Da Década!

Facadas em alta definição

Posted in Home video by Tiago Lopes on julho 31, 2012

Pânico é a melhor série do gênero porque os criadores do capítulo original também foram responsáveis por todos os outros*. Wes Craven e Kevin Williamson, desde o início, já sabiam que queriam continuações porque as possibilidades de sátira aumentariam e melhorariam conforme o produto especial deles fosse se aproximando cada vez mais de outras séries comuns, se diferenciando, por vezes minimamente, apenas pela auto-consciência declarada e pelo controle total dos criadores sobre os personagens criados.

No gênero suspense/terror, ao menos a porção que não tem grandes pretensões artísticas (PsychoPeeping Tom) mas funciona tanto quanto seus primos ricos, ou até mais (Pânico 3 é bem melhor que O Homem que Odiava as Mulheres), assassino bom era assassino deformado. Seu trauma maior e principal motivo de psicopatia tinha que estar estampado em sua cara o tempo inteiro. Se existissem dois mascarados em Halloween e dois flamenguistas na Rua Elm, estariam diluindo o medo em dois palhaços.

O que prova mais uma esperteza de Scream: todos os filmes da série* quebram essa regra de um só assassino. A fantasia de Ghostface pode ser usada por qualquer um, aumentando a diversão no quesito QUEM? e o suspense no COMO? Os dois perdem um pouco da importância nos capítulos seguintes, porque a fórmula é milimetricamente imitada e precisa ser compensanda em outras áreas, a saber: comédia, senso do ridículo, gore. Daí as sequências serem, conscientemente, inferiores ao original e ainda bons/ótimos filmes, já que continuaram sob a responsabilidade dos criadores originais, que sabiam pra que lado expandir a auto-paródia, sem ferir a memória do primeiro e sem erros gritantes de continuidade (o comportamento do trio de personagens fixo é espantosamente constante, infelizmente, com os mesmo tiques irritantes reproduzidos ao longo de toda a série [mais abaixo]).

Isso é muito importante em uma série de filmes, especialmente do gênero citado, mas a lição só foi aprendida e nunca reproduzida por Pânico. Caso alguém lembre de outra série de filmes do gênero, onde o controle criativo esteve sempre com as mesmas pessoas, favor citar. As continuações sempre são entregues a novos roteiristas e diretores, que mudam tudo o que funcionou no original ou só copiam o que foi testado e aprovado sem adicionar nada de nada. Originalmente, HalloweenSexta-feira 13A Hora do Pesadelo, foram pensados como filmes que não iriam além dos seus créditos finais. Os criadores dos originais não se envolveram nas continuações na grande maioria dos casos (raramente foram creditados como produtores executivos e em alguns, até preferiram se desligar do crédito de criação dos personagens).

A seguir, o melhor dos quatro filmes da série Pânico, que finalmente, são lançados no Brasil em caixas especiais pela Imagem Filmes (o box com os quatro filmes em DVD custa R$ 59,90; em blu-ray, R$ 119,90):

1) Execução perfeita de cabo a rabo. A sequência da morte da Drew Barrymore ainda é bem violenta. A cena em que ela vê os pais chegando em casa enquanto o Ghostface insere no contexto sua 4º ou 5º facada é daqueles momentos em que você sente tanto pela vítima, que quer criar hashtags imediatas de indignação. Assim como, alguns corpos depois, aquela em que a Sidney é encurralada dentro de um carro, antes de enfrentar o muito incrível clímax final. Mais do que todas as piadas (os moços se esfaqueando; um deles, já morrendo de tanto sangrar, falando pelo telefone com os pais), a minha parte favorita do 3º ato é quando a Sidney joga a televisão em cima da cabeça de um dos assassinos, no momento em que o aparelho transmitia o início do imortal payback da Jamie Lee Curtis em Halloween, quando ela sai do guarda-roupa e enfrenta de cara Michael Myers. Sendo a metalinguagem o maior truque da série, atingiram o ápice do sortilégio nessa sequência, relegando às continuações um topo impossível de ser alcançado.

2) Um dos personagens afirma que Aliens é melhor que Alien logo nos primeiros 15 minutos de filme. De cara, o filme que eu menos gosto. Até o final revelar que o assassino é uma dona de casa de coração partido, mais o Timothy Olliphant, que nem lembro agora qual a justificativa dele, vai ver já lamentando o seu futuro, contratado para papeis com leves variações desse personagem. Fora o esfaqueamento do Dewey, assistido por uma impotente Gale, e a morte do Randy na área aberta do campus (que idéia sensacional: sem cantos de parede, portas, objetos à mão, em plena luz do dia, em local movimentado, e ainda assim, o Ghostface conseguiu coerentemente fazer o que queria), nenhuma das sequências de morte é impressionante ou mesmo corretamente construída. A morte da Sarah Michelle-Guellar é frustrante e merecia mais esforço do Craven. Jogar a Buffy de uma varanda? Mas as sobrancelhas do Dewey garantem umas risadas involuntárias e Heather Graham de Drew Barrymore tá lá no meu cânone ocidental.

3)* Os astericos acima se referem ao único filme da série que não foi escrito pelo roteirista original. Também o único que só teve um assassino. Levar os personagens para Los Angeles, uma das ideias mais batidas de continuações, funcionou imenso aqui. Já que a metalinguagem esperta caiu em desuso para dar lugar à meta debochada, praticamente todos os diálogos são cópias de algo que acontecia à época: referências a Friends, à produção complicada do filme e, a melhor, o diretor de Stab 3 só ter concordado em dirigir um “filme de terror barato” porque o estúdio lhe daria a direção de uma “clássica história de amor”. Wes Craven dirigiu o tosco Música do Coração logo depois de fazer Pânico 3, para os que felizmente esqueceram.

Parker Posey é a melhor coadjuvante da série, resumindo bem toda a breguice da ideia do terceiro. Princesa Léia, Jay e Silent Bob, e mais um bocado de personagens mitos da cultura pop passeiam pelo filme. E que diversão colocar alguém gritando de cinco em cinco minutos, contra absolutamente qualquer coisa. De mais a mais, irmão perdido da Sidney foi o twist mais criativo da série (no campo TÁ DE BRINCADEIRA?? ao menos). Fica difícil compreender os que não gostam desse, especialmente com uma sequência live action do Looney Tunes, seguida de uma explosão.

4) Tão, tão exagerado, que dá um rasteira de patins de gelo no 2 e no 3, sendo um resumão de tudo o que aconteceu aqui, repetindo sequências, mantendo regras e até cortes de cabelo noventistas (franja da Sidney é tão deslocada de todos os outros cortes de cabelo). Se o 1 é o supra sumo do suspense, o 4 é o magnum opus da ideia maior (auto-paródia) da série. A abertura não é só TÃO boa por conta da metalinguagem ao cubo, mas porque os diálogos estão afiados como uma faca de diamante. O elenco de apoio é todo bacanudo, menos a assassina.

O problema maior da dupla de ghostfaces desse é o seguinte: os atores, pela primeira vez na série, têm mais ou menos a idade dos seus personagens. Okey. Mas fica mais difícil acreditar que um dos dois tivesse força o suficiente para jogar alguém de um prédio, esfaquear uma pessoa até que as tripas brotassem, etc. O final extra no hospital (os filmes anteriores acabaram ou na festa da faculdade ou com todo o elenco sobrevivente reunido em uma grande casa, sequências também mantidas no 4) é bem massa e até a assassina fica menos irritante, já que não repete seu diálogo de drama queen, é só uma máquina de matar canalizando a raiva de ter sido eliminada do America’s Next Top Model.

O mais lamentável no 4 é a morte da Hayden Panettiere. Ela seria a melhor substituta da Sidney na nova trilogia (bonita, durona, e, ao contrário da protagonista, entende o gênero), que, com o fim desse, fica difícil imaginar como continuar a graça com o mesmo elenco original, fazendo o que fazem há 15 anos. A Marley Shelton foi a única sobrevivente do novo elenco. Gosto bastante da atriz, mas a personagem é fraca ao longo de todo o filme. Mesmo salvando a vida da Sidney, ela não ganhou nenhuma linha de diálogo acima do nível novelão.

Se o 4 foi inesperadamente massa, a aridez de expectativa por uma próxima sequência pode até melhorar sua qualidade quando for lançado. Ainda bem que é nessa premissa que os criadores se sustentam desde o início, nunca deixando pontas soltas para impossibilitar mudanças em uma fórmula tão repetitiva que parece um travesseiro que, de tão moldado pela sua cabeça, é o mais confortável que existe.

Gotham como um resumo do mundo atual

Posted in Cinema by Tiago Lopes on julho 20, 2012

O que é mais admirável em Batman: o Cavaleiro das Trevas Ressurge (CTR) é a noção que Christopher Nolan tem de expectativa. O diretor e roterirista da melhor trilogia de filmes de super-heróis viu que teria que entregar um terceiro capítulo ainda mais acachapante que O Cavaleiro das Trevas (CT), que, se por si só, já era um filme sensacional, ainda ganhou peso extra de importância com a morte de Heath Ledger meses antes da estreia.

Seu Coringa ainda é o maior, mais bizarro e mais assustador vilão da franquia porque foi o único que perpetrou maldades sem uma nesga de objetivo. A Liga das Sombras quer exterminar o mal de Gotham por meio dos mesmos atos que esse mal que ela combate faz uso. Os mafiosos e políticos que posam de vilão estão sempre interessados em dinheiro. O Coringa queima uma pilha de verdinhas e implora para morrer o tempo inteiro. Ele é a melhor definição de EU QUERO VER O OCO.

Pela maneira como a parte final da trilogia se desenrola, é notável que Nolan já tinha em mente como seria o começo, o meio e o fim da sua trilogia (dividiu apenas crédito de roteirista com David Goyer no primeiro filme e com Jonathan Nolan, seu irmão, nos outros dois, o que lhe dá maior direito de posse criativa sobre a trilogia do que qualquer outro envolvido na produção).

O capítulo do meio é o mais trágico e tem o vilão mais impactante de todos porque não tem ligação com o arco principal da trilogia: Ra’s Al Ghul X Batman. Para colocar CT em pé de igualdade com os dois filmes que se complementam, Nolan teria que se esforçar ainda mais. Ele se esforçou e deu no que deu. E como dar continuidade sem mostrar retrocesso na qualidade?

Primeiro, Nolan fez de CTR um filme atual, de um jeito que os anteriores nunca cogitaram ser. Tá tudo aqui: crise financeira, a briga entre os 99% mais pobres e os 1% mais ricos do mundo, energia sustentável, poder nuclear em mãos erradas, a origem dos confrontos recentes no Oriente Médio. Todos os quadradinhos das principais manchetes dos últimos três anos estão marcados em CTR. Sem nunca parecer didático ou documental, sem apelar para simbolismos óbvios, tudo usado como consequência do confronto entre Batman e o legado de Ra’s Al Ghul.

Numa decisão com um potencial de falha absurdo, Nolan faz com que esses acontecimentos que, na vida real, se originaram em diferentes partes do mundo, se abatam todos sobre uma só cidade: Gotham. Por isso as quase três horas de duração, que passam como uma brisa: é uma tragédia em escala maior e bem mais realista que a dos filmes anteriores. E por isso tantos personagens, já que cada um dispara um ou mais itens da lista de manchetes abordadas em CTR.

Bane (Tom Hardy) quer continuar o processo de limpeza em Gotham iniciado por Ra’s Al Ghul no primeiro filme. Selina Kyle (Anne Hathaway) é a larápia que espera que Bane seja bem sucedido em seus planos para ver a queda dos mais ricos e a ascensão dos mais pobres (sua antipatia por Bruce Wayne é óbvia). Miranda Tate é uma empresária que… Bem, se esconderam a Marion Cotillard dos trailers, não sou eu quem vai dizer o que ela faz no filme. Enquanto eles dão início a seus planos, Bruce Wayne está recluso em sua mansão e Batman, enterrado, ambos ainda sofrendo o peso da culpa que assumiram pela morte de Harvey Dent em CT.

Com tudo isso, o filme nunca parece apressado. A sequência de abertura mostra Bane sequestrando um cientista em pleno ar, com um avião se sobrepondo a outro. Provoca vertigens sérias, de dar aquele suor gelado. No Imax, essa impressão é quase sufocante.
Mas em nenhum momento Nolan faz um corte brusco ou abusa das imagens de câmeras tremidas. E esse é o tom de todas as sequencias de ação do filme: a eficiência gritante de todas elas só existe porque Nolan quer que você perceba a beleza dos efeitos empregados e entenda até o que apenas uma pirueta no ar do novo brinquedo do Batman contribui para todo o enredo. Nolan está mais William Friedkin em CTR do que nunca.

Outra mudança em relação aos anteriores e a filmes recentes de ação em geral: CTR é um filme que confia muito mais no embate físico do que em qualquer outro tipo. O fato do Batman nunca usar armas de fogo nunca foi sublinhado nos anteriores. Nesse, essa decisão é questionada constantemente.

Batman só enfrenta Bane na base da porrada (também para aumentar o drama dessas sequencias, já que os dois tiveram o mesmo treinamento, só que Bane é um cara bem maior). Uma sequencia em especial deixa clara a valorização de Nolan de um tipo de conflito mais natural: dois grupos lutando em lados opostos de uma guerra, bem no meio da cidade, vão colidir de um jeito semelhante às guerras antigas: armados só com os punhos (bem, ao menos um lado só tem os punhos como arma, mas é o lado dos bonzinhos, o que só valida a tese).

É esperar que faça o sucesso merecido e finalmente empurre a porcaria do Avatar do posto de maior bilheteria de todos os tempos.

Observações extras:

– A Selina Kyle da Anne Hathaway é melhor que a da Michelle Pfeiffer. Afirmo depois de muita análise, mas a Mulher-Gato de CTR luta, anda de moto, explode coisas, é engraçadona (ela protagoniza a melhor piada de CTR) e só anda de collant de couro (contabilizando também a Scarlett Johansson em Os Vingadores, essa foi a temporada de mulheres gostosas usando couro e combatendo crime). A Mulher-Gato da Pfeiffer, além de andar de collant de couro, faz miau, e só.

– Michael Caine protagoniza duas sequências que já lhe garantem ao menos uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante.

– O filme tem um plot twist que nem deve ser levado tão a sério. 1) é muito previsível (é só lembrar da principal regra dos filmes noir); 2) não altera muito o curso da história. Não se sinta incomodado se não parecer tão chocante quanto a trilha disparada na hora quer que você ache que seja.

– O personagem de Cillian Murphy é o melhor da trilogia (ao menos em termos de galhofa [o que, para mim, é o mais importante]).

– Se puder rever os dois filmes anteriores horas antes de ver CTR, faça isso. Especialmente Batman Begins. Como o último capítulo continua a história do primeiro, Nolan chega a repetir algumas linhas de diálogo para enfatizar a ligação.

– Evitei dar essa opinião até agora, mas ó: como o clímax de CT se estende além da conta, e o de CTR, mesmo sendo maior, é conciso e mais impressionante, faço do terceiro capítulo da trilogia o meu favorito.

“É sempre melhor sair da festa antes do fim”

Posted in Literatura by Tiago Lopes on julho 5, 2012

O melhor mesmo em toda a biografia de Bill Watterson está nesse rápido resumo: durante cinco anos, seu trabalho foi inteiramente recusado por diversos sindicatos; no auge da fama, decidiu escrever sua última tira e, até hoje, essa decisão não foi revogada.

Bill Watterson, que hoje completa 54 anos, tratava suas crias como forma de arte e tinha certeza absoluta que o valor desse tipo de coisa não pode ser agregado a um pijama ou a um parachoque de carro. Mesmo os alvos de sua admiração tendo feito muito dinheiro com o comércio de licenciamento de produtos a partir de suas crias (Schulz ePeanuts, por exemplo), ele não se dobrou quando as pressões vinham de todos os lados.

Preferiu, no último dia do ano de 1995, parar de publicar depois de quase 10 anos unanimemente bem sucedidos, à sua maneira. Mas, antes disso, discutiu com quase todos os sindicatos de cartunistas que se dobravam às exigências flutuantes dos jornais, responsáveis pela publicação dos trabalhos de seus associados.

Restrições do espaço onde as tiras eram publicadas e irritantes pedidos de ursinhos de seus personagens e camisas e cuecas sendo estampados pelos mesmos foram as causas maiores de esbravejamentos a favor da integridade do seu trabalho. Ele manteve uma atitude tão coerente sobre isso, que deixou de autografar os seus livros vendidos em uma livraria da família, depois que descobriu que os parentes estavam vendendo esses exemplares por preços mais altos na internet.

À medida que seu público crescia, mais vozes se juntavam ao coro de quem não se contentava só com a tira, querendo algo mais físico para ostentar um falso sentimento de apreciação desmedida. Esses malditos só aumentaram a ira e o sentimento de reclusão em Bill Watterson, que não só pôs um fim em seu trabalho, como vive em quase completa reclusão midiática desde então.

De acordo com a Wikipedia (se precisarem de uma fonte mais confiável, boa sorte em procurar o cartunista), Watterson fez apenas cinco aparições na mídia até hoje, desde que parou de publicar novas tiras de Calvin and Hobbes: em 1999, 2005, 2007, 2008 e 2010, para falar ou de Charles Schulz (criador de Peanuts, de quem Watterson é fã ardoroso), ou do fim do seu trabalho mais famoso ou do cartunista Richard Thompson, autor da tira Cul de Sac.

Na última entrevista que deu, explicou que a decisão de parar de criar novas tiras de Calvin and Hobbes foi puramente criativa. “É sempre melhor sair da festa antes do fim”, disse, prevendo que, se continuasse, iria se tornar um rascunho de si mesmo e que os próprios fãs que idolatram sua obra hoje estariam desejando a sua morte.

Ocasionalmente, ele deve topar com um adesivo que mostra o um Calvin com cara de mau em atos despidos de pudor e suspira de alívio, imaginando o estrago desproporcionalmente maior, caso tivesse dito “sim” para o consumo de coisas que ficam bem melhor assim, só em desenhos: