Da Década!

Tão sensacionais quanto todos esses que merecidamente ocuparam o posto de melhores pt.III

Posted in Cinema by Tiago Lopes on janeiro 11, 2010

Sei não, mas acho, que com esse aqui, o Kaufman esgotou a fonte. Esse filme é tratamento deluxe do tema >morte<. Creio que nenhuma das sensações suscitadas pelo medo do fim foram esquecidas aqui. Tudo o que todos falam e fazem no Synecdoche são só tentativas de fazer um drible maroto no medo todo. Todo mundo consegue, menos o Caden, que faz do que deveriam ser só uns breves segundos esporádicos dedicados à degustação do medo o projeto de toda a sua vida. Afora todos os longos monólogos sobre o major theme, gosto da coragem do moço em inserir piadas sensacionais nos momentos mais inapropriados, vide os closes nas capas dos livros de auto-ajuda durante o monólogo final. Aquilo lá é um dos equilíbrios mais bonitos de tragédia/comédia. Cabem trocentas interpretações simbólicas para essa escolha, todas válidas. Essa é, de longe, a melhor obra do Kaufman. Se vivo o Borges estivesse, levantaria felizão os dois thumbs. (e sim sim, esse filme tem o melhor elenco feminino da década).

Tó aí outro grande pedaço de arte advindo do medo da morte. Esse aqui, ao contrário do de cima, não é só angústia  e se permite esboçar até uma solução. O mais diferente do Aronofsky, e seu melhor portanto. E, aos que não acharam, a explicação de tudo tá lá, inteirinha no roteiro.

Gosto muito, mas muito mesmo desse.  O mesmo tanto que gosto de todos os outros do Anderson. Tem aquela mancha lá que atende pelo inominável nome de *blip*, brazilian singer/songwriter que Jesus! conseguiu fazer o papel de background mais incômodo de todos os tempos. Mas quem se incomoda tanto com isso quando o Bill Murray tá sendo irresponsável o tempo todo, enquanto a Cate Blachett está inacreditavelmente bonita? E a sequência toda envolvendo os piratas foi das mais divertidas de se assistir nessa década. E aquele Zombies disparado perto do fim faz esquecer todos os “zero a zero, você venceu/passe amanhã e pegue o que é seu”.

Só pra constar: o Winterbottom é um diretor que merece figurar entre os nomes do A-team como todos os que estão lá justamente (assim como todos os diretores citados nessa lista). Assim como o Tristram Shandy, ele fez uns outros três filmes da mesma qualidade para ocupar essa lista, cada um mais diferente que o outro (Code 46, 24 Hour Party People e In This World pululam aqui). Só que esse é a adaptação de um dos melhores livros de todos os tempos, e um tão infilmável que até conseguiu uma adaptação bem próxima do material original, só porque o Winterbottom teve a idéia genial de se ater ao principal da obra: o humor e a auto-referência à maneira de se construir a obra. E os narizes também.

Todo mundo gostou que só quando saiu, ninguém lembrou depois. :( Vi de novo esses dias e ainda continua sensacional, um dos grandes do Neil Jordan, tão massa quanto The End Of Affair. Para preencher esse último lugar, considerei três possibilidades similares, porque Ireland-themed-movies são uma das coisas mais bacanas do cinema RBD da Europa: The Wind That Shakes the Barley e Blood Sunday foram as outras opções. Tão ótimos quanto o escolhido, mas sérios demais. Breakfast foi mesmo uma das abordagens mais originais da questão toda.

Acho uma tremenda de uma contribuição prum cânone que contêm Altman, Kubrick, Pontencorvo, Fuller, Nichols, Resnais e Copolla. Sam Mendes e O. Russell (com Três Reis) são uns novatos que devem encher de orgulho os tiozão.

Tá vendo a tagline? É bem isso mesmo. O Shane Carruth fez em sua estréia um filme tão genial (o uso dessa palavra aqui é sempre abalizado, nunca gratuito) que deve ter gastado todos os continues de uma possível promissora carreira como cineasta só nesse aqui. É tanto que, mesmo quase seis anos depois da sua estréia, sua página no IMDB continua sem qualquer atualização. E tanto esforço colocado num só filme apenas para espanar anos de vícios de má-ficção de cima desse roteiro. Por isso, Primer pode passar a impressão de ser um documentário hiper-realista sobre as experiências de um grupo de cientistas, em que você não tem o direito de interferir no que está assistindo, nem os personagens sentem a menor obrigação de explicar o que está se passando, porque, entre eles, qualquer explicação é desncessária. Quem assiste, tem que se esforçar para tentar alcançar o mesmo nível. Essa equiparação de conhecimento é a mesma coisa que a busca pela empatia necessária para se extrair o máximo da experiência de ver um filme. O fato de Primer ter instigado essa vontade em seu mais elevado grau o torna um dos exemplos mais completos de cinema. Melhor ainda que os personagens sejam gênios: a equiparação demanda múltiplas assistidas. Se você ainda não leu por aí que Primer é sobre *******, só vai notar que é o que é próximo dos créditos finais, e vai ser uma das sensações mais massas que um pode sentir depois de ver um filme.

Esse é o mais diferente de todos do P.T. Anderson. Todas as tramas sensacionais que criou existem só para tentar tornar menos óbvia a obsessão com a questão paterna que ele expõe rasgadamente em seus filmes. Hard Eight: reflexo de um pai melhor em estranhos. Boogie Nights: ausência de qualquer atitude paterna (esse só precisa de um take pra mostrar a que talvez seja a principal causa do comportamendo do Diggler: quando a sua mãe grita quando ele avisa que vai embora, o pai é mostrado rapidamente sentado na beira da cama, chorando e impassivo. Mãe castradora + pai ausente = a porn star is born). Magnolia: como os maiores erros de três pais (Jason Robbards, Philip Baker Hall e Michael Bowen [pai do quiz kid]) influenciaram negativamente a vida de todos os seus descendentes de maneira tão pesada, que nem os unrelateds que se aproximaram conseguiram ficar imunes. Mas em todos esses, ocupando sempre um pequeno segundo plano, há uma história sincera de… errr… amor. Não importa a sujeira em que seus personagens estejam envolvidos, o amor vai lá e redime uma penca de coisas. Daí que ele fez Punch Drunk-Love pra expiar em um só filme todo esse romantismo que antes só nascia do pecado. Criou um dos filmes mais puramente românticos do cinema. Ela de vermelho, ele de azul. Ele se envolvendo em brigas como um guri de oito anos para provar que a ama. Ela aceitando todos os defeitos dele, sem nenhum julgamento. Eles se encontrando no meio do caminho. O P.T. só tratou de deixar as coisas um tanto mais estranhas que o comum (a trilha sonora imprevisível, o bonito uso de “lens flare”) para evitar que se pensasse que tudo isso é clichê. Nem é. São as coisas onipresentes mesmo em todo o processo de ajuntamento de seres, expostas de maneira única. Só para se ter uma idéia de quanto o Punch Drunk-Love é expiação, o There Will Be Blood não tem uma nesga de qualquer sentimento similar, nem em 15° plano. E o father issues nesse foi explorado da maneira mais escancarada e absoluta possível. Um carola tortinho e genial demais esse Anderson.

Aquela sequência da pedra caindo no fundo da piscina é clássica demais. Esse é o meu filme  favorito de one-last-job. O mais bem atuado, com o Ben Kingsley sendo freakin’ scary e o Ray Winstone distribuindo carisma a granel; e o mais bem escrito e dirido. Birth, o filme posterior do Jonathan Glazer, é tão sensacional (e completamente diferente) quanto esse.

Faz um tempo desde que eu vi esse pela última vez. Mas vale a mesma desculpa para justificar refilmagens já usada a favor de Funny Games: essa história é sensacional demais e deveria ser refilmada toda vez que uma significativa invenção tecnológica no campo fosse desenvolvida. Ainda quero ver a versão 3-D Imax desse.

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Tão sensacionais quanto todos esses que merecidamente ocuparam o posto de melhores pt.II

Posted in Cinema by Tiago Lopes on janeiro 4, 2010

David O. Russel nunca decepcionou as tias que deve ter. Filmografia toda massa, os elencos tudo bullet proof, os roteiros passando ao largo das obviedades. Se só fez Huckabees em toda essa década, fez tão bem feito que pode ser visto ao menos uma vez por ano, sem passar qualquer sensação de reprise.

Quando vi pela primeira vez, ri bastante e achava que era a comédia mais estranha e rápida e inteligente que eu já tinha visto na minha então adolescente vida (George Clooney tão patetão [estranho], aquele discurso que ele faz na convenção, enganando as audiências todas, elevando as emoções baratas das tias, pra depois jogas as véias no “WTF”  e animar repentinamente os ensejos anti-cafonas das pessoas de bem [genial]). Ai vi mais filmes na vida e acho que esse tá lá no alto escalão das screwball comedies, e uma kind of unique, já que tem aquela piada engraçadona do Cedric, the Entertainer (i’m gonna nail your ass!) que eu curto que só.

É o melhor filme italiano da década, baseado nuns 10 que eu vi. E posso dizer na quebrada das certezas que esse é um dos meus favoritos de todos los tiempos. Pelo seguinte: quando um filme sabe que vai durar por mais de cinco horas, tem que que ter estofo, tem que ter malemolência. Esse tem tudo isso, mais Jasmine Trinca. Esse aqui usou como ponto de partida o início da fase Fonzie de dois irmãos, por isso o título. Mas o filme segue os dois até a velhice (quando pode), só mostrando os turning points definitivos desse grande palco que é a vida né Hebe. O genial aqui é como ele cria de maneira sensacionalmente natural os diálogos desses encontros. Exemplo maior é como cada um conhece suas futuras senhoras. Em 10 linhas de diálogo, de uma conversa bem banal, você já prevê os jantares de fim de ano em família, a formatura dos rebentos, os cuddling time. É um filme bonitão, de vera.

A edição que foi feita nesse filme só existe nele. Os cortes são tão abruptos e só acontecem depois das piadas,  que é pra deixar geral engasgada. Foi aqui que comecei a gostar de vera da Jennifer Jason Leigh, lembrar de todos os 10 últimos filmes que ela fez, assistir a última temporada de Weeds  (tremendo sacrifício) só pra ver a cara de recently awake que ela faz o tempo inteiro. E Nicole Kidman tá tão bonita nesse, tão ALCANÇÁVEL.

Ainda é meu Pixar favorito, mesmo com toda a ameaça posterior a esse posto. Sei tudo decorado desse, dublado e legendado :D

There, i said it. E nem é pra preencher cota, nem pra PRESTIGIAR. É porque o Jorge Furtado me parece ser o único cineasta brasileiro que já leu outros livros além dos da library thing do renato russo. E nem adianta falar dos atos escusos dessa pessoa pra tentar denegrir o trabalho massa do rapaz. Pô, sabe montar um roteiro com enredo! Conta aí nas mãos do lula quantos filmes bananões cê viu nessa década com enredo. Melhor, desde sempre?

Melhor capítulo da melhor trilogia do decênio (podia ser a próxima alcunha da casa né? “Do Decênio!”). Tudo bem que é sempre bom ver um filme de roubo sofisticado por dentro e por fora, com um roteiro intrincado movimentado pessoas bem vestidas em cenários bonitões. Ocean’s 12 só garante os dois últimos, mas o jeito “na marra” como as coisas se desenrolam aqui (a briga no trem pela mala, as mutretas óbvias pra ferrar os 11 no ínicio do filme) são até uma novidade no gênero, on top DAQUELA piada da Julia Roberts (imortal demais) e de uma coisa jamais feita em filmes do gênero: mostrar como os gatunos gastaram os diñeiros afanados. E a melhor trilha sonora da década enfeitando tudo.

Quero nem entrar na discussão do W.A. dos nowadays, porque, no mínimo, acho tudo bacana. Mas Scoop feat. Scarlett Johansson numa das atuações mais tetéias de se ver. O ser humano tem que sapecar um cinco estrelas nesse filme, nem que seja só pela presença goofy da Shangri-Lá das poluções noturnas.

BALLS all over it.

Quando eu vi pela primeira vez, só conseguia lembrar do David Lean. Achei uma homenagem bonita à TRADIÇÃO do cinema. Desde o início, o Fincher fica piscando pra gente que é essa a intenção inicial, com um ripoff sincero de uma cenas icônicas aí (lembro agora da trilha de Days Of Heaven, do Lawrence da Arábia na motoca). Nenhum filme foi tão necessariamente quadrado como esse nesses tempos últimos. E ainda me pergunto como as pessoas se impressionaram pouco com o desenrolar da premissa desse filme. Adaptado, vá lá, mas tão bem escrito e filmado gents.

Tão sensacionais quanto todos esses que merecidamente ocuparam o posto de melhores pt.I

Posted in Cinema by Tiago Lopes on janeiro 2, 2010

O melhor dos raros westerns que apareceram nesses últimos dez anos. Sem qualquer vontade de reinventar o triciclo, seguiu fielmente tudo o que deve ser seguido para se criar um WESTERN. O herói, o vilão, o senso familiar, tudo estritamente dentro dos seus limites clássicos. Até o figurino foi criado para ecoar os trapos bem cortados que o John Wayne & co. já usaram tantas vezes.

Esse aqui eu consegui assistir na última sessão do último dia em que foi exibido no cinema local. Já entrei na sala com a vontade de aproveitar tudo em um grau bastante alto porque era o meu primeiro Altman em película, plus, AQUELE fator. Tratei meus olhos como um pimp trata sua bitch: de maneira cruel e exagerada. Passei o filme inteiro tentando prestar atenção em todos os detalhes da tela, enquanto chorava em umas partes bonitas. Ao final, sentia que uma dor de cabeça tentava se fazer notar mais que a sensação de “cristo! que massa” que eu passei a semana toda curtindo. No ano seguinte, outros dois morreram e achei exagerada a atenção que eles receberam, pouco dada a alguém consistentemente melhor como o Altman.

Tão exato e estranho e sensacional que o único porém que incomoda enquanto se assiste é o fato de ser pouco conhecido. Nada legal falar de qualquer ponto da história, até dizer que segue caninamente a cartilha do noir já é entregar alguma coisa, mesmo que a graça de todo clássico desse gênero nunca seja o segredo mesmo (yep, this here -> classic stuff).

Melhor vídeoclip da década. E se aquela sequência da dança nas taças do II estivesse nesse, toda a graça da MTV estaria ripada em duas horas de unstoppable awesomeness.

Quando eu vi pela primeira vez, achei difícil distinguir onde o Sorkin e o Nichols começavam e terminavam ao longo desse filme, já que os trabalhos dos dois seguem parâmetros bem definidos e, anteriormente, com pouquíssimas áreas de intersecção. Vi de novo e notei que a novidade é fazer safadeza e boa política se cruzarem de uma maneira crível e aproveitável. Tem também os 100% de acerto das piadas.

O mais massa desse é a cenografia escolhida para fazer com que a tentativa de se estabelecer o tempo em que se passa a ação leve em consideração ao menos um século inteiro. Tem também a história, que se esforça para passar uma MENSAGEM, mas que o diretor fez por bem em minar o tom de parábola. The Zombies e Evelyn Waugh all over it. E uma sequência de tiroteio no final melhor que todas as de Public Enemies.

Há uns posts atrás, justifico esse aqui.

O Daniel Burman tem um timming pra piada que é bacana demais porque elas sempre surgem de lugar nenhum. Não existe uma preparação ou um acúmulo de sequências que vá descambar em um RISO SINCERO. Quando provoca, é inesperadamente, às vezes em um momento deveras inconveniente. E ele ainda tá lá, no seleto grupo composto pelo Anderson e pelo Baumbach, como uma das pessoas que melhor soube tratar da famiglia como tema na década que se foi. Assim = filmografia 100% aproveitável.

Como foi refilmado, e ainda assim continuei curtindo altos, acho que essa história é que nem aquela que serviu de base para His Girl Friday e The Front Page: tão massa que merecia uma refilmagem decente de quando em quando, sem qualquer prejuízo ao seu tchan original. E esse só está aqui por todos os outros Haneke’s foram bem lembrados.

Esse funciona melhor que os outros porque não desperta aquele questionamento estranho de “rá! nunca o Seth Rogen ia catar a mina de gray’s anatomy, nem se ela tivesse tomado três ypiócas e comido uma galinha a cabidela”. Ou “Steve Carrell e Catherine Keener? Get out of here!”. Além de ser ligeiramente mais engraçado que os anteriores do Apatow, ele conseguiu resumir malabaristicamente bem material para uns três filmes diferentes. As sub-tramas aqui são tão boas quanto a principal, mesmo sendo tantas.