Da Década!

Novo Homem-Aranha já vem com cheiro de mofo

Posted in Cinema by Tiago Lopes on junho 26, 2012

Sabe aquele pornô que você já viu uma dezena de vezes e era válido no início, mas, depois de conhecer tão bem, não se excita mais com nada? É exatamente essa a sensação que O Espetacular Homem-Aranha provoca. As origens do personagem são tão conhecidas e já foram tão reproduzidas, que começar uma nova franquia com o mesmo lenga-lenga que inicia não só a história do Peter Parker – como a origem de quase todos os super-heróis que ganharam versões para o cinema recentemente – é disparar um aborrecimento que ultrapassa o tédio e chega a irritar seriamente.

Não ajuda que as mudanças feitas nas histórias da origem do novo Homem-Aranha sejam distantes dos quadrinhos e da trilogia anterior. Esse nem é um defeito grave, o cinema já tirou essas liberdades outras vezes, sem prejudicar em nada a essência do personagem. Mas foi justamente na essência do Peter Parker que mexeram. A morte do seu tio é o evento mais traumatizante da sua vida, já que foi indiretamente provocada por ele, e é também principal motivo da existência do Homem-Aranha.

No novo filme, não só ele não impede o bandido que, logo mais, vai assassinar seu tio, como também provoca a saída do seu tio de casa (depois de um rompante besta de menino mimado) colocando-o no meio do caminho do bandido. O Espetacular Homem-Aranha adiciona uma camada extra de culpa para, três minutos depois, fazer com que o Peter esqueça de tudo isso. Não existe tia May de luto, não existe um confronto que o faça sentir qualquer remorso. A procura pelo bandido que matou o seu tio ocupa pouquíssimo tempo do filme e é atropelada, sem finalização, pela trama principal, quando o Lagarto aparece. Sam Raimi, diretor da trilogia anterior, mostrou esse aspecto da origem à perfeição. Marc Webb, que dirige o novo filme, reduziu a tragédia de Peter Parker a um gif de Arrested Development.

Andrew Garfield é um excelente ator, tremendo fã de Homem-Aranha, mas os roteiristas fizeram do seu Peter Parker um guri irritante, desobediente e “respondão” quando confrontado. Um Peter Parker mais próximo dessa geração mimada, mas muito distante de qualquer encarnação válida do herói.

Se a primeira parte incomoda bastante, o restante do filme até diverte. Depois que Peter Parker se aproxima do cientista Curt Connors, que já foi colega do seu pai e pode ter alguma resposta sobre o desaparecimento dele, Parker resolve a última equação para que Connors finalmente consiga uma fórmula válida para um bem sucedido cruzamento de espécies. O cientista não tem um braço e usa a fórmula (com o DNA de um lagarto) nele mesmo para tentar regenerar seu membro. Dá errado e ele vira o Lagarto, um mutante que ficou convincente pra caramba como efeito especial, mas com uma voz meio errada, mais distração do que complemento da sua vilania.

O único alívio de Parker no meio de tudo isso é Gwen Stacey, feita por uma Emma Stone em constante estado de graça. Ela é, inclusive, o único motivo pelo qual o filme nunca se torna uma perda de tempo completa. Linda pra caramba, sempre aparece com as pernas de fora e nunca faz burrices para atrapalhar o Homem-Aranha. É o raro caso de interesse amoroso que não só não dá trabalho para o herói como o salva duas vezes de problemas (a única vez em que ela corre sério perigo de vida é uma sequência que reproduz espertamente uma outra de Jurassic Park).

Os pontos muito positivos do filme existem por conta das sequências de ação, que nunca envolvem muitos personagens. Por serem fáceis de acompanhar, são bem intensas e mostram mais drama do que coisas sendo destruídas. As cenas do Aranha se locomovendo pelos prédios de Nova York ainda provocam sensações de vertigem arrepiantes, potencializadas ainda mais pelo 3D. Ah, O Espetacular Homem-Aranha também tem a melhor de todas as pontas de Stan Lee.

Mas, quando o filme acaba, é preciso fazer uma conta realista e de resultado decepcionante: exatamente dez anos e três filmes depois, a franquia Homem-Aranha volta a começar do zero nos cinemas. Se continuar assim, quem viver por mais 50 anos, vai ver ao menos mais umas cinco trilogias do herói. E, pelo aborrecimento que o início da nova franquia provoca, essa vai ser uma das experiências mais chatas e repetitivas da história do entretenimento.

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Madagascar 3: quando uma parte vale o todo

Posted in Cinema by Tiago Lopes on junho 18, 2012

Da-da-dadada-da-da-circus, da-da-dadada-da-da-afro-circus, afro-circus, afro, polka dot, polka dot, polka dot afro!

Enquanto espero que ainda mais gente assista Prometheus para fazer um post gigante comentando detalhes do plot do filme por aqui, acho necessário falar de Madagascar 3: Os Procurados. Os dois anteriores são animações bem irregulares, que desperdiçam constantemente as boas ideias que até ameaçam se concretizar a partir das viradas de enredo. O que torna a experiência de assisti-los não só ruim, como frustrante. Mas o terceiro chama a atenção por causa de um dos roteiristas: Noah Baumbach.

Ele é um dos melhores diretores do cinema americano de anos recentes. Seus filmes, dramas familiares que investem em situações bem constrangedores para criar um tipo bizarro e excelente de comédia, são desconhecidos do grande público. Mesmo com atores do porte de Nicole Kidman, Jack Black, Jeff Daniels e Ben Stiller, A Lula e a Baleia, Margot e o Casamento e Greenberg, nunca estrearam nos cinemas do Brasil (seu primeiro filme, Kicking and Screaming, não possui sequer um título nacional).

Provavelmente por causa da parceria de Baumbach com o Wes Anderson no roteiro da animação O Fantástico Sr. Raposo, o estúdio que produz Madagascar o convidou para co-roteirizar a terceira parte da série com Eric Darnell, que já havia escrito os dois anteriores também. O crédito duplo formado por pessoas completamente diferentes acabou resultado num filme de duas partes distintas: a primeira metade, sendo uma sensacional derivação das piadas sem sentido e ininterruptas de Looney Tunes, e a segunda, a mesma bobagem genérica vista nos filmes anteriores da série. É o raro caso de que uma parte boa realmente compensa pelo todo mediano.

O primeiro minuto do filme já mostra uma piada tão sem noção que é inacreditável que eles realmente tenham seguido uma nova direção: o leão Alex, a girafa Melman, a zebra Marty e a hipopótama Glória veem os pinguins sairem da África pilotando um avião que os “sharply dressed birds” construíram e prometendo voltar em breve para finalmente levá-los de volta ao zoológico de Nova York. Assim que decolam, um dos pinguins diz que não vai voltar nunca mais e aciona o “modo dobra temporal” do avião, que zarpa na velocidade da luz. Tudo isso e ainda não apareceram nem os créditos iniciais do filme.

Melhor romance do ano?

Os quatro animais, com medo de morrer de velhice no tédio da selva, vão atrás dos pinguins, que estão em um cassino em Monte Carlo. Pense numa reunião entre Guns N’ Roses e Stones num andar de hotel, é mais ou menos como a gangue dos pinguins se comporta, tudo num 3D calibrado para fazer até as quinas das mesas saltarem da tela. Os animais planejam invadir o cassino ao estilo de Onze Homens e um Segredo, mas acabam entrando com a discrição de um hipopótamo numa loja de porcelana. A partir daí, começa uma das sequências mais divertidas de animações off-Pixar.

A capitã Chantel Dubois (uma Francis McDormand em nível Fargo de piadas [grande parte da graça do filme está nas vozes da dublagem original]) é acionada para tirar a manada do meio das ruas. Com uma parede lotada de animais empalhados, ela só se interessa na caçada quando descobre que tem um leão no meio, o único animal que ainda não possui como souvenir. O nonsense dessa perseguição vai crescendo que nem as piadas de Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu: quanto mais inacreditável, melhor. A capitã atravessa paredes, os pinguins têm um tanque de peixes embaixo do carro que usam como taxinhas, os macacos têm uma arma de bananas e os animais maiores vão se revezando no volante da van que usam para fugir. Além de tudo isso, cada um dos personagens se comporta o tempo inteiro como se estivesse sob o efeito de alguma droga.

O filme ainda apresenta três sequências longas e sensacionais antes de chegar na metade. O lêmur Rei Julien XIII (Sacha Baron Cohen) se apaixona por uma ursa gigante, muda e que anda numa miniatura de triciclo o tempo inteiro. Do nada, o filme corta para uma sequência em que os dois visitam o Vaticano ao som de Con Te Partirò, beijam a mão do papa, compram uma Ducati e fazem tretas com a moto pela cidade. Tem também a sequência em que todos se apresentam no circo pela primeira vez e tudo dá estupidamente errado. A última envolve Non, Je Ne Regrette Rien como música para ressuscitar policiais.

Depois, se isolam nas montanhas para treinar, e é aí que as lições óbvias de moral começam a aparecer e a comédia loucona dá lugar a um trecho dolorosamente irritante envolvendo uma música de Kate Perry sendo executada na íntegra, personagens superando medos e montagens melosas. A mesma bobagem de todo filme de animação genérico.

Mas nem esses 50 minutos de lugar comum (o filme segue ruim até o final mesmo, nem uma adaptação literal do termo “Flying Circus” salva o clímax da ruindade) fazem você esquecer da maravilha que foi a primeira parte. Dá vontade de rever como seu episódio preferido de Looney Tunes. E negar o apelo de um pinguim usando uma peruca colorida é negar qualquer ideia de senso de humor que você acha que tem:

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Bellucci escaldante

Posted in Cinema by Tiago Lopes on junho 4, 2012

Um Verão Escaldante é um filme de começo otimista e final dividido em duas sensações distintas: uma que expande o otimismo do início e outra que vai numa direção deprimente.

Mesmo que a morte do personagem principal seja mostrada no primeiro minuto do filme, quando Frédéric (Louis Garrel) joga o seu carro em alta velocidade contra um poste e o seu melhor amigo, Paul (Jérôme Robart), narra que a colisão resultou na sua morte, o otimismo e a felicidade das sequências seguintes fazem o espectador esquecer do óbvio clímax.

Os filmes do francês Philippe Garrel são cheios de personagens que amam demais ao mesmo tempo em que querem mudar dois tantos da política vigente. Em O Verão Escaldante, não falta nada disso, mas o segundo tema está restrito a uns três diálogos breves e constrangedores, nada que machuque a grandiloquência do primeiro e sempre impactante tema.

A causa maior da felicidade de Frédéric e também motivo do seu suicídio é a sua esposa, Angèle, interpretada por uma Monica Bellucci tão contida e em inédito grau de gostosura, que é como ver uma nova e, inacreditavelmente, melhor versão da Bellucci que a gente já conhece tão bem.

Paul conhece Frédéric por causa de um amigo em comum e logo os dois se tornam melhores amigos. Frédéric convida Paul para passar uns dias em sua casa em Roma, ele aceita e leva sua namorada, Élisabeth (Céline Sallette, uma atriz de beleza oposta a da Bellucci, mas igualmente magnetizante). Sendo Paul o narrador da história de Frédéric, é essa convivência que vai mostrar que o casamento do seu amigo é cheio de falhas graves: Frédéric acha que ficar com prostitutas não é traição e Angéle não controla a atração que sente por outros homens.

Essa relação desastrada coloca à prova a de Paul com Élisabeth. Mas a deles segue em direção oposta à de Frédéric e Angéle, até resultar no final de sensações distintas. O filme tem um ritmo lento com breves acessos de fúria, brigas registradas de maneiras inesperadas e uma sequência musical de arrepiar a alma e que dispara todos os conflitos do filme.

Numa festa, Angéle começa a dançar com um homem que não é o seu marido bem no meio da sala. O diretor registra o momento com um plano sequência em que a Bellucci está sempre no meio: se não fosse cientificamente impossível, todo homem deveria acompanhar a sequência sem piscar uma vez, daí o diretor decidir compensar nossa falha genética mostrando tudo sem nenhum corte. É uma das cenas mais bonitas do ano e está disponível logo abaixo.

Assistir separamente não fere em nada o contexto do filme (que você deve assistir, mesmo que, por enquanto, esteja sendo exibido apenas em dois cinemas de São Paulo) e é a melhor coisa que você vai ver no seu dia.