Liberal Media: Arabian Nights
Esse blog ainda existe apenas para provar que é possível manter um que nunca comemora aniversário, muda de layout ou deleta posts vergonhosos. Mas, por enquanto, estou sendo pago para preencher as páginas de cultura da Revista VIP (a seção Cabeça, onde falo de cinema, música, literatura, HQs e TV) desde agosto do ano passado. Além do impresso, recentemente, comecei a postar diariamente no blog da VIP, que será escalafobeticamente linkado abaixo. Como a atualização precisa ser diária, é difícil fazer aqueles textos extensos que me tomavam uma tarde inteira e me enchiam de orgulho moderado. Por enquanto, o melhor layout desse plano astral continua por aqui, assim como os arquivos, com vários ORLY? e momentos até okey, vá lá.
Ó aqui o puxadinho da seção Cabeça: http://vip.abril.com.br/blogs/cabeca/
Tá tudo muito bacana, job wise, e muito por causa desse blog. Um efusivo aperto de mãos para quem acompanhou isso aqui. Cada comentário, negativo ou positivo, foi recebido com uma empolgação que, caramba!, nunca diminuiu ao longo de todo esse tempo. Com tantas girls with low self-steem para serem exploradas na internet, vocês ainda apareciam aqui e tal. Obrigado, de vera.
Cedendo ao óbvio
Judd Apatow disse que esperava que o Woody Allen parasse de fazer filmes como uma desculpa para se distrair do medo de morrer. Foi a opinião mais suscinta e respeitosa sobre o Allen dos últimos dez anos. As críticas negativas feitas aos seus filmes recentes são sempre acompanhadas de uma lamentação pela sua fase áurea. As duas opniões disparadas em lados opostos dos textos, sem qualquer conexão uma com a outra, como se um bodysnatcher tivesse se apossado do Woody desde a década de 80.
Antes de desconsiderar qualquer obra, acredito que um autor mantem até o fim da vida o mesmo senso apurado que o fez esconder rascunhos de idéias ruins do público, levando adiante apenas aquelas que, posteriormente, seriam vistas como uma fileira irretocável de trabalho. Os filmes do Altman formam essa fileira. O próprio afirmava que todos os seus filmes resultam de uma produção muito pessoal e, quando finalizados, são exatamente como ele queria que fossem. Se Dr. T lhe parece um filme ruim, pense que você ainda não o viu sob o ângulo certo e precisa acumular algum tipo de conhecimento específico, colocando-o em um contexto mais amplo, por exemplo, para justificar suas falhas. Se o Altman dizia que nunca fez nada que não fosse planejado, isso parece mais uma afirmação acurada do que um rompante de modéstia francesa, vindo de alguém que fez Nashville.
Só que o Allen é bem mais flexível sobre o seu trabalho, especialmente o mais recente. Sempre diz que não consegue parar de escrever e filmar porque precisa se distrair de trinta e dez tipos de ansiedade. Mas ele criou Purple Rose of Cairo e seria bom se os naysayers entendessem que ainda está lúcido o suficiente para não lançar um trabalho ruim toda vez que passa em frente a uma funerária. Se o problema dos filmes que não agradam é mais preguiça do que experimentalismo ininteligível, é no mínimo educado da nossa parte procurar e se agarrar ao que é válido.
You Will Meet A Tall Dark Stranger é o mais monótono da safra recente. Entenda como monótono o fato do filme seguir, na maior parte do tempo, em apenas um tom, sem mudanças bruscas. Também é o único da última década que mostrou ao menos duas coisas originais se comparadas com toda a sua obra, com uma personagem que está entre as suas melhores criações. É na Helena que o Woody deposita a perversidade que pratica regularmente com suas personagens mulheres. Em um resumo grosseiro, ele costuma fazer delas pessoas muito esperançosas e otimistas, negando ao final tudo o que elas esperam. A Helena só quer encontrar um novo companheiro depois que o seu marido a abandonou por uma mulher bem mais jovem. E se apega a um recém viúvo. Eles partilham um interesse por assuntos sobrenaturais, sendo esse o maior motivo dos dois se gostarem, mas também principal atestado da ingenuidade de ambos.
É por essa brecha que o Allen cria uma das suas sequências mais dolorosas. Pouco depois da Helena se convencer de que o Jonathan é o homem que vai lhe trazer paz de espírito – como previsto pela vidente – e estar satisfeita com a reciprocidade, a gente se convence de que o Allen está velhinho e, finalmente, cedeu à felicidade. Uma que foi sugerida e incitada por uma vidente, mas nem por isso menos empolgante. Já estava convencido de que a Helena teria uma resolução feliz no filme, quando Jonathan a convida para uma sessão espírita, em que ele tenta invocar a sua falecida esposa. Helena se sente traída e tem um ataque de histerismo muito breve, engraçado e ao mesmo tempo profundamente deprimente: o Allen nega mais uma vez uma resolução otimista, mesmo depois de ter aparentemente cimentado essa decisão.
No final, ele decidiu fazer com que os dois se unissem para explicitar o mote maior do filme, que vinha sendo sublinhado pela teimosia de todos os outros personagens: é preferível se contentar com o que temos, porque a vida é curta e mudanças drásticas podem vir acompanhadas de frustrações idem. Mesmo sabendo que o Jonathan não tinha superado a morte da sua mulher, Helena decide ficar com ele e ainda consegue se vingar do seu ex-marido, que tenta a reconciliação depois de se tocar do desastre que será o seu casamento com a moça mais jovem.
É uma resolução irônica: no fundo, Helena vai ter só a ilusão de felicidade, porque já está consciente de que ela também é só uma substituta de um inalcançável padrão ideal. Mas qualquer coisa é melhor do que a solidão, especialmente quando você começa a confrontar o medo da proximidade da morte.
O que leva à outra adição original ao seu escopo: a maneira como tratou a morte. É possível que o próprio Allen me prove errado em seus próximos filmes, mas essa talvez seja sua grande obra sobre o tall dark stranger. Em todos os seus filmes, ele enfrenta a sua maior ansiedade com alguma piada, quase sempre ancorada em seu ateísmo duvidoso. Se tomarmos os seus filmes como obras de cunho extremamente pessoal, o motivo da descrença do Allen em Deus é bem egoísta, porque quase sempre citada quando ele toma consciência da sua finitude. Só que em You Will Meet A Tall Dark Stranger, ele se permite, pela primeira vez, acreditar que ter fé em algo alivia essa ansiedade. Para quem conhece os filmes do Allen, perceber essa mudança brusca de opinião só pode ser algo sinceramente único e admirável.
avisos
1) Criei um tumblr pra upar uns favoritos do SNL, da primeira à mais recente temporada. Também tem umas mulheres bonitas de camisola por lá:
http://mulherbonitadecamisola.tumblr.com/
2) Me mudei para SP-SP esses dias. Quem quiser aparecer para tomar cerveja e/ou me oferecer emprego, don’t be shy, como eu não estou sendo de divulgar coisas assim por aqui.
3) Mad Men –> tava preparando alguma coisa para dizer sobre o backlash boboca timidamente construído ao longo da 4ª temporada. Algo sobre a série ter perdido a sutileza de anos anteriores para investir em aceleração do ritmo, só porque decidiram não dar mais tanta atenção aos acontecimentos do mundo exterior, esquecendo um pouco a já cansada idéia de mostrar os personagens como uma versão minimizada das mudanças históricas do período, e tratá-los como gente mesmo, dando atenção devida aos seus problemas, sem procurar conexões na GRANDE linha temporal. Foi tudo ótimo, como de costume.
Mas o que eu vim aqui pra dizer foi isso: Jessica Paré, a nossa Megan, a secretária mais garbosa do segundo escalão da Sterling Cooper Draper Price, que todos nós torciámos, a cada novo episódio, por mais pele e mais falas em francês, mostra seus gigantes e molhados talentos físicos em Hot Tube Time Machine (um dos grandes filmes do ano, também). Na tela: http://bit.ly/cGdqqy
4) Ô, It’s Always Sunny In Philadelphia, série muito ótima. Já está no sexto ano e eu não sei se fui um dos últimos a perceber o quão boa é ou se as pessoas já gostam desde o início, mas falam pouco em público sobre, daí a indicação.
~:)
Ocupado com umas coisas aí. Me formando a contragosto, para honrar todos os centavos gastos em ônibus durante seis anos, principalmente. A Mischa é bonita né? Assim, muito mesmo. Queria que ela fosse algo mais nessa vida. Tô do lado da tua empregada Mischa, só quero o teu bem. Tenho twitter agora ó —> @landshark_
Causa maior de arrependimento no porvir
Nessa década, recorreu-se bastante à figura do anti-herói sob a justificativa de aproximar o homem comum do fruto da sua imaginação mais boazinha. O conceito já tenta apresentar a sua existência fazendo uso de um prefixo que quer eliminar sozinho a noção de “herói” acimentada por séculos altos nas cabeças das pessoas todas. Tá claro que chamar esse tipo de personagem de “anti-heroi” é insistir num equívoco besta. A noção limpa e esterilizada de “herói” é a noção correta e exata. Recorrer a um “anti” para denominar essas figuras que guardam características tortas – comportamento levemente heróico, mas um cheio de brechas, preenchidas por falhas comuns a gente comum – de um herói não só não é suficiente, como o uso indevido e exagerado do termo será visto pelos futuros autores de documentários da BBC sobre esses tempos que acabam de passar como um dos equívocos mais engraçados da humanidade. Tão engraçado quanto elogio ao Philip Roth pós-2004 e surgimento do viagra.
(O uso indevido da epifania em séries de tv também será devidamente condenado daqui a alguns decênios. Por enquanto, a gente segue gostando, se entretendo com o esforço dos roteiristas em criar enredos intrincados para, em segundos de expressão facial jizz in my pants, dar high-fives em toda a galera e proclamar o fim do dia).
Tava todo nas programações de ver o Sonic Youth e o fanfarrão do Iggy em novembro, mas parece que vai miar. Como Deus é justão assim, depois da rasteira, veio o afago: a minha banda favorita a aparecer nessa década, The Walkmen, confirmou uns show em dezembro, aqui no país do Dalua. A certeza da minha presença já está alicerçada em estrutura de adamantium :D
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A 1ª faixa de Contra está aqui, toda se querendo.
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E eu ainda quero a oportunidade de fazer uma pergunta besta dessas para alguém como o Malkmus:
John Robinson, da Uncut: Do you still smoke pot?
SM:I gave up smoking weed about ten years ago. I hadn’t smoked in a while, I had some hash in Amsterdam, and it was like an acid trip. I was like, “I gotta stop.” But you don’t have to be stoned to make a stoned digression.
HAHAHAHAHA. Esse menino.
Acho legal ler essas coisas de maconheiro, porque sempre me faz lembrar de uma cena de Pineapple Express que eu curto como a favorita, na parte em que Dale chega na casa da namorada, e a família tá jantando. Durante o tiroteio que segue, o pai pergunta “Son, are you high?”, e a mãe diz, toda histriônica e hilária “He is high as a comet!”. Sempre repito mentalmente essa acusação pra qualquer gandja people que vejo na minha frente, tentando, inclusive, atingir o tom de voz da mãe. Mentalmente, claro.
Hoje de manhã, uns guris na faixa dos 6, 7 anos, de uma escola daqui de perto, vieram visitar a redação. Um deles viu que eu ria despudoradamente com o gif abaixo, chamou todos os outros guris e uns 15 deles ficaram se espremendo na frente do monitor pra ver isso. Riram altos também e quase que não saem de perto pra fazer o lanche. Foi massa.

UPDATE:




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