Da Década!

A patetice válida de Philippe Garrel

Posted in Sem-categoria by Tiago Lopes on janeiro 24, 2013

Não conheço Philippe Garrel além dos seus três filmes mais recentes: Amantes Constantes, A Fronteira da Alvorada e Um Verão Escaldante. O primeiro, vi há quatro anos e ainda lembro bem da sensação de ter gostado bastante daquele ritmo cadenciado e de um Kinks disparado numa festa. O terceiro, vi quando estreou nos cinemas, escrevi sobre aqui e continuo achando tudo isso desse. O segundo, assisti há pouco e teve o efeito negativo de potencializar os muitos defeitos dos dois anteriores, mas também possui os melhores argumentos pró-Philippe Garrel.

A Fronteira da Alvorada é um filme mal escrito, com grande parte dos diálogos explicitando mais o estado de espírito dos personagens do que parecendo falas possíveis ditas por pessoas experimentando esses dramas. Como em seus outros filmes, os personagens de Alvorada sofrem muito, mas muito mesmo por amor. Só que, ao invés do filme justificar a escalada de tanto amor entre eles para que, quando atingisse o auge e disparasse os conflitos todos, nos importássemos com tudo aquilo, em cinco minutos de projeção, Carole (Laura Smet) já está dizendo para François (Louis Garrel) que ele é o amor da sua vida e que ela não vai conseguir viver sem ele.

A passagem do tempo nos filmes de Garrel costuma ser abrupta e larga, o que pode servir de desculpa para justificar tamanha doação em uma relação mostrada em tão pouco tempo de filme. Mas esses pulos temporais espaçados não acontecem na primeira metade de Alvorada, fazendo do amor declarado de Carole por François mais resultado de carência beirando o distúrbio emocional do que uma sensação crível. Mais na frente, sabemos que o problema de Carole é realmente fruto de um distúrbio, mas François é uma pessoa sã e, mesmo assim, não se acanha em ecoar na mesma intensidade os sentimentos dele por ela, duplicando a quantidade de diálogos estupidamente óbvios e fazendo dos dois um par de trouxas.

Garrel não deixa que os seus personagens ajam como personagens, prefere construí-los como panfletos que divulgam emoções genéricas ao invés de senti-las, fazendo com que trabalhem mais em prol da mensagem do filme do que no desenvolvimento cuidadoso de suas histórias pessoais (caminho natural para gerar alguma empatia).

Mas é justamente na mensagem explícita que transmite que Garrel se redime. A história de A Fronteira da Alvorada (a mensagem) só faz sentido nos três minutos finais do filme, depois de mostrar muita gente falando muita idiotice o tempo inteiro. Garrel continua metendo no meio da história principal observações sócio-políticas com a convicção de um adolescente que acabou de assistir A Lista de Schindler.

Em um momento, François está na cama com Carole e, do nada, fala: “quando o último sobrevivente dos campos de concentração morrer, a Terceira Guerra Mundial vai começar”. Carole responde: “você é o amor da minha vida”. A cena acaba aí, da maneira como começou: sem nenhum sentido prático para a história do filme. Em outra sequência, igualmente abrupta e desconectada de todo o filme, François está em um bar, ouvindo um velhinho se auto-declarar, com orgulho, um anti-semita. François responde: “eu sou um judeu” e a sequência acaba, não só servindo para nada no filme como provocando um revirar de olhos tão poderoso que faz até barulho.

Mas a pior intromissão desse espírito DCA vem mais na frente, quando François procura um amigo para falar sobre o medo de se casar. O amigo diz que ele está com “medo da felicidade burguesa” e você queria mesmo uma coleira para segurar seus globos oculares.

Mas a mensagem maior do filme é válida e, no final, você sente que vale a pena aturar tanta infantilidade e procurar equilibrar os adjetivos “panaca” e “sincero” para acompanhar o nome de Garrel. François não consegue esquecer Carole nem quando está prestes a casar com a mulher que ele acredita ser o amor da sua vida (Ève, uma personagem tão mal escrita que consegue, de uma tacada só, explicitar o quão machista o diretor é e como ele não tem pudor de sacrificar qualquer senso de continuidade a favor da mensagem). Ignorou Carole quando podia e, agora que ela não está mais por perto, François não consegue superá-la, de um jeito tão penoso que prefere se sacrificar a continuar vivendo com esse arrependimento.

A sequência final é bonita, ligeiramente assustadora e dá um estofo ao filme que, até então, faltando três minutos para acabar, não existia, porque finalmente mostra os efeitos trágicos de incitar tanta carência por meio de mentira. A Fronteira da Alvorada é um filme de execução preguiçosa, mas com uma “moral da história” tão válida que até parece que Philippe Garrel a construiu com algum esforço, o que não é o caso.

*A Fronteira da Alvorada saiu depois, mas, como vi antes outro filme em que a Laura Smet faz papel semelhante, A Dama de Honra (Claude Chabrol), me irritei ainda mais com a preguiça de Garrel. Nesse filme, ela também faz uma doida que ama demais. Só que como Chabrol entende de ironia, piada e suspense, a personagem de Smet em A Dama de Honra é sensacional de um jeito que nenhuma personagem mulher criada por Garrel consegue ser.

*Apesar disso, Garrel filma mulheres de um jeito raro hoje em dia: só coloca lindezas de pouca roupa em poses inesperadas na frente das câmeras. O que explicita ainda mais seu machismo, mas, como não estou no negócio de queimar sutiãs, nem me incomodo.

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