Da Década!

Mattia Pascal

Posted in Literatura by Tiago Lopes on outubro 20, 2010

A esposa de Luigi Pirandello ficou louca quando descobriu que as minas de enxofre em que o dinheiro do seu sogro e do seu dote foi investido sofreram uma inundação. Quando ela abriu a carta que anunciou a catástrofe, o baque foi tão grande que seu equilíbrio mental foi irreversivelmente afetado. A biografia do escritor italiano também lembra que foi durante esse período, início do século XX, de irreparável prejuízo material e pessoal, que ele começou a escrever O Falecido Mattia Pascal.

Essa contextualização potencializa os efeitos do livro em ao menos duas vertentes imediatas. 1) o leitor, ao saber que o escritor também experimentava um profundo período de solidão enquanto criava um livro que basicamente tenta justificar os benefícios de tal estado, se relaciona imediatamente com a tragédia que originou a obra, que agora ultrapassa o campo da ficção para ser uma autobiografia disfarçada de parábola. 2) O que parecia uma interpretação óbvia (todo o livro é uma tentativa espetacular de fazer uma manobra impossível –>mapear as implicações que o seu suicídio terá na vida de outros<–) passa a ser um fato incontestável.

Mattia Pascal morreu duas vezes ao longo do romance, e ele alerta o leitor – a quem fala diretamente – da sua condição logo no prólogo. Antes de morrer pela primeira vez, Mattia levava uma vida bem movimentada. Ele casa, mas não com a mulher do seu primeiro filho, gerado em condições ilegais. Sua prole legítima morre assim que nasce. Sua sogra não só o destrata, como também à sua mãe. As primeiras 100 páginas de Mattia Pascal transcendem os clichês que o termo “italianada” carrega: o barulho do que é narrado fica como um zunido, depois de uma leitura atenta.

Pascal foge de tudo isso e, antes de retomar sua vida, se encontra na situação que todos que já consideraram o suicídio pensam em estar, porque é a única que pode transformar instantaneamente um suicida em um crédulo maior dos benefícios da vida antes de atentar contra a própria: morto para os seus conhecidos e com uma quantidade decente de dinheiro para começar a vida em outro lugar*.

A partir daí, o livro segue, até o final, em um outro ritmo, cheio de picos e depressões que nunca alcançam empolgação ou tristeza genuínos, porque Pascal não se permite viver, enquanto consciente do seu falecimento. No momento em que ele percebe a sua nova condição, dentro de um trem, a sensação é a que deveria ter sido narrada por Brás Cubas, caso fosse menos cínico quanto ao seu estado: a de um vazio profundo. Se essa é a primeira noção da morte que temos quando começamos a pensar no assunto, Pirandello dá um jeito de torná-la ainda mais duradoura, quando mostra como ela é sentida por alguém que está vivo, mas que possui consciência de que a sua finitude já se venceu para todas as pessoas que, conhecendo-o, poderiam atestar a sua existência.

Voltando à vida do Pirandello, é incrível perceber como a escrita de Mattia Pascal funcionou para ele, ao mesmo tempo, como um escapismo, como uma alternativa em construção de uma necessária nova fonte de renda e como auto-análise ininterrupta, se saindo perfeitamente bem nos três objetivos. Apesar de tudo, o livro é bem engraçado e fez bastante sucesso logo quando foi lançado. Quanto à análise, essa acaba sendo um dos elogios mais bonitos já feitos à vida ordinária. Para Pirandello, se você consegue abandonar por completo o meio para o qual progrediu naturalmente desde a sua infância, através de circunstâncias extraordinárias, não vai sobrar muito para manter uma vontade de viver plenamente. O que fica depois é só uma emulação rasa de tudo o que aconteceu antes, e isso vai ter que ser o suficiente, porque você ainda tem que dar atenção a uma consciência inquieta. É pouco e, depois que acontece, irreversível.

Quando Mattia procura retomar a sua vida, vê que todos fizeram exatamente o que ele fez: continuaram vivendo depois do seu falecimento, descontado o devido período de luto. Mas ele não percebe isso e limita-se a reinstalar-se na sua cidade, escrever as suas memórias e visitar seu túmulo regularmente, como um fantasma trainee.

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*Li uma edição da Abril Cultural de 1978, traduzida por Mário Silva, onde, ao fim do livro, há um texto chamado “Advertência Sobre os Escrúpulos da Fantasia”, escrito por Pirandello mais de uma década depois da publicação da primeira edição de Mattia Pascal. Na nota, ele reclama que alguns críticos citaram a inverossimilhança da história como um dos principais problemas da mesma. Pirandello rebate dizendo que “as absurdidades da vida não precisam parecer verossímeis, porque são verdadeiras”. Aí vem o impressionante: ele usa como exemplo uma matéria do Corriere della Sera de 27 de março de 1920, que conta exatamente o mesmo caso do homem que foi dado como morto, teve o seu cadáver reconhecido pela esposa, que se casou posteriormente para, anos depois, ser confrontada pelo seu ex-marido. Essa parte da inverossimilhança não precisava de antecedente live action para se justificar na literatura. Acho que os críticos não se importaram tanto com o mote principal, mas sim com alguns desdobramentos, como a parte em que o Mattia Pascal ganha muito dinheiro. Claro que era necessário para que o personagem pudesse aproveitar sem amarras a situação de morrer sem se suicidar, mas ainda assim…

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