It’s the most wonderful time of the year (sings a spinning Will Ferrell)

Acredito que uns dois membros da minha amada família adentram esse sítio com alguma regularidade. Então, essa bonita sugestão mendiga está direcionada primeiramente a vocês. Aos amigos e visitantes, é hora de fazer aquele twist de imprevisibilidade em vossas vidas.
“Aqui apunhalou o bem-amado Brútus e, quando ele puxou a maldita lâmina de volta, observem como o sangue de César correu atrás, como saindo às pressas de casa para a rua, para verificar se Brútus havia mesmo batido à porta de modo tão desumano“.
Só isso aí coloca todo o resto da produção dos outros em um local que nem vale tanto o esforço de chegar e conhecer. Ainda assim a gente vai, passeia pelos cômodos, sente algum conforto. Mas nunca num mesmo nível provocado por esse itálico e seus pares.
Better than nothing indeed
Projeto todo übber-contemporâneo que comemora os 250 anos de lançamento dos dois primeiros volumes de Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman, do geniozão das tapiocas Laurence Sterne. Tem umas black pages bem engraçadas. Vistas numa exposição, em tamanho real, devem provocar um impacto mais tchans. No mais, o homenageado inventou a literatura free and loose, e uma toda cheia de piadas ainda inimitáveis. Começou com isso tudo aí, de Joyce a Saramago, de Machado a D.F.W. É pouco lido no zil-zil-zil, então não dá pra impressionar nem na santa ceia do mês, se esse é o objetivo. Para qualquer outro além, a leitura é severamente recomendada.
Se possível, procurem pelo filme do geralmente dupper Sr. Winterbottom, Tristram Shandy: A Cock and Bull Story. A melhor solução de adaptação de uma obra impossível de se adaptar. A proximidade com o livro é monstra e óbvia em toda a sua sutileza (o diálogo sobre narizes, making-off se amostrando, resposta imediata aos críticos, procrastinação generalizada).
“No reputation left to destroy”: ha ha ha*
O Castelo dos Destinos Cruzados é okey, com a nota final ajudando numa compreensão melhor da coisa toda e meio que sabotando-a também. Fiquei com a impressão de que todo o intricado e difícil trabalho que o Calvino falou que sofreu para elaborar a segunda parte é um tanto quanto nhé quando você presta bem atenção no seguinte: por mais que ele detalhe os significados das cartas, para elas não parecerem com outra coisa além da que ele está dizendo que são em determinado momento, dá pra notar que o senhor meio que perdeu o critério de verossimilhança. Em algum ponto do final, uma carta podia ser qualquer coisa que ele quisesse que fosse. Essa free-and-loosidade toda também se estende ao leitor, qualquer coisa que eu quero que uma carta seja, ela vai ser, é só eu arranjar uma desculpa que não envergonhe a vizinhança pra ligar todas elas. Então, o esclarecimento que a nota faz no final, quando o Calvino diz que quase abandonou tudo por não conseguir ligar os contos da segunda parte, soa como uma auto-valorização de um trabalho que nem foi tão grande sim. A parte em que ele acha três peças do Shakespeare no meio das cartas confirma o que eu tô querendo dizer.
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The Substance of Style é uma série de artigos da Moving Image Source sobre as principais influências do Wes Anderson. É dividido em cinco parte: Bill Melendez, Orson Welles, and François Truffaut, Martin Scorsese, Richard Lester, and Mike Nichols, Hal Ashby, Salinger e um vídeo do prólogo do Royal Tenenbaums com umas anotações. Não li nada ainda, por falta de unidades temporais disponíveis, mas me senti impelido a indicar (‘impelido’ as ’showing my google skills’).
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Ler algumas das resenhas já publicadas sobre Moscou (Coutinho) tem me dado mais satisfação do que a sentida em quase todos os filmes que eu vi esse ano. Com algum exagero, afirmo isso a vocês.
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O disco é irregular e esse vídeo parece bastante influenciado pelas últimas incursões no gênero feitas por george michael, mas a música é BOA, bem boa.
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quê mais? quê mais?
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Dr. Jules Meecham: You mean you don’t drink?
Reverend David Ruteledge: No.
Dr. Jules Meecham: In other words, when you get up in the morning that’s as good as you’re gonna feel all day.
ou
Shelby Munker: Well I try to do natural things. A lot of people in my family died of cancer. Bye.
Ruby Sparr: They… they died of cancer smoking pot?
E esses nem são os diálogos mais engraçados de A Wedding, um dos melhores do Altman. Sério. Já já deve chegar em dvd com o tratamento de luxo da Criterion Collection. Daí, se algum crítico do fim dos 70 ainda estiver vivo e tiver que rever, vai engolir tudo o que escreveu de negativo sobre essa maravilha na época. Gosto muitão daqueles dois grandes planos se abrindo no início do filme: um sobre a igreja e o outro sobre a casa aonde a festa de recepção acontece. O plano final é mais bonito ainda. E o timing. O Altman criou uma espécie de ritmo pra comédia que ninguém conseguiu imitar, ou se aproximar com cuidado suficiente para citar como influência. A maneira como as piadas são montadas aos poucos, uma sequência sendo interrompida por outra, culminando num punch-line sempre hilário das duas (nos melhores filmes), merece uma apreciação respeitosa, no mínimo. Os trejeitos esnobes e um tanto imutáveis que os atores sustentam por quase todo o filme passa uma falsa impressão de que eles são só um mero tamborete para o que realmente importa (a joke). Mas é só falsa mesmo. Tenta você ser esnobe por 30 minutos seguidos que sejam. Acho que só a Kristin Scott Thomas nasceu com o dom de parecer esnobe o tempo todo. Mas só usou-o bem uma única vez (em Gosford Park, sim sim).
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Já que citei Criterion, deixo aqui o link para as listas de top’s 10 dos filmes já lançados por ela, feitas por umas galeras massas aí. Tem de Mike Allred a Adam Yauch (a lista dele é a mais engraçada).
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*Embróglio mais divertido do ano, até agora. Se o cara ganhar a causa com uma desculpa dessas, é o fim do mundo civilizado como o conhecemos. Kids today…
Mandrake vs. the snake
Tenho gostado de pensar que Anna Kariênina só é o enorme livro que é porque Tolstói criou maneiras tão elevadas de descrever diversas vezes, e sem repetir uma sentença que fosse, a beleza da Anna que, se essas descrições estivessem muito próximas umas das outras, o leitor talvez experimentasse um tipo de arrebatamento tão latente que poderia chegar perto da insanidade, tamanha a excitação experimentada. Sem exagero.
E a excitação não é só sexual, é mais pela admiração absurda à maneira de escrever do Tolstói, nascida exatamente no momento em que as sentenças vão se seguindo e formando uma imagem tão exata, tão única e tão perfeita de sua personagem. Se essa imagem fosse, por exemplo, a de uma grande sala lotada de pessoas e seus detalhes, seria quase que igualmente impressionante, o “quase” fica por conta da distância entre objetos inanimados e a mulher mais bonita já inventada.
Entre um estranho e outro que a Anna vai topando com no decorrer do livro (são nesses encontros, geralmente, que o Tolstói providencia o maná de sua literatura), acontece muita coisa, muita coisa mesmo. Grande parte dessas situações não relacionadas com o adultério da citada. É aí que o Tolstói acalma um pouco os espíritos de quem o acompanha. Substitui o arrebetamento via-Anna por um que é acionado sempre… Bem, sempre. Por todos os diálogos, pelas soluçõs pensadas por alguns personagens para a melhoria das políticas russas em relação ao trabalho, à eduação, ao comportamento social, &c, e, principalmente, pela descrição de encontros sociais de grande porte, como bailes, idas ao teatro e a clubes. Só que não numa escala assustadoramente grande, como quando a beleza da Anna é apontada pela 4587545ª vez.
Tem isso e outra coisa que eu queria dizer sobre Anna Kariênina. Antes de ler o meu primeiro Tolstói, já havia lido uns 6 livros do Dostoiévski (Crime e Castigo, duas vezes). A Rússia era então, pra mim, o lugar mais pobre do mundo. Nunca li nada que fedesse tanto a vômito como os livros do Dostoiévski. E isso não é ruim, é só uma constatação factual: a literatura do Dostoiévski fede, seus personagens, todos parecem que não usam roupas de baixo limpas desde o momento em que nasceram, e os da alta sociedade são tão não-convincentes em relação à riqueza que dizem que possuem, que dão a impressão de usar colônia de supermercado o tempo todo. Já a Rússia do Tolstói é o extremo oposto de tudo isso. Até os seus mujiques dão a impressão de serem os mais asseados de toda a literatura russa.
Daí que lá pelas tantas, o personagem que tem sua história contada paralelamente à da Anna, o good old chap Liévin (é nele que toda a carga de identificação necessária para uma obra ser uma das minhas favoritas é depositada), recebe a visita de seu irmão moribundo. Aí, eu acredito que o Tolstói fez uma grande concessão em favor de sua ambição perfeitamente atingida (a de deixar para as geraçõs seguintes, até o fim dos tempos, a reprodução exata da época em que viveu): ele não podia deixar de fora os pobres. Se os livros do Dostoiévski estão todos cheios de pobres, é certo que a Rússia tinha lá o seu bom quinhão deles. Tolstói criou o livro mais anti-pobre que já li, mas a reprodução exata do seu tempo ficaria imcompleta sem ao menos um pobre-party-crasher. O Nikolai (o irmão em desgraça do Liévin) – e tudo que veio juntamente com ele – é como se fosse uma brecha na porta que dá para o quintal de uma mansão portentosa, e esse quintal é um pântano feio, frio e fétido que nunca é mostrado às visitas. É como ver a barba do Dostoiévski espreitando por essa mesma brecha.
é cafona, mas é só um detalhe
Perceba como o tratamento dispensado por Dostoiévski ao Svidrigailov e ao Lujin é um tanto incoerente. Claro que ele tinha consciência do que estava fazendo e só deu continuidade ao disparate porque tinha que, em algum lugar, expressar com veemência seu nojinho pela burguesia.
Svidrigailov e Lujin possuem dinheiro e contatos o suficiente para se encontrarem sob a mesma classificação social, mas o primeiro caiu em desgraça porque preferiu perseguir a mulher que amava ao invés de se prender às amarras da boa aparência mantida por um casamento. O segundo mantêm seu frio humor constante por quase todo o livro, enquanto seus planos de se casar com essa mesma mulher seguem inalterados. A mulher é Dunia, irmã de Raskolnikov e alvo de desgraças por possuir alguma beleza e um bom caráter inabalável.
Dostoiévski é obviamente mais simpático ao primeiro do que ao segundo só porque Svidrigailov alega amor genuíno, enquanto Lujin quer apenas uma doméstica obediente. Só que o primeiro é assassino, pedófilo, chantagista e foi um adúltero compulsivo durante seu primeiro casamento, o defeito do segundo é ser rico e esnobe. Sem motivo aparente, Svidrigailov começa a despertar uma simpatia no leitor. Enquanto Lujin, a cada movimento inofensivo que faz para tentar convencer Dunia dos benefícios que ela terá ao casar-se com ele (e são muitos), fica mais próximo de um criminoso responsável pelo sumiço de toda a vodka do mundo.
Essa incoerência toda passa despercebida no momento em que se lê o livro. Ela vai se tornando mais e mais visível à medida que as descrições conferidas ao Lujin vão se evanescendo, deixando visível somente suas intenções, que nem são perversas, mas perfeitamente aceitáveis para o modelo social em vigor. Dostoiévski tenta esconder os defeitos de caráter de Svidrigailov com humor (creio que em nenhum outro livro seu existe personagem mais engraçado) e obras de caridade. Para Lujin, não oferece nada além da ampliação de sua mesquinhez. Até o suicídio do Svidrigailov é mostrado como uma saída fartamente mais honrosa do que o piti dado pelo Lujin quando percebe que, graças aos conselhos do Raskolnikov, Dunia não mais irá casar com ele.
Tudo isso pra mostrar que o amor perdoa qualquer coisa e casamento de conveniência é muito feio, quem vê alguma ultilidade nisso, é pior que o pior dos seres humanos. Nunca pensei encontrar tanto de Jane Austen num livro do Dostoiévski.
O Legado da Família Winshaw – Jonathan Coe
Tudo uma questão de adição dos detalhes certos. O que é mostrado primeiramente é uma breve descrição de dois eventos que irão marcar a família Winshaw até à sua mais recente geração. Um, ocorrido no auge da WWII e outro, claro, numa reunião familiar.
Depois, Michael Owen, o protagonista, passa a nos dizer o que vêm acontecendo em sua reclusa vida recentemente. Um isolamento que durou por mais de dois anos e que, quando extinguido graças a aproximação de uma mulher, vai mostrar que a covardia e o relapsismo foram as sequelas mais visíveis dessa misantropia, em um quase-diálogo genial (ééé, tipo, pela maneira como ele mostrou que, quando não se está interessado numa conversa, qualquer coisa é motivo de distração, mas a outra parte não percebeu a falta de atenção e continua falando, até o constragimento virar vergonha, quando a conversa é interrompida por um “nao entendi o que você falou”).
Até o ponto de intersecção: Michael é um escritor contratado por uma editora para redigir uma biografia sobre os Winshaw, encomendada pela Winshaw mais velha e principal alvo do sofrimento causado pelas tragédias narradas nos primeiros capítulos. Então, aos melhores detalhes que irão estreitar ainda mais a relação de Michael com seu objeto de estudo, até isso se transformar numa obsessão e causa maior de todos os males da sua vida.
Detalhe 1: no auge do governo Tatcher, TODOS os membros vivos da família Winshaw lucraram com as reformas econômicas da dama de ferro, que consistiam, basicamente, em cortes de orçamento em todos os principais serviços públicos oferecidos pelo estado. A mais recente geração de Winshaws é apresentada individualmente, contando as suas principais especialidades e campos de atuação (política, artes, mercado de armas, imprensa e alimentação), sem esquecer de enfatizar o egoísmo característico de todos eles e como são responsáveis diretos pelos efeitos danosos das reformas bastante impopulares da primeira ministra. Jonathan Coe criou algo mais fácil de se atingir do que o poder britânico e tão pernicioso quanto, somente para efeitos de vingança. Quando Michael precisa dos serviços de emergência de um hospital e esses não funcionam como deveriam, ele culpa os Winshaw pela ausência de médicos e leitos num momento crucial, mas a responsável por tudo isso é Tatcher. Só que seu ódio se volta para alguém mais facilmente alcançável do que uma primeira ministra.
Detalhe 2: há uma piada recorrente em quase todo o livro que se sobrepõe a todas as outras: sexo em literatura. Quando Michael leva para o seu editor o rascunho da biografia, este, antes de dar o seu parecer sobre a obra, faz um discurso sobre o mercado editorial nos dias de hoje, que só vende porque inclui auto-ajuda e sexo gratuito. Explica que a sua editora sempre foi contra isso, mesmo que os lucros continuem escassos. Mas, quando dá a sua opinião sobre a obra, nota, antes de mais nada, a falta de sexo na romanceada biografia dos Winshaw e coloca a culpa na ausência do mesmo na vida de seu autor. Mais na frente, o pedido é atendido (num dos capítulos dedicados aos membros da família Winshaw) e seu hilário making off é mostrado (na parte do livro narrada por Michael Owen).
Isso tudo é movimentado por vááários personagens, localizados em tempos diversos, numa narrativa que necessita das idas e vindas em que é mostrada só para expandir seus tópicos de interesse para muito além da vida de seu protagonista fracassado, dando ressonância a todos os gostos das pessoas que o rodeiam. Comentários díspares sobre a tv britânica, Guerra do Golfo, métodos de sacrifício animal, esquerdismo juvenil, conservadorismo, sistema de saúde, arte moderna, etc, estão lá em seus devidos lugares e, ás vezes, somente como matéria-prima para ótimas piadas que debocham de quase tudo.
Essa aparentemente complicada narração também serve para esconder a ausência de dotes únicos na maneira de se escrever do Jonathan Coe, que às vezes, beira o novelístico de tão simplória. Só que a história que conta é tão sólida e bem elaborada, com reviravoltas que sempre aparecem na hora certa e devidamente justificadas, que já o coloca num patamar bem acima de vários escritores que se contentam apenas com a narração de suas desinteressantes opiniões sobre não-sei-lá-quê, geralmente tentando justificar uma angústia gerada pela “modernidade dos tempos”, pelo “vazio de sentido”. Tudo isso servindo de maquiagem para esconder a incapacidade de ir de A a B ou até de definir onde A e B começam. Em O Legado da Família Winshaw, Jonathan Coe vai a 150 km/h de A a D, demorando um pouco mais em cima do Ç*. Favoritão da casa já.
*muito me demorei tentando tomar uma decisão sensata: publicar ou não publicar essa metáfora final? Feedbackem-me, por favor, e me deixem saber se foi uma boa decisão.
going to mars. BRB. (LOL)
Cabei hoje de ler a so-called melhor HQ de todos os tempos. E é mesmo e talz. Daí que tem adaptação cinematográfica saindo daqui a pouco, e vai ser lixo, porque o diretor é lixo (fez o lixo 300) e ainda se chama de visionário, o que é algo além do double-lixo (além até mesmo do triple-lixo). Mas curiosidade mórbida também sustenta bilheteria, e lá estarei, pagando meu ingresso pra ver essa bomba, só pra dizer que esse resumo escroto feito por um anônimo e que têm passeado livremente pelo internets é quase tão genial quanto a obra que o originou. (via Na Cara do Gol. Ó, já havia lido também a versão palitinhos de Ulysses, que é genial mesmo. Lembrei que havia achado o link no site do Aran, mas já está fora do ar :/). É necessário ler WATCHMEN para entender as piadas abaixo. Quanto melhor você lembrar dos detalhes da obra, mais engraçado o que se segue será.
*eu podia simplesmente ter postado o link onde as tirinhas já estão postadas. Mas, what the hell né? Quero abrir esse blogue diariamente e rir ad infinitum com essa parada massa.
Se vai colonizar, coloniza direito p!
Tô aqui querendo falar do remorso colonizador que já foi diagnosticado há umas boas centenas de anos e que, talvez, só vai se concretizar daqui a mais umas boas centenas. Esse sentimento de quem acha que, para colonizar outro planeta, só com muito amor e compreensão das culturas que nos são estranhas. Se é pra continuar com esse pensamento covarde travestido de consciência, é melhor ir atrás de colonizar os pólos terrestres e desistir de ir além da camada de ozônio.
Porque, pela enésima vez, enquanto lia uma narração de um outro planeta sendo colonizado, apareceu de novo aquele momento em que o protagonista, depois de cair numa armadilha deveras estúpida feita pelos moradores locais, começa a ter consciência da morte iminente e passa a pensar que, realmente, não é uma boa idéia explorar descontroladamente os recursos dos planetas vizinhos. Sabe né? Lá eles também possuem algum coração escondido atrás de uns tentáculos (sempre tentáculos, mas antes tentáculos do que boinas. Aí sim teriam imaginado seres extraterrestres com um extremo mal gosto e falta de respeito). Nesse caso específico, foi um conto do Lovecraft, “Entre as Paredes de Eryx”, que me fez notar o quão chata e amplamente desnecessária é essa consciência que sempre aparece repentinamente, advinda dos momentos em que o terráqueo bobão foi vítima de alguma tecnologia desconhecida, que ele duvidava que existisse além de sua atmosfera.
Se não me falha a memória, num dos capítulos de The Martian Chronicles, o Bradbury mostra uns personagens se resentindo pela maneira como tornaram Marte uma nova Terra (que já estava inabitável quando os terráqueos fugiram para o planeta vermelho), mas é só um breve resentimento, porque o estrago já foi feito, não adianta mais reclamar etc etc. Em todas as crônicas, diversas histórias de como o homem se ocupou em solo marciano e como o lugar estranho o influenciou e vice-versa, mas sem nenhum mimimi-mimimi por causa dos pobres coitados dos marcianos. Uma colonização não deve seguir uma conduta de respeito para com outras culturas, porque daí não é colonização, é intercâmbio estudantil. Uma hora o terráqueo se cansa da culinária dos marcianos e, ou volta pra casa ou sai acrescentando orégano e catchup nos pratos marcianos. Como não vai ter casa pra voltar (por isso a necessidade de colonizar outro planeta), em pouquíssimo tempo, nossas doenças irão dizimar uma população inteira de extra-terrestres.
Engraçado que o Bradbury até eximiu um pouco da culpa dos terráqueos na extinção da raça marciana, fazendo com que essa fosse extinta não por atos agressivos ou conflitos armados, mas por um vírus. Ele tinha a consciência de que não adiantava romantizar os sentimentos dos extra-terrestres e transformá-los em alvos indefesos da nossa oh-oh-perversa ganância, tampouco concedeu aos terráqueos um altruísmo claramente folclórico. É um caso isolado, no meio de um gênero que teima em nos foder sistematicamente na mão de marcianos, só para tentar provar que o nosso egoísmo sempre será o culpado de eventuais falhas em exploração descerebrada de ambientes inóspitos. Um insulto achar que o nosso egoismo não será apoiado por uma armação pesada.
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Nessa mesma coletânea de contos do Lovecraft (A Tumba, lançada pela LP&M), há um muito redentor. Os outros contos são todos meio entediantes por causa da adjetivação exagerada, recurso usado com moderação pelo Poe e extrapolado pelo púpilo. Enquanto o Poe descrevia uma cadeira como “assustadora”, o Lovecraft confere aura macabra à cadeira e ainda dá um adjetivo diferente para cada uma das suas quatro pernas. Tentar levar o leitor ao susto e à inquietação enfeitando até um par de meias não é lá das melhores idéias. É uma gordura desnecessária, mais ainda se os acontecimentos da narrativa forem, por si só, estranhos o suficiente para dispensarem afloreamentos. É o caso de “O Horror em Red Hook”, que começa como uma ótima história de detetive, descamba num clímax assustadoramente insano e termina de maneira sobriamente sã. (Como vocês acabaram de ler, não recomendo o uso desnecessário de adjetivos).
“I was struck less by his looks than by the fact that he was carrying a large teddy-bear”
Enquanto lia pela primeira vez Brideshead Revisited, sempre empacava num grave problema de falta de imaginação por nunca conseguir criar uma imagem satisfatória do Sebastian carregando seu ursinho. Creio que visualizei com um certo respeito e alguma fidelidade todo o resto, mas sempre que topava com uma menção ao Aloysius (nome do teddy-bear), conseguia vê-lo apenas enquanto sua presença era apontada. Exemplo: num encontro entre o Sebastian e o Charles, quando o Waugh informa que aquele está carregando o urso, conseguia vê-lo pendurado nas mãos do Sebastian somente enquanto lia, por exemplo, “Sebastian’s teddy bear sat at the wheel. We put him between us”; continuando a leitura do diálogo travado entre eles, me esquecia completamente da presença do ursinho, mas todo o cenário, figurino e objetos descritos nessa conversa continuavam em seus devidos lugares na minha cabeça.
Mas A-HÁ! Esse fim de semana assisti o primeiro episódio da série da BBC baseada no livro. Ver o Sebastian carregando Aloysius não foi tão normal quanto minha ansiedade antecipava. Na verdade, tenho certeza que foi uma das imagens mais bizarras que já vi, por isso minha imaginação um tanto pequena (devo admitir) se recusou a manter constantemente viva tão estranha imagem. De todas as excentricidades descritas ao longo do livro – TODO o Anthony Blanche, o comportamento do Sebastian em suas viagens feitas já em pleno declínio -, tudo isso me pareceu menos incômodo do que um homem crescido carregando um urso de pelúcia em aparições públicas. Acho que por toda a facilidade do gesto (agarrar um urso depois de vestir um bom terno não demanda muito esforço físico), a caminhada em público com um urso nas mãos me parece A atitude mais excêntrica da qual já tomei conhecimento.
Creio eu que mudanças nesse posto não irão ocorrer em tão breve momento, porque continuo imaginando todo o efeito provocado pela disseminação desse comportamento: adultos carregando ursos de pelúcia, paralelamente à mochilas, malas e outros objetos que possam ser carregados na outra mão. Imagino que em 1945 – data da primeira edição de Brideshead Revisited e também ano em que a II Guerra Mundial chegou ao fim – toda uma multidão de sobreviventes dos campos de batalha voltou para casa e teve que encontrar sua jovem prole carregando ursos de pelúcia pelos pátios das universidades e pior!! dando nomes aos seres inanimados e levando-os aos salões de festa, barbearias, praças…
Sinto que a presença das gravatas borboleta, dos chapéus-coco e dos bigodes aliviava um pouco o choque da visão de um urso sendo carregado por um homem em locais públicos. Transpondo a imagem para os dias de hoje, na principal avenida da minha cidade, tenho certeza que visões de homens em sungas fazendo caminhadas na beira da praia, com um squeeze em uma mão e um teddy bear na outra, me levariam a convulsões instantâneas. E há quem se submeta à dor provocada por perfurações cutâneas com o intuíto de provocar algum choque na comunidade local e chamar a atenção dos mais carolas, desconhecendo o maior e mais indolor causador de espanto: o ato de carregar um urso de pelúcia à vista de todos.
(Mas há mais, bem mais, em Brideshead Revisited do que um bando de afetadinhos fazendo coisas excêntricas. Há um declínio tão onipresente que alcança a todos os personagens, via decadência, ação do tempo ou remorso irredutível. E todos eles caem e é tudo penosamente divertido).











