Da Década!

Jungle Julia II

Posted in Cinema by Tiago Lopes on agosto 20, 2010

Fiz as coisas constrangedoras que normalmente fazem ao tentar esconder empolgação quando noticiaram a sensacional decisão da PlayArte de tirar a película de Death Proof de algum limbo e lançar nos cinemas daqui*. Vi pela primeira vez como deveria ver. Dei a sorte de pegar uma sala pequena, com o som defeituoso e enquadramento ligeiramente irregular de imagem, o que potencializou os erros sonoros e de montagem propositais feitos pelo Tarantino. Pela primeira vez, essa idéia adquiriu o aspecto acidental característico dos filmes que lhe serviram de homenagem. As poucas pessoas que viram Death Proof nessas condições foram as únicas que conseguiram experimentar a mesma sensação que motivou o Tarantino a fabricar os erros no seu filme. A motivação genuína que incitou essa decisão finalmente se sobrepôs ao que soava divertidamente superficial.

Tem outra coisa que percebi nessa sessão, mais sobre a construção do próprio filme e como uma justificativa extra para o quanto considero esse o melhor do Tarantino. Em nenhum outro filme seu as referências foram mostradas de maneira tão explícita, no sentido absoluto mesmo. Os cartazes, camisas, acho que até os rótulos das cervejas, carregam títulos de outras dezenas de coisas vistas e reaproveitadas pelo diretor. Mas quase nada chegou a ser usado no próprio Death Proof. Exemplo: no primeiro volume de Kill Bill, muitas sequências são cópias exatas de Lady Snowblood, mas em nenhum momento se vê nos cenários qualquer pôster ou menção a esse filme. Em Death Proof, as citações estão todas lá, literais, espalhadas nas paredes. Só que muito pouco se vê de Vanishing Point no próprio filme. O carro é o mesmo, mas a situação é completamente diferente.

Em Kill Bill, a Noiva tinha exatamente o mesmo desejo de vingança da Yuki (protagonista do Lady Snowblood) e sua história ecoou a da matriz japonesa por todo o filme. Em Death Proof, só o Dodge Challenger e a idéia de perseguição citavam Vanishing Point. A situação das meninas é uma completamente diferente da do Kowalski. Stuntman Mike e sua motivação são uma wikipedia dos filmes do gênero e único empurrão do filme, mas até a chegada desse impulso, o que se vê é um Tarantino bem distante da diluição de material dos outros que ele mesmo aperfeiçoou. Ao redor das cenas de perseguição, Tarantino fez o seu melhor e mais original, aquilo lá que tento dizer nesse post. Se Death Proof mostra suas referências de maneira tão óbvia, literalmente na cara, é mais como um adorno  familiar para um miolo nunca visto antes.

*todos que noticiaram a estréia de Death Proof no Brasil reclamaram da decisão “atrasada, depois de três anos”. Gente que trabalha com crítica de cinema desde sempre e ainda não se acostumou com a idéia de que o Brasil não é mercado válido para um filme que não ultrapassa a barreira dos U$S 100 milhões de bilheteria nos EUA. A decisão da PlayArte deveria ser noticiada com um efusivo abraço na família de todos os envolvidos. Não é conformismo não, é noção de espaço e importância mínima desse quintal, seus babacas.

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