Da Década!

Are you really so down on people, or are you just being fashionable?

Publicado em Cinema por Tiago Lopes em Novembro 2, 2009

Little Murders image

Little Murders image II

Little Murders IV

Little Murders image V

Não consegui pensar em muita coisa útil para dizer sobre Little Murders não. Então, digo que gostei muito mesmo, dá para entrar fácil em listas de favoritos segmentadas (melhores dos 70, melhores estréias em direção, melhores filmes dirigidos por atores, top 5 do Donald Sutherland, top 5 do Elliout Gould), como certamente estar presente na lista absoluta e continuamente crescente de melhores dos tempos todos. Mesmo que se queira apontar 70% de culpa para o texto do Feiffer, a direção do Arkin é impressionante. Ele mostra soluções cheias de ineditismo, como toda a sequência do jantar em família, com a energia da casa falhando e o estranhamento causado pelo comportamento dos presentes; o monólogo do juiz ecoando como voz onipresente nos corredores do tribunal; e a realmente espetacular  sequência em que a Patsy finalmente consegue o que quer, para depois deixar a impressão de que essa era a sua única tarefa a cumprir enquanto ser vivo. No geral, tem-se a impressão de que ele quis reproduzir em todo o filme o tom criado pelo Nichols para Catch-22, como se, só através desse molde, fosse possível falar de apatia e indignação via humor. Por baixo desses temas maiores, existem opiniões sendo expressadas sobre outros tópicos importantes em um curso de filosofia, todas elas em perfeita concordância com o que uma biografia não-autorizada sobre meu eu deixaria entrever.

Jungle Julia

Publicado em Cinema por Tiago Lopes em Outubro 22, 2009

Death Proof, sendo todo favoritão, mas só explico daqui a três Lawrence das Arábias.

Kill Bill I é o que é – todo quotable por conta dos diálogos escassos, facilmente gostável por causa da velocidade, dos ícones todos que foram calculadamente criados para se propagarem nas cabeças dos viewers com a mesma intensidade e infinitude de um what’s up doc (amarelo e preto, assobios, hatori hanzo, slo-mo de japinhas, sangue a granel, trilha incidental tratada como base de videoclipe) – porque era um tchau agora bem óbvio para uma linha de produção que foi sumariamente abandonada na sequência. O final mesmo de Kill Bill I já acenava com o que viria na continuação, destoando do que se viu anteriormente. A luta com a Lucy Liu segue praticamente sem música, pouquíssimos cortes, muita conversa, sensação de anticlímax, tudo o que não existiu em nenhum momento durante a hora anterior e foi amplificado em todos os filmes seguintes.

Kill Bill II, Death Proof e Inglorious Basterds funcionam sobre a mesma premissa, no que se refere à construção: eles mostram apenas pequenos focos de ação entre longos espaços de tempo. Tudo o que é feito antes desses focos converge gradativamente para esses pontos. Não existe mais um desdobramento desses focos. Quando um ponto de convergência explode, ele é imediatamente descontinuado após o seu final. Por isso os capítulos, não declarados somente em Death Proof.

A duração desses pontos de convergência é menor a cada novo filme. A luta entre Kiddo e Driver é um foco de convergência longo, mas um que só explode depois que o filme pacientemente movimenta todas as suas personagens, com a Kiddo em segundo plano, em favor da história do Budd, principal ponto de ligação entre Kiddo e Driver. Então, vemos Budd levando vários esporros: do Bill, do chefe do bar e da Driver, todos em sequência, enquanto mal se vê a Kiddo. Quando ela aparece, segue um rapidíssimo ponto de convergência de ação: toda a persona FAIL do Budd que o filme calmamente construiu durante quase toda a sua primeira metade é rapidamente destruída com duas balas de sal. Esse ponto de convergência desmente toda a expectativa formada anteriormente – a Noiva vai conseguir riscar mais um nome em menos de 3 minutos – na força motora de todo o resto do filme. A partir daí, a até agora inexistente fragilidade da Noiva vira motivo principal de atenção.

Até o próximo ponto de convergência de tensão, vemos o enterro. É uma sequência longa e prova indubitável de que a tensão agora só pode ser construída se erguida sobre um longo diálogo, por isso o flashback, e só depois que ela fala sozinha por um tempo. Pai Mei fala pouco, mas as respostas às suas provocações são o principal motivo da restauração da fé na coragem da Noiva (ouhnnnn).

Agora, entendam a necessidade dessa redoma de emoções: Kiddo desceu ao ponto de ser enterrada viva: nível de confiança do público cai para -5. Saiu do caixão sozinha, cruzou um deserto: nível de confiança do público sobe 10 pontos, pára em cinco, tal e qual o que a Elle vinha mantendo desde o início. A luta das duas é a única que atinge o perfeito equilíbrio de imprevisibilidade, por isso é o ponto de convergência de tensão mais longo do filme.

Desse ponto até o final, mais dois longos diálogos irão construir o clímax, que dura, no máximo, 10 segundos: a conversa da Noiva com o “pai” do Bill e com o próprio, em que a capacidade de choque que deveria ser gerada por movimentos bruscos é facilmente atingida só por um acender de cigarro ou a confecção de uma torrada.

*respira*

O detalhamento do primeiro filme que arrombou as coisas novas todas é necessário porque vai economizar algum blá-blá-blá-cat-show-sachê mais na frente. Agora, veja como em Death Proof as coisas se alargam mais ainda, bem mais:  um carro nesse filme só passa dos 40km/h depois da marca de 45 minutos de projeção.

Para chegar no ponto de convergência, o filme não se preocupa com outra coisa além de manter num alto nível a empatia por umas babies que muito tagarelam. O difícil aqui é a manutenção do alto nível sem fazer uso de qualquer movimento brusco. Se existe uma explicação 100% cabível para a palavra “smooth”, ela existe em todos esses 45 minutos. Nem mesmo o fiapo de construção da outra ponta que irá cruzar com a das garotas no momento máximo de convergência chega a atrapalhar, ou sequer diminuir, a manutenção do alto nível de empatia. As breves aparições do Stuntman só foram levemente mostradas porque o filme queria cumprir um dos seus dois objetivos sem firulas.

O primeiro sendo, obviamente, a manutenção e desenvolvimento dessa nova maneira de mostrar as coisas. O segundo é a vontade de fazer um filme de perseguição de carros sem perder muito tempo justificando os porquês da ação principal. Por isso o Stuntman já vem devidamente vilanizado desde o surgimento da primeira notícia sobre a produção de Death Proof: em sua primeira aparição, ele deve deixar claro que é mau feito um pica-pau para que ninguém pense em suscitar um “porquê” bobão que venha a justificar tanta má criação, deixando só mesmo a instintiva vontade de torcer pelas graceenhas.

Dois dos três filmes mais citados pelo Tarantino como referências de grandes obras de perseguição de carros possuem uma trama no mínimo intricada: Operação França e Bullitt. A idéia, parece, também era evitar uma semelhança óbvia com Vanishing Point, que, se é plotless, faz um uso deveras bem feito da premissa de road movie. Logo, Tarantino tinha todo um subgenêro a ser evitado para afastar a automática rotulação e explicitar ainda mais a novidade ali disposta.

O primeiro foco de ação dura o tempo de um carro passando por cima do outro. São 45 minutos de, literalmente, trabalho de amaciamento de carnes para o abate, que dura menos de 10 segundos. No segundo capítulo que segue, há a sequência de perseguição com o grande e emocionante pay back, adornado por sassy black woman’s comments e a piada mais engraçada já criada por Tarantino: “i’m okey!”. Taí, a novidade desnudada na cara da sociedade hipócrita e, infelizmente Gretchen, ignorada.

O que faz de B.I. um quase repeteco do anterior, no que se refere à maneira como foi feito. Só uma manutenção dessa novidade toda apresentada em Death Proof, mas com uns três focos de ação a mais, um background histórico inserido para conferir “seriedade” e um enredo. Mas não significa que, necessariamente, forneçam um maior peso à qualidade desse. Daí que decidi que esses três últimos filmes pairam um tanto sobre todos os outros do Tarantino. Esses diálogos todos competentes demais e longos demais, muito bons de se ouvir, preparando longamente uma tensão a ser dissipada em 10 segundos, é a contribuição maior do moço para as futuras compilações de best of. Desde o começo, se praparou para fazer isso, mas durante os ensaios, sempre cometeu o equívoco de deixar uma bala disparada em momento inoportuno atrapalhar a fluência das conversas, o plano maior, a essência… sim Bernadete… a essência de sua vida.

*toca You Can’t Always Get What you Want*

*solta os créditos*

*mostra erro de gravação*

*fade out*

A favor, pois sim

Publicado em Cinema por Tiago Lopes em Outubro 10, 2009

Anticristo é o melhor upside down de comédia romântica da década. Curti altos.

Nude pics of Sincerity and other scary chicks

Publicado em Cinema por Tiago Lopes em Setembro 11, 2009

A obtenção de informações exteriores a um filme quase sempre funciona como implosão de uma expectativa saudável. Não se sabe nada sobre quem fez e sobre o que foi feito, e bom mesmo é continuar não sabendo até que a obra seja vista por completo. Mas aí, as companhia aéreas inventaram publicações para se folhear em uma trinca espremida de horas e, se a obra aguardada estiver sendo abordada na edição que está à sua frente, negar uma folheada é o mesmo que estar condenado à prisão perpétua no calabouço de um sheik e evitar olhar para a janela que dá para o quarto de esposas selecionadas num cursinho pré-vestibular. Impossível, pois sim.

Topei com uma entrevista em que o Heitor Dhalia entregou o foie grais de À Deriva ao dizer que esse é um filme autobiográfico. A personagem da Felipa é ele, aos 15 anos, observando o processo de separação dos seus pais. “E foi doloroso, meus melhores anos, toda aquela comoção. ÔÔÔÔÔÔ FREAK OUT!!”. E vi o filme sabendo quase tudo sobre o mesmo. As informações exteriores, contrariando a regra, serviram como uma bengala tão sofisticada que, se usada pelo mendigo da esquina, é o Hugh Hefner fazendo seleção para o Beleza na Favela.

Faço um plié e explico: se À Deriva fosse analisado absolutamente isolado do background pessoal do seu criador, seria o filme de separação chechelento por excelência, acertando em todos os alvos fáceis com uma margem nula de erro. Mas, background: todo importante, significativo e, publicitariamente falando, pouco explorado.

Só o fato de saber que a Felipa é o Dhalia já garante ao menos uma grande sequência: a que o Mathias explica sobre o que é seu novo romance. A cena abandona a alcunha de mais um componente da imutável gama de clichês do gênero para, ao se tomar consciência do background, repousar sob uma de não menor valor que “wow”, pela metalinguagem tremendamente bem empregada e por essa sequência ser o principal estopim do inesperado e cabível twist final. Daí para frente, comecei a ver o filme como um daqueles projetos que tem que ser executados, para o qual o diretor só se importou em crescer para fazer isso mesmo. Seu trabalho anterior servindo de aprendizado e o posterior, como a sobra de uma obsessão finalmente suprimida.

Separação de casal, o mundo fora da MTV sempre ensinou, é uma das coisas mais esquemáticas do ser humano enquanto alive and kicking. Quem ainda insiste em revisitar o tema, o faz porque acha necessário, e esse tipo de  necessidade só passa quando é atendida. Mas e aí, fazer o quê quando a experiência pessoal é como moça da vida de R$ 1,99, todo mundo já teve uma e já bolinou-a trinta e dez vezes antes de você? O Dhalia investiu na fotografia. A ausência de confronto em grande parte do filme entre seus personagens é compensada com uma fotografia sinceramente empolgante, que deixa todas as situações comuns mostradas aproveitáveis como algo realmente original. Se já tiver acontecido dentro do seu curral então, ter a consciência de tudo isso aí dito acima torna a coisa toda quase indispensável.

Ver também: A Vida Secreta dos Dentistas.

Publicado em Cinema por Tiago Lopes em Setembro 9, 2009

Up

Chorei que só :D

Moscou

Publicado em Cinema por Tiago Lopes em Setembro 4, 2009

Não que não haja alguma verdade no que a maioria já disse, mas a única coisa que parece documentada em Moscou é uma distração, que só está ali para provar que uma obra de ficção com texto e interpretação exatos se sobrepõem, sem nenhum problema, a tudo o que estiver acontecendo próximo à ação principal. Coutinho poderia ter filmado um dos atos de As Três Irmãs dentro do camarote da Brahma no carnaval do Rio, com Suzaninha de papagaio. Com algum ajuste no aúdio, nada da intenção original da peça se perderia até chegar ao espectador.  Sendo assim, Moscou é como um teste da validade da ficção, como um chefão que as obras de ficção tem que se submeter para provar que são necessárias a esse mundo. As distrações são essenciais no filme, porque se equiparam à obra que quer ser vista – como a parte do isqueiro/fósforos no escuro*, o repeteco de Jogo de Cena logo no início -, mas é tudo de brinks, querendo que você pense que Coutinho está ludibriando a linha que separa documentário de ficção, mais uma vez. Não está. Ele fez uma obra de ficção, mas uma que precisa se impor a uma série de ninjas assassinos treinados que querem minar sua existência.

Nível sub-21: se David Lean tivesse filmado As Três Irmãs à sua maneira, o impacto seria o mesmo de Moscou.

*Uma das vantagens do cinema nacional que me apraz é provar, covardemente, que eu estou errado. Da mesma maneira que Terra Estrangeira me fez acreditar que “Vapor Barato” pode ser muito massa, Moscou fez o mesmo com “Como Vai Você”. Me desacreditei, e não curto muito me desacreditar.

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Publicado em Cinema, Música por Tiago Lopes em Setembro 3, 2009

Spike Wilco

Update (como se a humanidade, já muito ausente disso aqui, fosse notar um adendo a um post old as dinosaur shit como esse):

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Altos queria as três. Só sinto que o bananão não tenha mais nenhuma revista minimamente aceitável. Tenho sentido alguma falta do passeio massa que é entrar em uma banca e sair folheando a nova aquisição dentro do ônibus, até chegar às planícies verdejantes onde a minha casa está instalada. Billboard terá edição nacional e será bem pfff mesmo.

Filmes de verão III

Publicado em Cinema por Tiago Lopes em Agosto 25, 2009

The Hangover/Arraste-me Para o Inferno: Os dois melhores da temporada até agora. Quanto ao primeiro… Altos arrependido de ter feito campanha em prol de filmes como Dias Incríveis e Starsky & Hutch. O resultado são essas centenas de milhões que se originaram do meu esforço e salas de cinema cheias demais, pessoas capazes de entender piadas de referência que, antes desse safadeza toda, só eu compreendia e dava uma risada solitária e cheia de clever-pride. Agora a humanidade vai lá, confere e indica em twitters.  EM TWITTERS! Shame on you, humanidade. Spin-off pro japinha, ao menos, e tenho não gostado da confirmação de uma continuação. Mas Drag Me To Hell ainda é apreciado pelas pessoas certas, trouxe o satã de volta e deu um filme só para a Alison Lohman, que engoliu o trabalho do Cage, do Rockwell e do Scott em Os Vigaristas.

Só pra terminar essa putaria de filmes de verão: Star Trek e Harry Potter foram os melhores na categoria “gazillion dollars”. O primeiro respeitando a ausência de propagação de som no vácuo e tendo o melhor roteiro com os piores diálogos da categoria e o segundo tendo os melhores diálogos e a história mais mocoronga da série, um Fica Comigo em que a Fernanda Lima é interpretada com uma certa comicidade pelo Dumbledore e que, quando já se sabe quem vai e quem não vai pros finalmente, foi tudo de brinks. Um Pfff cravado em barra de ouro pro filme.

Terminator 4 só me faz pensar que o McG ou devia passar a vida fazendo sequências d’As Panteras ou só ficar em casa alimentado o puma que provavelmente deve ter comprado quando possivelmente viajou à África do Sul. Também me lembra que a idéia mais abominável de toda a existência dos filmes de verão foi criada pelo James Cameron em Alien 2 (minhas categórica resposta para a por vezes irrespondível pergunta “qual o pior filme de todos os tempos?”): fazer os personagens soltarem piadinhas ruins em meio a colisões, explosões e jogos de sedução. Se hoje tá tudo entregue ao neoliberalismo, é só por causa dessa idéia.

Fechando o pacote, Intrigas de Estado e Trama Internacional altos que se equilibraram no ponto que, se pende muito prum lado, é Transformers sem robô, G.I. Joe sem Sienna Miller. Se cai demais pro outro, é flop instantâneo de bilheteria. O primeiro resolveu o problema usando o personagem da Rachel MacAdams: para cada twist explicado sutilmente pelo roteiro, ela mastigava a informação para os consumidores que chegavam na frente do filme depois de terem perguntado pra moça da bilheteria “o que é que tem aí de filme ixperto?”. O segundo cravou de pipoco todo o Guggenheim, na melhor cena de tiroteio dos citados. Humilhou o filme do Mann.

Depois eu me desculpo sinceramente por essas poiqueiras e isso não é querendo que venha alguém e diga – mas você escreve bem e talz – tá ruim mesmo. tem uma rima vergonhosa aí em cima e piadas fail all over. mas é mais saudável que twitter. No mais, acho After Hours o melhor do Scorsese e Kanye West tem tocado altos lá em casa. Skate vibration! Flw!

Filmes de verão II

Publicado em Cinema por Tiago Lopes em Agosto 25, 2009

A noção de “diário” desse blog é a melhor que se pode comprar num mercado de pulgas.

Tranformers II/ G.I. Joe: Todo bom crítico sabe aproveitar bem a existência do nincho mais show de pirotecnia  dos filmes de verão. Os que tiveram a perspicácia de notar que eles sempre vão estar por aqui* pararam de fazer beicinho e de saracotear em cima de suas boinas e começaram a aproveitar o que não pode ser ignorado. Então, a cada Bad Boys lançado, os bons tem a oportunidade de fazer uso de umas boas piadas que quase nunca têm a oportunidade de usar, porque não cabem num texto sobre o lançamento do catálogo completo do Fuller no Brasil. As resenhas mais óbvias de Transformers II e G.I. Joe foram as que classificaram-nos, a cada duas linhas, como os piores filmes da história yadda yadda yadda. As que me deram mais e mais vontade de ver essas sinceras convergências de refinamento da nossa geração foram as que encheram o espaço entre o óbvio dito a cada duas linhas com umas tiradas sensacionais.

Essa, principalmente, me fez ir ao cinema no mesmo dia. E eu não me decepcionei nem por um minuto, durante as 10 horas de exibição de Tranformers II, por várias razões, mas a melhor mesmo era só porque eu não conseguia distinguir nada do que estava acontecendo na tela, justamente nas sequências em que foram gastos os PIBs de três países africanos por frame. Tem que ser muito bom, de uma maneira satanista, para torrar fossas de dinheiro em alguma coisa que, veja só, parece pintura surrealista. Michael Bay, dessa maneira, prova que saca muito mais de arte contemporânea do que o público que a aproveita: ele investe muito para mostrar nada e, como os melhores da Sotheby’s, consegue lucrar 200 vezes mais do valor investido, enganando gente que finge estar tendo uma catarse quando, na verdade, não sabe nem se está olhando para a bunda de um velho de 90 anos ou para esmaltes pixelados sendo derramados. Clap, Michael Bay, clap. E parabéns também por manter viva a memória do Tonho da Lua em nossas mentes e corações. Tenho certeza de que, se vivo estivesse, o devoto da gêmea boa seria que nem você, caso cineasta fosse.

Mas, voltando aos críticos, se as pessoas que lucram com esse incompreendido cinema avant-garde fossem um pouco mais espertas que os personagens que criam, além de fazerem filmes ligeiramente mais aproveitáveis (sigo dizendo que o mal maior é a quantidade absurda de vezes que essas pessoas assistiram a Acossado), também saberiam usar argumentos válidos para minar a credibilidade de quase todos os críticos que perdem tempo tentando arranhar seus egos. O quem tem de crítico repetindo as mesmas frases e julgamentos sobre certos filmes de verão é quase incontável. E são sentenças bobocas como “seu Q.I. diminui a cada segundo dentro do cinema”, “não sei o que dizer sobre atuação, roteiro, enredo, porque não havia nenhum”, ou, a minha favorita, “é o pior filme de todos os tempos”. Não sei como esses críticos conseguem dormir com o cérebro estufado da mesma repetição que eles condenam no trabalho de auteurs como Michael Bay e Stephen Sommers. Se eles só soubessem apontar essa falha dos resenhistas em memorandos enviados para as nações, nunca mais precisariam justificar porque fazem o que fazem.

Sobre G.I. Joe: se existe um mundo paralelo, e um que exista sob as regras de Fringe, o Billy Wilder desse mundo, o  Bizarro Billy Wider, conseguiu passar por um desses portais de trânsito entre um e outro e está, desde então, trabalhando como roteirista contratado de grandes estúdios somente para filmes em que os diálogos só sirvam para acionar, via identificação vocal, a explosão de um dispositivo que pode destruir o mundo e seus leprechauns em questão de segundos. Bizarro Billy Wilder escreve, com a mesma destreza e intensidade, cenas de romance, ação, comédia e drama, tal e qual o Billy Wilder que a gente conhece, mas sem obter os mesmos resultados, porque, para isso, precisaríamos experimentar uma vivência nesse mundo paralelo. Sem essa experiência, as trinta e dez viradas de 180º para a câmera feitas pela cabeça do Dennis Quaid nesse filme são só manifestações corpóreas que, possivelmente, carregam um significado do alcance de um Rosebud. Mas aaaaaah, nunca fui no mundo paralelo, então acredito mesmo que ele estava sendo atingido pelos punhos gigantes de uma shiva invisível constantemente.

*os números desse ano provam que Michael Bay tem o suficiente para gastar gazilhões de dólares em pesquisas de criogênia para perpertuar seu gênio doentio por milênios

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Filmes de verão I

Publicado em Cinema por Tiago Lopes em Agosto 13, 2009

Entre um capítulo e outro de Tristram Shandy, enquanto olhava para a parade cor de queijo-manteiga do meu quarto, uma lagartixa passou bem embaixo da janela e, quando ela me notou, olhou pra mim e disse:

- Óh, uma platéia! Vou aproveitar para citar trechos da palestra que Gay Talese deu na Casa da Abrobrinha: “Estamos vivendo num período de trevas no jornalismo. Quando eu era jovem, os jornalistas eram…

Minha gata comeu a cabeça da lagartixa e deixou só o rabo dela esperneando do lado de fora da boca antes da mesma pensar em fechar as aspas. Se ela controlasse seu instinto por uns segundos, eu iria convencer a lagartixa a conversar sobre algo mais enaltecedor, como filmes de verão, por exemplo. É o tipo de assunto que, se iniciado em qualquer cidade com mais de 50 mil habitantes, vai despertar o interesse de todos os presentes, que irão se engajar numa conversa realmente interessante sobre qual franquia mostrou o seu melhor e mais recente capítulo. É um princípio a prova de erros: se alguém não viu ao menos um dos últimos 10 filmes de verão lançados, tem alguma opinião para dar ao menos sobre as formas de seus conteúdos, como como as calças auto-limpáveis da Megan Fox vestem uma das provas mais sinceras da existência de um buddy-God, ou sobre a feiúra socialmente aceitável de Johnny Depp.

Inimigos Públicos: Cada vez gosto menos desse filme. 1) Porque as pessoas erradas tem descoberto Michael Mann, e são sempre elas que tentam dar ou um sentido mais profundo ou mais veado ou mais profundo & veado para os seus filmes. Culpa disso é o fato de Inimigos Públicos ser um filme de época, ter o Johnny Depp e ser baseado em fatos reais. Até o bisneto do Derrida deve ter conferido e saiu da sessão murmurando algo como “oh! a opressão!”. 2) Mann tem escolhido uns roteiros bem ruins depois de Collateral, seu último filme a subir no tamborete dos melhores, ao lado de O Informante e Fogo contra fogo. Miami Vice tinha ao menos uma grande sequência, a da invasão do trailer no final, e não pareceu, em nenhum momento,  ser dirigido por um anão. Já Inimigos Públicos sofre de uma falta de foco terrível, nunca se decidindo se é um Love Story for the poors and well dressed ou se é um filme de ação. Dito assim, parece uma reclamação boba de tão simplista. Mas um bom filme de ação é mais complexo do que pensam vossas vãs filosofias. Como sempre envolve muitos personagens, a dedicação a eles e às suas ações, que movimentam o roteiro tem que ser completa, e o Mann mesmo que ensinou isso aí. Antes de Miami Vice, nunca um personagem seu tinha passado mais tempo de afternoon delight com as bitches do que segurando uma arma.  Porque em veradade vos digo: poucos diretores tiveram a malemolênica necessária para fazer um filme de ação decente com borbulhas de amor sinceras. Cito um solitário nome para ilustrar: Peckinpah (snap, Mann!).

Um amigo reclamou da ausência de origens do Dillinger, como se esse fosse o principal problema do roteiro. Tanto a reclamação como a situação ausente são, por elas mesmas, um lugar comum. Faltou mesmo foi foco, e a direção de Mann foi dispersa e literalmente nanica, em momentos altos. No último assalto à banco, antes da fuga para a casa do mato, quando os bandidos estão fugindo, colocaram um anão pra segurar as câmeras e tudo o que se vê são sapatos, meias e canelas, sendo que coisas mais interessantes estão certamente acontecendo acima das cinturas dos personagens.  Mas gostei da invasão final à casa do mato e da presença daquela moça lá, que, ano passado, só deu as caras cantando, gritando e chorando ao mesmo tempo.

Se o Mann continuar nessa linha de amor-bandido que seguiu em seus dois últimos filmes, infelizmente, seu próximo terá um casamento coletivo acontecendo nas montanhas da Colômbia, celebrado pela Katherine Heigl.

***

Vou continuar postando esses textos breves sobre os summer movies desse ano diariamente. Quando acabar com os que eu já vi, retomarei a série assim que ver Up, The Hangover e Brüno, que ainda não chegaram por aqui. Depois, cobertura completa do festival de cinema de Kandahar.