Working on my night cheese
Vi a Alicia Silverstone na tv dia desses. Na hora, fiquei empolgadinho como se a mesma estivesse ao meu lado, trajando apenas a brisa suave do dia. Sempre que vejo a Liv Tyler numa imagem de propaganda de perfume, também fico igualmente empolgadinho, como se a mesma estivesse ao meu lado, naked and mixing cocktails. Se todas as coisas nas quais ambas estiveram envolvidas fossem colocadas dentro de um banheiro, por exemplo, os azulejos do outro lado seriam perfeitamente visíveis, em caso de somente a qualidade dessas obras ser algo substancialmente palpável. Logo, algo tão rarefeito nesse conjunto o tornaria similar a um Jack Griffin.
Mas essa espécie de Jack Griffin está firmemente afixada na minha cabeça, não só pela qualidade indiscutível dos atributos físicos (afinal, são quase os mesmos vistos nas melhores propagandas da marisa) (mesmo esse caso específico tendo sido explorado à perfeição em Crazy). Mas porque me foi mostrado numa idade em que tudo que foi visto e ganhou simpatia instantânea, fixou-se highlanderanamente em uns milímetros cúbicos de minha massa cinzenta.
Então, não importa a quantas revisões minhas preferências sejam submetidas nos próximos 49 anos (o teto de sobrevivência sugerido pela bíblia é um bom padrão), a Alicia Silverstone e a Liv Tyler sempre serão lembradas com a mesma atenção e intensidade reservadas a Claudia Cardinale, Monica Vitti, Shirley MacLaine, Katharine Ross, Jeanne Moreau, Ludivine Sagnier, Jasmine Trinca, e altas aí que já estiveram em trabalhos infinitamente superiores às propagandas de sabonete disfarçadas de filme feitas por A.S. e L.T.
Infelizmente, a cidade onde se cresce também ganha essa mesma atenção, resistente a qualquer revisão futura. A situação é lamentável se a cidade-natal tiver sido uma em que um senso crítico ainda em estado de formação não permitia que a mesma fosse admirada, sequer suportada, chegando até a incitar uma hostilidade contra aquela que até tinha a melhor piscina de todo o mundo. Esses dias, tenho achado que a vontade de voltar à cidade onde se cresceu é uma surpreendentemente instintiva: está acima de qualquer bom senso, qualquer moral e até mesmo de altíssimos níveis de ridicularidade. E se isso é instinto, é o único que dá vontade não só de rejeitar, mas de direcionar a força de todos os outros para o esquartejamento violento desse.
Porque é bem boboca querer voltar para um lugar em que, se toda sua população fosse reunida num banheiro, por exemplo, os azulejos do outro lado seriam desavergonhadamente visíveis, em caso de apenas seu bom senso ser algo substancialmente palpável. É mais penoso ainda pensar no seguinte: se todo o planejamento de hoje for realmente posto em prática daqui a algum tempo, a 6ª Avenida vai ter que dividir o mesmo espaço de memória e a mesma afeição reservadas à miserável Praça da Matriz; o acervo do MoMA será tão lembrado quanto a completa coleção de livros da Patricia Cornwell da biblioteca do Sesc; a nostalgia de ter vivido naquela casa em que o primeiro andar estava sem reboco vai existir com a mesma intensidade da empolgação de estar morando numa em que, além de reboco nas paredes, tenha posters de todos os melhores filmes. Ao menos uma das comparações futuras não será repudiada: a sensação de flutuar no Mar Morto deverá ser a mesma de ter mergulhado naquela que ainda é a melhor piscina do mundo.
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E é assim que Crazy acaba sendo tão importante quanto 8½.