem atenção no seguinte: por mais que ele detalhe os significados das cartas, para elas não parecerem com outra coisa além da que ele está dizendo que são em determinado momento, dá pra notar que o senhor meio que perdeu o critério de verossimilhança. Em algum ponto do final, uma carta podia ser qualquer coisa que ele quisesse que fosse. Essa free-and-loosidade toda também se estende ao leitor, qualquer coisa que eu quero que uma carta seja, ela vai ser, é só eu arranjar uma desculpa que não envergonhe a vizinhança pra ligar todas elas. Então, o esclarecimento que a nota faz no final, quando o Calvino diz que quase abandonou tudo por não conseguir ligar os contos da segunda parte, soa como uma auto-valorização de um trabalho que nem foi tão grande sim. A parte em que ele acha três peças do Shakespeare no meio das cartas confirma o que eu tô querendo dizer.
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The Substance of Style é uma série de artigos da Moving Image Source sobre as principais influências do Wes Anderson. É dividido em cinco parte: Bill Melendez, Orson Welles, and François Truffaut, Martin Scorsese, Richard Lester, and Mike Nichols, Hal Ashby, Salinger e um vídeo do prólogo do Royal Tenenbaums com umas anotações. Não li nada ainda, por falta de unidades temporais disponíveis, mas me senti impelido a indicar (‘impelido’ as ’showing my google skills’).
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Ler algumas das resenhas já publicadas sobre Moscou (Coutinho) tem me dado mais satisfação do que a sentida em quase todos os filmes que eu vi esse ano. Com algum exagero, afirmo isso a vocês.
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O disco é irregular e esse vídeo parece bastante influenciado pelas últimas incursões no gênero feitas por george michael, mas a música é BOA, bem boa.
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quê mais? quê mais?
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Dr. Jules Meecham: You mean you don’t drink?
Reverend David Ruteledge: No.
Dr. Jules Meecham: In other words, when you get up in the morning that’s as good as you’re gonna feel all day.
ou
Shelby Munker: Well I try to do natural things. A lot of people in my family died of cancer. Bye.
Ruby Sparr: They… they died of cancer smoking pot?
E esses nem são os diálogos mais engraçados de A Wedding, um dos melhores do Altman. Sério. Já já deve chegar em dvd com o tratamento de luxo da Criterion Collection. Daí, se algum crítico do fim dos 70 ainda estiver vivo e tiver que rever, vai engolir tudo o que escreveu de negativo sobre essa maravilha na época. Gosto muitão daqueles dois grandes planos se abrindo no início do filme: um sobre a igreja e o outro sobre a casa aonde a festa de recepção acontece. O plano final é mais bonito ainda. E o timing. O Altman criou uma espécie de ritmo pra comédia que ninguém conseguiu imitar, ou se aproximar com cuidado suficiente para citar como influência. A maneira como as piadas são montadas aos poucos, uma sequência sendo interrompida por outra, culminando num punch-line sempre hilário das duas (nos melhores filmes), merece uma apreciação respeitosa, no mínimo. Os trejeitos esnobes e um tanto imutáveis que os atores sustentam por quase todo o filme passa uma falsa impressão de que eles são só um mero tamborete para o que realmente importa (a joke). Mas é só falsa mesmo. Tenta você ser esnobe por 30 minutos seguidos que sejam. Acho que só a Kristin Scott Thomas nasceu com o dom de parecer esnobe o tempo todo. Mas só usou-o bem uma única vez (em Gosford Park, sim sim).
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Já que citei Criterion, deixo aqui o link para as listas de top’s 10 dos filmes já lançados por ela, feitas por umas galeras massas aí. Tem de Mike Allred a Adam Yauch (a lista dele é a mais engraçada).
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*Embróglio mais divertido do ano, até agora. Se o cara ganhar a causa com uma desculpa dessas, é o fim do mundo civilizado como o conhecemos. Kids today…
Não há nada nesse mundo que justifique alguma simpatia, a mais misroscópica que seja, de alguém por uma banda como o The Smiths. Até escrever esse nome seguindo as regras da boa gramática e da boa educação, com letra maiúscula, soa como uma auto-ofensa. A música é ruim como nenhuma outra já criada nos limites desse sistema solar, e tenho em mente, principalmente, a produção quantitativa da música criada em nossa região. Nem todos os 39 volumes de uma auspiciosa banda propagadora da “música regional” é tão prejudicial ao bom gosto quanto a criada pelo the smiths. E ver seus integrantes executando a manifestação sonora do adjetivo “degradante” é desgastante como atravessar a nado um mar de 165.454m³ de gelatina com pedaços de cereais gigantes no meio de todo o caminho. Tem um bar (que o fato de eu ainda, esporadicamente, frequentá-lo é prova incotestável de que a minha voz interior perdeu a moral faz tempo) que executa toda a videografia dessa banda em três telas diferentes quase sempre que vou lá. Se me sento numa posição que dificulte o alcance da minha curiosidade mórbida até o seu alvo favorito, ainda assim, escuto meio que em baixo volume a voz de garotinha-em-constante-trabalho-de-parto do morrissey. É como se eu tivesse atirado em trinta mil poodles e estivesse sendo devida e justamente punido. Para os que gostam, é chegada a hora de admitir a existência de um terceiro olho no lugar do umbigo. Só com esse extra de percepção para entender a competência de algo como the smiths.
Mandrake vs. the snake
Tenho gostado de pensar que Anna Kariênina só é o enorme livro que é porque Tolstói criou maneiras tão elevadas de descrever diversas vezes, e sem repetir uma sentença que fosse, a beleza da Anna que, se essas descrições estivessem muito próximas umas das outras, o leitor talvez experimentasse um tipo de arrebatamento tão latente que poderia chegar perto da insanidade, tamanha a excitação experimentada. Sem exagero.
E a excitação não é só sexual, é mais pela admiração absurda à maneira de escrever do Tolstói, nascida exatamente no momento em que as sentenças vão se seguindo e formando uma imagem tão exata, tão única e tão perfeita de sua personagem. Se essa imagem fosse, por exemplo, a de uma grande sala lotada de pessoas e seus detalhes, seria quase que igualmente impressionante, o “quase” fica por conta da distância entre objetos inanimados e a mulher mais bonita já inventada.
Entre um estranho e outro que a Anna vai topando com no decorrer do livro (são nesses encontros, geralmente, que o Tolstói providencia o maná de sua literatura), acontece muita coisa, muita coisa mesmo. Grande parte dessas situações não relacionadas com o adultério da citada. É aí que o Tolstói acalma um pouco os espíritos de quem o acompanha. Substitui o arrebetamento via-Anna por um que é acionado sempre… Bem, sempre. Por todos os diálogos, pelas soluçõs pensadas por alguns personagens para a melhoria das políticas russas em relação ao trabalho, à eduação, ao comportamento social, &c, e, principalmente, pela descrição de encontros sociais de grande porte, como bailes, idas ao teatro e a clubes. Só que não numa escala assustadoramente grande, como quando a beleza da Anna é apontada pela 4587545ª vez.
Tem isso e outra coisa que eu queria dizer sobre Anna Kariênina. Antes de ler o meu primeiro Tolstói, já havia lido uns 6 livros do Dostoiévski (Crime e Castigo, duas vezes). A Rússia era então, pra mim, o lugar mais pobre do mundo. Nunca li nada que fedesse tanto a vômito como os livros do Dostoiévski. E isso não é ruim, é só uma constatação factual: a literatura do Dostoiévski fede, seus personagens, todos parecem que não usam roupas de baixo limpas desde o momento em que nasceram, e os da alta sociedade são tão não-convincentes em relação à riqueza que dizem que possuem, que dão a impressão de usar colônia de supermercado o tempo todo. Já a Rússia do Tolstói é o extremo oposto de tudo isso. Até os seus mujiques dão a impressão de serem os mais asseados de toda a literatura russa.
Daí que lá pelas tantas, o personagem que tem sua história contada paralelamente à da Anna, o good old chap Liévin (é nele que toda a carga de identificação necessária para uma obra ser uma das minhas favoritas é depositada), recebe a visita de seu irmão moribundo. Aí, eu acredito que o Tolstói fez uma grande concessão em favor de sua ambição perfeitamente atingida (a de deixar para as geraçõs seguintes, até o fim dos tempos, a reprodução exata da época em que viveu): ele não podia deixar de fora os pobres. Se os livros do Dostoiévski estão todos cheios de pobres, é certo que a Rússia tinha lá o seu bom quinhão deles. Tolstói criou o livro mais anti-pobre que já li, mas a reprodução exata do seu tempo ficaria imcompleta sem ao menos um pobre-party-crasher. O Nikolai (o irmão em desgraça do Liévin) – e tudo que veio juntamente com ele – é como se fosse uma brecha na porta que dá para o quintal de uma mansão portentosa, e esse quintal é um pântano feio, frio e fétido que nunca é mostrado às visitas. É como ver a barba do Dostoiévski espreitando por essa mesma brecha.