Da Década!

O melhor (e mais desconhecido) de Clint Eastwood

Posted in Cinema, Home video by Tiago Lopes on setembro 26, 2012

Graças a Sobre Meninos e Lobos, Clint Eastwood passou a ser conhecido por toda uma nova geração, por causa da onipresença do filme em premiações, algo que não acontecia com uma obra dele desde 1992, com Os Imperdoáveis. A partir de 2003, todos os seus filmes são indicados a ao menos uma das categorias principais do Oscar e todas as discussões sobre “os melhores do Eastwood” ignoram o que ele fez antes do filme que tem Sean Penn babando dramaticamente. Em verdade vos digo que o Eastwood raiz, o Eastwood mais sincero que reunião de família no Natal, está nos seus filmes que não entram no radar das premiações, especialmente Um Mundo Perfeito.

Lançado em 1993, quando ele ainda aproveitava seu mais recente respaldo com a crítica conseguido com Os Imperdoáveis, Um Mundo Perfeito é um daqueles filmes que podem servir de termômetro para medir a índole de qualquer pessoa. Se viu e não considera um dos melhores que o diretor já fez, boa pessoa não é.

A Warner Home Video lançou recentemente uma edição em Blu-Ray sem extras, mas essencial de Um Mundo Perfeito (R$ 39,90). Há anos em falta nas prateleiras, o filme é um item tão obrigatório em sua estante quanto a sua própria estante. Nele, Eastwood criou o manual mais básico e eficiente de como crescer (e se manter) como um homem de verdade. É um pouco ingênuo considerar qualquer obra de ficção como um guia de como agir no mundo real, mas esse filme foi criado para ser exatamente isso.

Kevin Costner, em sua melhor contribuição para o cinema, interpreta Butch, um prisioneiro em fuga que, para manter poder de barganha durante a escapada, sequestra uma criança. Phillip, com apenas oito anos de idade, já possui todas as inseguranças que costumam desenvolver só na adolescência, muito por causa da educação conservadora que recebeu de sua mãe. Assim como Butch, Phillip cresceu sem ter o pai por perto e os dois, tão logo percebem esse ponto em comum, desenvolvem uma afeição mútua: um vê a oportunidade de ter um pai, o outro, de educar uma criança do jeito que não foi educado.  A tragédia se anuncia tão logo os dois começam a se entender: a polícia está no encalço de Butch e, enquanto continua fugindo com o garoto, ele só aumenta sua lista de crimes de maneiras bem violentas.

Um Mundo Perfeito tem muito da seriedade dos filmes recentes do diretor, mas, ao contrário desses, mostra também um humor tão inesperado e um lado emocional tão sincero que supera o cinismo de A Consquita da Honra/Cartas de Iwo Jima, o choque de A Troca e a tragédia de Sobre Meninos e Lobos (os seus melhores da safra recente). Um Mundo Perfeito é igualmente cínico, chocante e trágico, só que Eastwood não explora nenhum desses elementos da história, trata tudo como consequência de uma amizade sincera, de admiração mútua, que nasceu na pior das circunstâncias. Para quem só conhece o Eastwood da última década, é difícil acreditar que ele já fez filmes que tinham, antes de qualquer coisa, a intenção de entreter e ainda servir como parábolas indispensáveis.

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Stendhal galhofa, Stendhal moleque

Posted in Literatura by Tiago Lopes on setembro 13, 2012

Stendhal, como muitos outros, é uma vítima da Gangue dos Acadêmicos de Monóculo. Formada por velhinhos carecas e tias de cabelo vermelho, a principal função da GAM é analisar, contextualizar e reanalisar à exaustão os clássicos, drenando qualquer força de atração que esses venham a ter sobre nós, pessoas comuns, que só queremos entretenimento superlativo em troca de uma travessia de centenas de páginas.

Exemplo: por causa da fama que a GAM deu a O Vermelho e o Negro, achava que Stendhal só escrevia parágrafos gigantes sobre as políticas inerentes às ações de Napoleão, ou seja, zero de ação. Com o lançamento da nova tradução de A Cartuxa de Parma (Penguim-Companhia, 616 páginas, R$ 35), veio uma imagem de capa muito convidativa e, escrito na contracapa, algo como “sequências de batalha que influenciaram de Tolstói a Hemingway”.

Dois sujeitos (e vítimas quase fatais da GAM) que escreviam sequências de guerra de um jeito tão realista que, se você estivesse lá, suas memórias não seriam tão acuradas quanto as descritas em Guerra e Paz e Por Quem os Sinos Dobram. E, se foi Stendhal quem influenciou a origem dessas, a GAM merecia corte marcial por tratá-lo de um jeito tão pedante.

A Cartuxa de Parma dá conta de toda a vida do nobre Fabrice del Dongo. Usando poucas páginas para falar sobre a sua educação durante a infância, o livro começa de verdade quando ele, com a arrogância ingênua característica dos 17 anos de idade, decide fugir da Itália para tentar se juntar ao exército de Napoleão, movido apenas pela vontade de participar de algum conflito armado e se provar como homem. Sem saber empunhar uma arma, entra sem querer no meio da Batalha de Waterloo, sem ter ideia de onde está, e acaba virando um paspalhão na mão de um bocado de aproveitadores.

É durante sua andança pelos campos dessa batalha que Stendhal descreve essas sequências que influenciaram as melhores passagens de guerra da literatura posteriormente. Sem narrar um conflito maior, ele detalha apenas eventos isolados, testemunhados diretamente por Fabrice. Uns são bem violentos (como um cavalo ferido esfregando as fuças nas próprias tripas), outros de suspense bem construído, como quando Fabrice precisa aprender a usar uma arma em segundos para não ser morto. Mas a maior parte desses eventos são cômicos, de gerar gargalhadas constrangedoras, já que o “nosso herói” (como Stendhal costuma chamá-lo) insiste em querer ser tratado como um nobre mimado.

Quando a batalha termina (Fabrice só descobre num jornal velho, dias depois, que participou do conflito mais importante do século XIX, enquanto procurava irritantemente por uma boa desculpa para ser macho e matar a esmo), Stendhal deixa claro que essa passagem era só um mote menor para justificar os muitos infortúnios que seu herói ainda iria viver. A Batalha de Waterloo ocupa só um quinto das mais de 600 páginas de As Cartuxas de Parma. O que vem depois é o melhor em futrica de cidade de interior, pegação desenfreada, duelos pela manutenção da honra e as consequências deprimentes de todos esses excessos.

Por ter lutado do lado dos franceses, com a derrota de Napoleão, Fabrice vira persona non grata em sua cidade natal, Parma, na Itália. Sua tia, a duquesa Sanseverina, desenvolve um amor meio incestuoso pelo sobrinho. Com seu marido, o Conde Mosca, traçam um plano para garantir um bom futuro para o herói. Enviam o jovem para Nápoles, para que ele dê início a sua formação de arcebispo. Fabrice, enquanto tenta seguir carreira religiosa, procura seu “grande amor” na base do empirismo: testa todas as mulheres que quer e espera que o sentimento nobre nasça. Quando não acontece, ele parte para outra.

Todos os problemas que Fabrice arranja até o seu último dia de vida são consequências dessas investidas em mulheres comprometidas. Sua tia assume a responsabilidade de aliviar as punições que ele sofre, usando da influência em constante declínio que possui na cidade. Em um certo ponto, esse cabo de guerra da duquesa com as autoridades locais vira quase um livro paralelo, do qual Fabrice pouco ou nada sabe, mesmo quando se torna figura central de um embate de poder entre os carreiristas mais mesquinhos da cidade.

Stendhal usa esse paralelo como brecha para dizer o que tinha que dizer sobre a política da Itália e da França pós-ocupação napoleônica. Uma pena que a GAM só sublinhe o aspecto menor do livro. Por mais que tivesse algo a dizer sobre o *estado das coisas*, é óbvia a sua intenção de diluir observações sérias em uma trama altamente galhofeira. No final, o que fica com o leitor é uma profunda sensação de entretenimento, não a lembrança de um tratado sobre política sofisticadíssimo. Se tomarmos Fabrice como exemplo, até mesmo na literatura, é sempre bom ficar alheio aos aspectos mais sérios dos acontecimentos.

A novela

Posted in tv by Tiago Lopes on setembro 10, 2012

Como uma boa ficção pode se valer de inúmeros suportes para ser contada, ao longo desses milênios todos em que as narrativas se espalharam por paredes de cavernas e telas de IMAX, uns suportes acumularam mais respaldo que outros, na medida em que a diversidade de histórias contadas através desses de menor prestígio foi se limitando e se repetindo. No Brasil, em alguns círculos, um livro premiado sempre vai ser melhor que o horário nobre da Rede Globo. Avenida Brasil vem fazendo desse achismo um equívoco desde que o último livro nacional realmente bom foi premiado (Modesto Carone?).

Comecei a acompanhar a novela de João Emanuel Carneiro um mês antes da reviravolta do 100º episódio, o muito divulgado e comentado início da vingança de Rita contra Carminha. Como foram muitos os comentários sobre a qualidade da ficção de Avenida Brasil feitos por gente bem distante do público cativo de donas de casa noveleiras, decidi esperar um pouco mais para ver até onde o autor conseguiria sustentar esse patamar e até onde o público “formador de opinião” continuaria se importando.

O autor e seu time de roteiristas só melhoraram a qualidade da novela desde então. Já o público “diferenciado” parece que deixou de se importar uma semana depois, tão logo aquele post do Xico Sá com 10 razões “cabeçudas” para ver a novela foi dando espaço a sua velha ladainha de CHIFRE É BOM, CHIFRE É DAORA. No twitter, pararam de contar os episódios. Nem sei porque começaram, mas ficou a impressão de que é fácil contar a partir de 100, mas depois de 110, a coisa fica complicada.

Se deixaram de acompanhar, estão perdendo justamente a melhor fase da novela. A fase em que até a direção dos passos de cada um dos personagens principais (os envolvidos diretamente na disputa Rita X Carminha) é difícil de apontar. Com o início da vingança, a trama só conseguiria manter o interesse do público se colocasse a disputa em pé de igualdade, com cada um dos lados de posse de provas e dinheiro o suficiente (o trabalho que Rita e Carminha dão aos seus contadores poderia ser explorado em uma minissérie emocionante) para esticar e diversificar as chantagens. Justamente o que aconteceu: Rita tem as benditas fotos para arrancar o que quiser de Carminha; e a falta de juízo de Carminha lhe dá licença para matar de imediato assim que sua paciência se esgotar.

Essa tensão entre as duas, de baixo do mesmo teto da mansão do Divino, colocou Avenida Brasil no quase inalcançável patamar das ficções em novelas: o patamar da imprevisibilidade.

Novela geralmente é um troço chato porque você consegue detalhar os 150 episódios seguintes vendo os 15 primeiros minutos do capítulo de estreia. Com comédias românticas, por exemplo, isso também é regra. Mas ao menos as melhores apresentam diálogos e situações originais antes do final óbvio, segurando o nosso interesse. Diálogos e enredos de novela parece que são retirados de um globo gigante de bingo, contendo centenas de papeis com as situações e dizeres mais comuns da nossa existência. Para uma nova novela, um novo sorteio reordenando esses papeis.

Tente resumir o que já aconteceu em Avenida Brasil até agora e perceba você mesmo como a trama é bem mais complicada do que o usual “cara encontra a mulher da sua vida em local distante do país, os dois voltam para o Brasil, mas seus futuros já estavam traçados pela família/convenções sociais/segredos do passado até que finalmente o poder do amor (ou um assassinato misterioso) supera tudo, descambando em um último episódio com igrejas e maternidades superlotadas”.

Carneiro ainda conseguiu se desviar da repetição de troca de posições entre vilã e mocinha que fez em sua novela anterior, A Favorita, para acinzentar ainda mais as índoles de Rita e Carminha. Para um bom termômetro, pergunte a sua mãe ou tia quem elas acham que é do bem e quem é do mal na novela. Talvez elas nem saibam responder a essa altura do campeonato, especialmente com o segredo sobre a criação de Carminha ameaçando transformá-la em uma vítima do sistema. Pergunte também se Nilo e Max, dois dos parasitas mais sensacionais da ficção, merecem uma bala na cabeça ou um colo materno.

Agora, repita essas perguntas depois de um outro episódio. Com personagens tão convincentemente flexíveis, a carga de imprevisibilidade da novela só aumenta, assim como o interesse em descobrir o que vai acontecer logo em seguida, principal requisito de qualquer ficção que queira garantir a sua atenção até o final.

E justo no mês de comemoração do centenário de Nelson Rodrigues, Carneiro faz com que o público cativo e meio carola de novela engula como entretenimento dois formatos incomuns de família. Nas tramas secundárias (até essas melhoraram consideravelmente depois da reviravolta central) Cadinho agora é casado oficialmente com três mulheres, as madames mais realisticamente irritantes daquele lado do Pão de Açúcar (se Manoel Carlos, essa gola roulet em formato de gente, já mostrava o Rio de Janeiro como um lugar mais irreal que a Terra do Nunca, depois de Avenida Brasil, suas novelas serão tão válidas quanto suas piadas). Suelen, Roni e Leandro agora dividem o mesmo teto, um threesome tão óbvio que até sua avó já entendeu a piada.

Se nada disso lhe convencer (a novela ainda tem os diálogos mais engraçados da TV aberta desde nem sei quando), vale como último e, ao menos para mim, inegável argumento: S-U-E-L-E-N. Não consigo lembrar de outros trabalhos de Ísis Valverde e tenho cá minhas dúvidas de que sua beleza se mantenha com tanta ARDÊNCIA ACACHAPANTE sem os trejeitos de sua personagem: as munhecas penduradas, o andar evoluído para um constante rebolado, as gírias que fazem com que ela trate qualquer estranho com intimidade e, por último, o incurável fogo na bacurinha. É a coadjuvante que vai se sobrepor aos protagonistas em nossa memória coletiva, muito, muito depois da reprise em Vale a Pena Ver de Novo.

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