Da Década!

de um ensaio sobre Quevedo

Posted in Literatura by Tiago Lopes on maio 20, 2008

“Para a glória, dizia eu, não é indispensável que um escritor se mostre sentimental, mas é indispensável que sua obra, ou alguma circunstância biográfica, estimule o patético.”

-Jorge Luís, o Borges, falando a real e eu, humildemente, cumprindo.

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Posted in Literatura by Tiago Lopes on maio 13, 2008

Todos os Belos Cavalos e A Travessia são os dois primeiros terços da Trilogia da Fronteira, do Cormac McCarthy. O segundo não continua a história do primeiro, mas apresenta uma nova que, em diversos pontos, é semelhante a Todos os Belos Cavalos, que começa com a fuga de John Grady e seu bróder Rawlins para o México. Mas, antes desse começo, tem um anterior, que é o começo mesmo do livro, o que é dito nas primeiras páginas, não o início do enredo. E só esse começo foi o suficiente para me fazer fechar o livro, sair da minha cama e passear pela casa fazendo cara de ansioso e dizendo pra quem estiver por perto “esse cara é muito massa, muito mesmo, yu-hú!” (em outras casas eu diria “esse cara é muito foda, putaquepariu, foda pra caralho”, mas não falo palvrões na minha casa porque acho feio e recebi uma educação cristã). E, se eu fizer o esforço de interromper uma ótima e inédita leitura pra ficar zanzando feito um disléxico pela casa, é porque o autor realmente causou um impacto. Can’t explain, mas sempre faço isso quando acabo de ler um troço muito massa: fico ansioso e saio andando pela casa, às vezes vestindo só um lençol, vou em busca de um copo d’água e da primeira pessoa que estiver na minha frente só pra comunicar a descoberta phoda que eu descobri recentemente (se não encontrar ninguém, fico falando sozinho mesmo, em voz alta, gesticulando e tudo mais).

Back in track, nesse começo o Cormac dá uma geral de a quantas anda a vida do John Grady e de quem está por perto, pra tentar justificar a fuga do garoto pro México e pra me deixar a par de sua atual situação. Só que a narração vem toda meio cifrada, é em terceira pessoa, mas não possui as excessivas explicações características desse tipo de narração. É como se o Cormac estivesse só documentando o que está acontecendo na decorrente ação do livro. Exemplo: se os personagens estão enterrando alguém, só vamos saber quem é se algum dos presentes no enterro disser algo sobre o defunto. Até alguém abrir a boca, ficamos só com a descrição do local da ação, e uma descrição discreta e precisa, que te dá a exata idéia do local sem nenhum floreamento. E é preciso dizer que as personagens do Cormac falam muito pouco, o que só aumenta mais ainda o valor de cada palavra. E é fazendo uso de escassas, mas precisas informações, que sabemos que o John Grady vai sair de casa porque sua família está assim assado e patati patatá (i’m no spoiler people).

Aí é que começa o livro mesmo, quando ele e o Rawlins sentam seus popôs em seus devidos cavalos e vão em direção ao sul. Corre tudo bem, bem mesmo saca, só planícies vastas, cavalo, cavalo, um mínimo de conversa… Aí eles cruzam com um cara chamado Jimmy Blevins (um garoto na real) e esse rapaz decide que vai acompanhá-los, sem saber que vai afundar toda a esperada e quase concreta calmaria da viagem num monte de merda, abrindo espaço pro McCarthy feeling de maldade et violência. E tudo começa com uma chuva forte levando umas roupas ai e fazendo um cavalo fugir.

Wolf parade

A Travessia também começa com uma fuga, só que uma mais solitária: Billy Parham segue sozinho em diração ao sul, sem dar qualquer explicação a seu pai, sua mãe ou seu irmão mais novo. Depois de capturar uma loba, que estava assustando sua vizinhança, segue em diração ao México para tentar devolvê-la à sua terra natal. Estranho como, depois que ele consegue capturar o animal, a narração não suscita qualquer história além da solitária caminhada que os dois (Billy e sua moby dick) empreendem, até serem encontrados por fazendeiros de índole duvidável. São quase 100 páginas de como a loba, grávida, foi, pouco a pouco, sendo domada e mostrando alguma afeição pelo garoto que a capturou. E, preciso dizer, difícil cruzar essa ausência de qualquer ação mais interessante para além das descrições de como a loba está se sentindo (como se ela mesma estivesse dando a sua versão dos fatos, e é interessante no começo, mas demorei a cruzar, demorei…).

Mas a recompensa exatamente do outro lado da mini-saga da loba é válida, muito válida, porque o Billy entra numa cidade deserta, e na igreja dessa cidade, acha um padre que vive sozinho e começa a dizer como e porque foi parar ali. E a história desse padre se tornou a minha favorita de todas as histórias de meio de estrada que o Cormac narra ao longo de seus romances. Porque ele nunca está satisfeito em mostrar só os problemas enfrentados pelos garotos e sempre dá uma palhinha da vida dos outros que cruzam o caminho de seus protagonistas. Essas pessoas, bem mais velhas, narram eventos mais movimentados e violentos do que os experimentados até então pelos guris, pra causar a sensação de iminiência de perigo sempre e pra dizer também que crescer é isso mermão, se fuder legal e pá e talz. Mas a história desse padre… Acho que o Garcia Marquez, se não perdesse tanto tempo sendo um comuninha e fosse mais ao cabelereiro, leria esse livro e, logo depois, enfiaria um garfo em seus dois olhos, gritando “puta madrecita?? COMO???” de tanta inveja, porque o McCarthy HUMILHA >fazendo cara de will ferrell< HUMILHA essa idéia de que o fantástico tem que ser fantásticozinho e cafona, idéia que só o Garcia Marquez cutiva mesmo, junto com o sebo do seu cabelo.

Mas é isso aí, o Billy volta pra casa e ainda cruza a fronteira mais 2 vezes, com umas perdas pesarosas nos dois países. Esse é bem mais triste que o primeiro, arrisco até um ligeiramente mais sensível, mas num nível ainda exacerbadamente másculo de sensibilidade, porque né, a literatura do Cormac é capaz de tranformar uma Vera Verão em um Muhhamad Ali em menos de três sentenças. E tem que ter todo um estômago pra agüentar um cego explicando como perdeu a visão, porque digo a vocês que nem anos de cinema do mais podre possível conseguiu imaginar uma sequência de fatos tão, mas tão violenta.

A última parte da trilogia, Cidade da Planície, começa mostrando como o John Grady e o Billy Parham se tornaram amigos. Depois, comento com a propriedade de quem leu o livro. E, caso esse mínimo texto não seja o suficiente procê, vai aqui e lê um perfil de frente que eu fiz do Cormac. Tem caracteres em excesso pra sua mente insatisfeita…Aproveita e lê todo o resto do site, tudo muito bom, mas lê o meu primeiro! E chega por hoje que esse texto tá nos rascunhos há mais de uma semana. Vou ali me enrolar em meus lençois que a coriza tá escorrendo e desligaram o ar-condicionado dessa joça de lanhouse da qual eu me dirijo a vocês aí.