Da Década!

Cedendo ao óbvio

Posted in Cinema, Sem-categoria by Tiago Lopes on março 10, 2011

Judd Apatow disse que esperava que o Woody Allen parasse de fazer filmes como uma desculpa para se distrair do medo de morrer. Foi a opinião mais suscinta e respeitosa sobre o Allen dos últimos dez anos. As críticas negativas feitas aos seus filmes recentes são sempre acompanhadas de uma lamentação pela sua fase áurea. As duas opniões disparadas em lados opostos dos textos, sem qualquer conexão uma com a outra, como se um bodysnatcher tivesse se apossado do Woody desde a década de 80.

Antes de desconsiderar qualquer obra, acredito que um autor mantém até o fim da vida o mesmo senso apurado que o fez esconder rascunhos de idéias ruins do público, levando adiante apenas aquelas que, posteriormente, seriam vistas como uma fileira irretocável de trabalho. Os filmes do Altman formam essa fileira. O próprio afirmava que todos os seus filmes resultam de uma produção muito pessoal e, quando finalizados, são exatamente como ele queria que fossem. Se Dr. T lhe parece um filme ruim, pense que você ainda não o viu sob o ângulo certo e precisa acumular algum tipo de conhecimento específico, colocando-o em um contexto mais amplo, por exemplo, para justificar suas falhas. Se o Altman dizia que nunca fez nada que não fosse planejado, isso parece mais uma afirmação acurada do que um rompante de falsa modéstia, vindo de alguém que fez Nashville.

Só que o Allen é bem mais flexível sobre o seu trabalho, especialmente o mais recente. Sempre diz que não consegue parar de escrever e filmar porque precisa se distrair de trinta e dez tipos de ansiedade. Mas ele criou Purple Rose of Cairo e seria bom se os naysayers entendessem que ainda está lúcido o suficiente para não lançar um trabalho ruim toda vez que passa em frente a uma funerária. Se o problema dos filmes que não agradam é mais preguiça do que experimentalismo ininteligível, é no mínimo educado da nossa parte procurar e se agarrar ao que é válido.

You Will Meet A Tall Dark Stranger é o mais monótono da safra recente. Entenda como monótono o fato do filme seguir, na maior parte do tempo, em apenas um tom, sem mudanças bruscas. Também é o único da última década que mostrou ao menos duas coisas originais se comparadas com toda a sua obra, com uma personagem que está entre as suas melhores criações. É na Helena que o Woody deposita a perversidade que pratica regularmente com suas personagens mulheres. Em um resumo grosseiro, ele costuma fazer delas pessoas muito esperançosas e otimistas, negando ao final tudo o que elas esperam. A Helena só quer encontrar um novo companheiro depois que o seu marido a abandonou por uma mulher bem mais jovem. E se apega a um recém viúvo. Eles partilham um interesse por assuntos sobrenaturais, sendo esse o maior motivo dos dois se gostarem, mas também principal atestado da ingenuidade de ambos.

É por essa brecha que o Allen cria uma das suas sequências mais dolorosas. Pouco depois da Helena se convencer de que o Jonathan é o homem que vai lhe trazer paz de espírito – como previsto pela vidente – e estar satisfeita com a reciprocidade, a gente se convence de que o Allen está velhinho e, finalmente, cedeu à felicidade. Uma que foi sugerida e incitada por uma vidente, mas nem por isso menos empolgante. Já estava convencido de que a Helena teria uma resolução feliz no filme, quando Jonathan a convida para uma sessão espírita, em que ele tenta invocar a sua falecida esposa. Helena se sente traída e tem um ataque de histerismo muito breve, engraçado e ao mesmo tempo profundamente deprimente: o Allen nega mais uma vez uma resolução otimista, mesmo depois de ter aparentemente cimentado essa decisão. 

No final, ele decidiu fazer com que os dois se unissem para explicitar o mote maior do filme, que vinha sendo sublinhado pela teimosia de todos os outros personagens: é preferível se contentar com o que temos, porque a vida é curta e mudanças drásticas podem vir acompanhadas de frustrações idem. Mesmo sabendo que o Jonathan não tinha superado a morte da sua mulher, Helena decide ficar com ele e ainda consegue se vingar do seu ex-marido, que tenta a reconciliação depois de se tocar do desastre que será o seu casamento com a moça mais jovem.

É uma resolução irônica: no fundo, Helena vai ter só a ilusão de felicidade, porque já está consciente de que ela também é só uma substituta de um inalcançável padrão ideal. Mas qualquer coisa é melhor do que a solidão, especialmente quando você começa a confrontar o medo da proximidade da morte.

O que leva à outra adição original ao seu escopo: a maneira como tratou a morte. É possível que o próprio Allen me prove errado em seus próximos filmes, mas essa talvez seja sua grande obra sobre o tall dark stranger. Em todos os seus filmes, ele enfrenta a sua maior ansiedade com alguma piada, quase sempre ancorada em seu ateísmo duvidoso. Se tomarmos os seus filmes como obras de cunho extremamente pessoal, o motivo da descrença do Allen em Deus é bem egoísta, porque quase sempre citada quando ele toma consciência da sua finitude. Só que em You Will Meet A Tall Dark Stranger, ele se permite, pela primeira vez, acreditar que ter fé em algo alivia essa ansiedade. Para quem conhece os filmes do Allen, perceber essa mudança brusca de opinião só pode ser algo sinceramente único e admirável.

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