Da Década!

Atropelando a fórmula

Posted in Cinema by Tiago Lopes on outubro 22, 2012

Os produtores tinham a intenção óbvia de fazer desse o 007 mais envernizado: contrataram um diretor oscarizado (Sam Mendes, de Beleza Americana, do estupendo Soldado Anônimo); chamaram John Logan, parceiro mais recente de Martin Scorsese (roteirizou A Invenção de Hugo Cabret e O Aviador), para se juntar a dupla de colaboradores regulares da série, Neil Purvis e Robert Wade. Mendes contratou o diretor de fotografia Roger Deakins (colaborador de longa data dos irmãos Coen), colocou Javier Bardem como vilão, Ralph Fiennes como novo personagem.

Tudo em Skyfall tem uma estampa mais chamativa, em relação aos outros 22 filmes da série. Ainda assim, apontá-lo como o melhor da franquia, como muitos vêm fazendo, é precipitado. Por enquanto, pode-se dizer que é, de longe, o mais plasticamente bonito. Mas 007 ainda é, independente de qualquer camada de verniz, uma série de filmes de ação. Skyfall, como havia suspeitado logo quando o primeiro trailer e a breve sinopse foram divulgados, é o primeiro filme da série que faz com que Bond se importe com uma família. Sam Mendes não consegue fazer a ação que permeia uma história tão delicada ser memorável, mas todo o resto é.

Em Cassino Royale, Bond se apaixona de verdade por Vesper. Em Quantum of Solace, passa o filme inteiro de luto por ela. Em Skyfall, nem se dá ao trabalho de cortejar nenhuma mulher (ele traça duas, mas sem esforço nenhum), porque está muito ocupado tentando salvar a vida de M. O vilão, também ineditamente, não quer destruir países, atacar regimes ou roubar riquezas, só quer se vingar de M, que por sua vez, vira alvo do próprio governo britânico quando, em uma missão comandada por ela e executada por Bond, perde uma lista contendo os nomes de todos os agentes em campo do MI6.

Judi Dench é a Bond girl de Skyfall e o filme segue nessa contra-corrente de protagonistas jovens em cinema de ação, não só colocando-a no centro da história, como apontando o Bond de Craig constantemente como um cara velho demais para o seu trabalho. Se em Cassino Royale ele falhava bastante porque não tinha experiência de campo, em Skyfall, suas falhas provem de articulações enferrujadas e outros males da idade. Sévérine, a Bond girl anunciada (uma Bérénice Marlohe com crazy eyes de arrepiar), aparece tão rapidamente que sua personagem funciona mais como um dado extra da maldade do vilão do que alguém realmente importante para a trama (ainda assim, ela arrebenta muito no pouco tempo de tela que ocupa).

Sam Mendes tem dificuldades em criar tensão em suas sequências de ação. Compensa destruindo coisas de maneiras originais e orquestrado-as em locações com uma direção de arte bem chamativa. Também continua arrepiando muito quando coloca  personagens em confronto psicológico e, pela primeira vez em sua filmografia, os personagens nunca esbravejam quando travam esses conflitos. A primeira aparição de Silva (Javier Bardem como Clodovil, como Marta Suplicy) é a melhor entrada de um vilão em toda a série. Não contente em se apresentar com um monólogo intimidante e assustador, Silva trava com Bond o diálogo mais hilário da história da franquia logo em seguida, fazendo aparecer o primeiro de muitos pontos superlativos de Skyfall sobre os outros filmes da série.

Esse se estende por um tempo bem maior que a média dos anteriores (2 horas e 23 minutos) porque Mendes, depois que marca todos os quadradinhos de sequências obrigatórias em um filme da franquia, se dá o direito de construir o seu final original. O último ato de Skyfall é de uma beleza e de uma gravidade sem tamanho, acontece numa locação inesperada (mas óbvia para o grande tema do filme), entrega a tensão que faltou às sequências de ação anteriores, explode coisas de maneiras ainda mais espetaculares e fecha mais um ciclo na vida do Bond de Daniel Craig.

Fazendo dezenas de referências a outras entradas da franquia (convém não estragar nenhuma piada) e preparando sabiamente o terreno para novas abordagens, Skyfall é um 007 que se distancia do tom dos outros filmes para ser a abordagem mais diferente de James Bond até agora. Seria injusto com os outros apontá-lo como o melhor, quando ele se beneficia tanto das fórmulas estabelecidas anteriormente, especialmente quando decide dobrá-las ou ignorá-las por completo.

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Oliver Stone e a crítica de meme de Facebook

Posted in Cinema by Tiago Lopes on outubro 15, 2012

Oliver Stone: nem aí para a burguesia

Se não morrer de uma maneira trágica, é possível que Oliver Stone tenha o seu trabalho esquecido tão logo deixe de fumar sua última ponta. Com duas dúzias de filmes sob a sua direção, Stone é um cineasta panfletário que insiste em passar mensagens mais descuidadas e ingênuas que meme político de Facebook. Se Michael Bay é apontado como a escória criativa da indústria, ele ao menos não é desonesto sobre o que faz. Já Stone, além de não ter mostrado uma nesga de ideia original em 30 anos de carreira, ainda tenta dar a seus filmes vergonhosamente oportunistas um verniz de cinema denúncia.

Analisando superficialmente a sua filmografia, quase todos os que dirigiu são uma tentativa de capitalizar em cima do que quer que estivesse nas manchetes na época do lançamento ou de tendências da indústria do cinema. Assassinos por Natureza se aproveitava de um jeito raso do debate tão em voga nos anos 90 da violência no entretenimento. Alexandre quis tirar uma lasquinha da leva de filmes-de-sandália iniciada com Gladiador e acabou sendo o pior de todos.

W.  foi só mais um dos muitos xingamentos feitos a George W. Bush, no período em que até as suas filhas já tinham perdido o pudor em falar mal dele. World Trade Center foi a primeira versão fictícia feita por Hollywood da tragédia do 11 de setembro, tão formuláica, desonesta e irritante que, se um parente meu tivesse morrido no evento, me sentiria pessoalmente insultado com a abordagem (e ainda foi lançado na época do muito mais barato, inventivo e chocante Voo United 93).

Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme é a única continuação que fez de um filme seu e, dessa vez, ele nem se preocupou em disfarçar seu oportunismo como cinema de denúncia: tão logo a crise econômica provocada pela bolha imobiliária estourou, ele anunciou que iria se aproveitar do estado das coisas para repaginar a “crítica contra o sistema” do seu filme de maior sucesso, que acabou sendo bem pior que o primeiro (que, se também não cruza a barreira da qualidade regular, tem o charme cafona oitentista, Daryl Hannah e a já lendária frase de Charlie Sheen, descamisado em uma sacada, fazendo a pergunta quintessencial do babaca: “WHO AM I?”).

Blake Lively, se querendo muito

Que Oliver Stone ainda consiga financiamento para filmes de alto custo, que não fazem sucesso de público, nem agradam a crítica, é algo que merece um estudo a sério. Selvagens, o seu mais recente, em exibição nos cinemas, ao menos parecia um que iria se ater apenas a contar uma história, sem criticar regimes ou suscitar debates. Mas nem tornar uma ficção minimamente aturável ele consegue. Com os truques de edição mais manjados que videoclipe do Samuel Bayer e as atuações mais constrangedoras desde que o elenco de Crepúsculo se sentou numa mesa de leitura pela primeira vez, Selvagens é o filme mais panaca do ano até agora.

Ao recusarem uma parceria com um cartel mexicano, dois vendedores independentes de maconha começam a ser chantageados até que cedam ao acordo proposto. A pressão aumenta quando o cartel sequestra a mulher que os dois dividem. A moça em questão, interpretada por uma Blake Lively ainda longe de capacidades razoáveis de atuação, mas mais gostosa do que nunca, é quem narra o filme, o que aumenta absurdamente a quantidade de observações toscas sobre uma trama tosca (ela é uma riquinha-mimada-de-pais-ausentes [sério, o cara que dá sinal verde para um filme que tem como principal narradora uma personagem TÃO original deve ter um esquema Primavera Para Hitler na manga]).

Suntory time

Como Oliver Stone está trabalhando com personagens tão incapazes de boas ideias quanto ele (yay pela coerência, ao menos), os caras executam um plano idiota atrás do outro contra o cartel, que revida descontando na namoradinha deles. O capanga principal é feito por um Benício Del Toro com óbvia intenção de enterrar qualquer boa memória que a gente tenha de grandes atuações anteriores dele. O cara que atuou em Traffic, Snatch21 Gramas e Che não precisa ficar aceitando esse tipo de trabalho. Seu personagem é um resumo tão grosseiro dos clichês latinos que deveria estar numa propaganda do partido republicano dos Estados Unidos. Claro que atores também têm contas a pagar, mas nem uma dívida de milhões com a Yakuza justifica essa escolha.

No meio de tudo isso, Salma Hayek, que faz a chefe do cartel, é a única que consegue agradar quando aparece. Não é só não irritar, é agradar mesmo, o que quer dizer muito num filme tão ruim. Sua personagem é solidária (também tem uma filha adolescente) e perversa (é uma mulher comandando um cartel) em igual medida, e ela consegue matar e afagar sem perder o humor. A participação da atriz na série 30 Rock foi uma das mais engraçadas do programa de Tina Fey e é possível que ela tenha aceitado o papel em Selvagens justamente para explorar ainda mais esse seu lado cômico.

Duvido que essa tenha sido a intenção de Oliver Stone, mas, se Hayek foi a única pessoa que se tocou que o material que tinha em mãos era tão ridículo que poderia ser hilário, só explicita a incapacidade que o diretor tem de perceber o potencial cômico de tudo que já fez. Como todo aspirante a político de 20 anos com mesada e cargo em DCE, o mundo sempre tem que ser muito sério na visão desses caras, saca, brow?

Notas sobre (e para quem já viu) Looper

Posted in Cinema by Tiago Lopes on outubro 1, 2012

Looper, em cartaz desde sexta-feira da semana passada, é um dos grandes filmes do ano. Caso ainda não tenha visto, o texto abaixo discute pontos cruciais do enredo (que é bem imprevisível e original, mesmo lembrando outros clássicos do cinema de gênero, como  A Profecia, Akira, 12 Macacos e O Exterminador do Futuro). Na Vip de setembro, tem uma resenha livre de spoilers do filme. Caso já tenha visto ou não se importa com spoilers, siga sem medo.

– As comparações de Looper com Matrix, Inception e outros filmes de ficção científica recentes são bem infundadas. Não há nada similar entre esses além do fato de pertencerem ao mesmo gênero. Qualquer filme que use algum recurso de metalinguagem lançado  depois de Quero Ser John Malkovich também é imediatamente comparado com algo de Charlie Kaufman (Mais Estranho que a Ficção, Cold Souls, Ruby Sparks). Matrix não inventou a ficção científica no cinema, nem Kaufman usou pioneiramente a metalinguagem como truque de roteiro. É ainda mais errado que comparações tão equivocadas sejam feitas com tanta internet por aí, lembrando a cada segundo que o cinema já tem mais de um século de vida. Também, foi justamente essa geração que fez com que o reboot de uma trilogia cujo primeiro filme só tem 10 anos de vida (Spider Man) fosse um sucesso. Vai entender.

– Ver Looper pela segunda vez ajuda a perceber ainda melhor o cuidado que o diretor e roteirista Rian Johnson tomou com os possíveis furos de roteiro. Além do já clássico diálogo em que o Joe velho fala para o Joe novo não se preocupar em entender as implicações de uma viajem no tempo (wink wink, desempregados que participam excessivamente de foros de discussão sobre Inception e acham que, no final de Lost, estavam todos mortos [não estavam]). Se demoram a acertar uma bala durante um tiroteio, uma fala do Kid Blue explica o porquê (aquela sobre o alcance dos blunderbuss e das pistolas de cano longo). O clímax do filme é todo narrado pelo Joe velho na conversa que ele tem com o Joe novo na mesa da lanchonete. Ele fala rapidamente das lendas que surgiram sobre o Rainmaker: viu sua mãe levar um tiro, sua mandíbula é um pedaço de aço e ele extermina todos os mendigos no futuro. Cid, o guri, leva um tiro na bochecha, tem um medo absurdo dos mendigos que atacam a sua fazenda e quase vê a sua mãe levar um tiro.

– A morte do Joe no final é realmente imprevisível (ao menos para mim), mas, quando acontece, parece a decisão mais natural e original a ser tomada. E de dois pontos de vista: da evolução do caráter do personagem e do alto grau de criatividade do roteiro. O Joe é um cara tremendamente egoísta. Nem ouvindo da boca da sua versão mais experiente (mais sobre isso no próximo item), ele consegue entender a importância de uma mudança radical de vida. Quando finalmente aprende, é durante uma epifania tão rápida e decisiva, que no segundo em que toma consciência de que precisa ser um homem bom, ele percebe que só existe uma atitude possível para que tal mudança aconteça: cometendo o sacrifício de tirar a sua própria vida. Até Jesus recebeu um aviso prévio. Já do ponto de vista criativo: acredito que um autor tem muita HOMBRIDADE quando investe anos de sua vida na criação de uma história tão intrincada, com personagens tão instigantes, para amarrar e dar consistência a tudo justamente com a morte (suicídio!) de seu protagonista.

– A conversa entre o Joe velho e o novo na mesa do bar é um dos diálogos mais moralmente complexos que o cinema de ação pode jogar na cara do espectador médio. É o Rian Johnson afirmando que não existe nada pior do que um jovem sem a consciência do estado passageiro das coisas. É o Joe velho vendo o farrapo humano que era quando jovem e implorando para que o seu eu estúpido não seja mais tão estúpido, e o Joe novo sendo o pirralho mimado que não aprende nem quando é uma versão mais experiente dele mesmo que lhe diz o que deve ser feito. Uma versão engenhosamente adulta do COME AS VERDURAS, MENINO! Mas esse personagem é tão absurdamente bem escrito que o Joe velho ainda guarda uma nesga do egoísmo que ostentou ao longo de grande parte da sua vida. O fato de ele ter a coragem de matar uma criança que não tem nada a ver com a sua tragédia (e essa cena tem uma carga dramática bem maior quando vista pela segunda vez) diz muito sobre a sua índole quase imutável. Também é desse diálogo que saiu a minha frase de efeito favorita do Bruce Willis (“shut your fucking child mouth”).

– Entre tanta coisa, Looper ainda consegue ser um dos raros filmes a falar do poder transformador do amor sem parecer tão cafona quanto essa expressão dita em voz alta.

– A sequência em que o Seth velho vai “perdendo” as partes do corpo enquanto tenta achar o Seth jovem já é tão clássica quanto aquela de Sangue Negro em que H.W. Plainview fica surdo. Em outras palavras: já é cânone ocidental.

– Rian Johnson leu muito Philip K. Dick, Shakespeare, Haruki Murakami e T.S. Elliot enquanto escrevia o roteiro de Looper. Não consigo nem elaborar uma opinião sóbria sobre O NÍVEL dessas credenciais.

– Caso ainda não tenha visto, os filmes anteriores de Rian Johnson, A Ponta de um Crime e Vigaristas, são igualmente superlativos. Como Paul Thomas Anderson, os irmãos Coen, Wes Anderson, Noah Baumbach, Olivier Assayas e outros grandes dessa geração, Rian Johnson já faz parte do grupo seleto de autores do cinema atual que dificulta bastante a escolha de uma obra favorita sua.

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