Da Década!

A gente já entendeu, Justin

Posted in Música by Tiago Lopes on março 21, 2013

Antes de mais nada, atentem para essas duas imagens:

Na Vip de abril, que chega às bancas no dias 29 de março, resenho The 20/20 Experience usando a quantidade exata de superlativos que a música do terceiro disco de Justin Timberlake merece: muitos. Quanto as letras, parece que o cara ainda não trocou o jeans lavado da imagem acima pela suit & tie que se gaba justamente de saber exibir por aí.

Não que se possa exigir muita proficiência verbal de alguém que faça música pop. Mas até a concorrência de ritmo duvidoso mostra alguma esperteza quando escreve uma letra para virar hit. De cabeça, lembro de Carly Rae Jepson e Taylor Swift, que cantaram dois dos refrões mais gozadinhos de 2012 em Call Me Maeby e We Are Never Ever Getting Back Together.

E é bom lembrar da autoria: os créditos da primeira vão para Jepsen e um outro cara, enquanto Swift precisou de mais dois letristas para escrever seu hit mais aturável (agradável, até). A música com a letra menos vergonhosa de 20/20 precisou de – atenção porque aí você percebe que é um trabalho muito árduo não fazer uma música para o gosto popular soar tão derivativa – OITO PESSOAS.

A letra de Suit & Tie, uma música sobre “os prazeres de ser bonito e bem vestido”, usou a mesma força tarefa necessária para erguer um prédio de 10 andares (de acordo com uns dados que recolhi andando pela vizinhança). Com exceção dessa, as outras nove faixas de 20/20 arrepiam ainda mais no maior (e único) problema de FutureSex/LoveSounds: a autoafirmação excessiva.

Justin tem uma voz fina e a usou para iniciar sua carreira como líder de uma boy band. Por mais moderno que seja esse mundão, esses ainda são dois sinais de ausência de masculinidade. Não ajuda que os promoters do ‘N Sync tenham feito a banda atravessar quase uma década de existência forçando os caras a usarem um vestuário feito de ideias descartadas do Ronaldo Ésper.

Quando Justin percebeu que tinha algum talento próprio e planejou a sua carreira solo, decidiu que só com muita referência escancarada ao fato de que gosta mesmo de mulher, apesar da voz fina e de uma boy band no currículo, para apagar um passado tão bandeiroso. E é uma temática muito nobre, mas vem executando-a da maneira mais limitada possível: sem um adendo cômico, sem o uso de qualquer metáfora criativa em uma afirmação tão abusadamente repetida, sem uma nesga de vergonha em usar a própria voz para dizer que “é o melhor cara que há por aí”.

Obviamente, o mundo da música pop tem egos maiores do que a circunferência de Timbaland, mas os melhores conseguem transformar a necessidade de autoafirmação em letras inesperadamente criativas, tornando mais aturável para o público ouvir pela enésima vez que seu artista favorito venceu na vida, decorou nomes de marcas e que come tantas mulheres quanto consome Chandons no café da manhã.

Jay-Z e Kanye West estão no topo da cadeia alimentar por saberem fazer exatamente isso: “I’m planking on a million”, verso de Gotta Have It, tem cinco palavras e cumpre muito bem todas as suas funções: esclarece a autoafirmação, é engraçado e inesperado e ainda faz referência (e justifica a existência) de uma prática bocó dos nossos tempos.

Tudo bem que a autoafirmação de Justin não é material, é sexual. Só que outro cara de voz fina e trajes espalhafatosos construiu uma carreira inteira em cima de letras de autoafirmação no campo do lovemaking, aumentando e mantendo em altíssimo nível o padrão de comparação para qualquer um que queira se aventurar nesse terreno. Não vou nem invocar um clássico de Prince. Segue um trecho de International Lover, música que encerra o sensacional álbum 1999:

Good evening / This is your pilot Prince speaking / You are flying aboard the Seduction 747 / And this plane is fully equipped with anything your body desires / If for any reason there’s a loss in cabin pressure / I will automatically drop down to apply more / And to activate the flow of excitement / Extinguish all clothing materials and pull my body close to yours / Place my lips over your mouth, and kiss, kiss, normally / In the event there is over excitement / Your seat cushion may be used as a flotation device.

Nem parece, mas essa é uma balada, cantada lentamente para que a gata não perca nenhum detalhe da cantada do Prince. São versos tão constrangedores pela ótica do bom senso, mas tão criativos em sua finalidade (autoafirmação sexual), que Prince poderia dar aulas em Harvard com o tema “Metáforas Sexuais no Pop: Síntaxe, Safadeza e Originalidade”. Não tem recanto da gramática que ele não tenha utilizado como base para dizer de um jeito diferente que curte uma vagina.

Agora, trecho de Spaceship Coupe, uma das músicas mais fracas de 20/20 e que, como International Lover, usa transporte aéreo como metáfora sexual:

We can’t take an airplane / Where we’re going is way too high / Going where the day sky turns into night / I got the windows special tinted for the stars that get too bright / And I saved you a seat, so let’s ride / Hope into my spaceship coupe / There’s only room for two / And with the top down / We’ll cruise around / Land and make love on the moon / Would you like that?

Whoa, que pena da gata que tenha ouvido esse convite do Justin. Não só deve ter dormido de tédio no quarto verso (porque raios ela vai querer saber que ele colocou vidro fumê na caranga espacial?), como acordou só para soltar um sonoro “pfff” quando ouviu o convite para fazer amor na lua. Essa também, infelizemente, é uma balada: o ritmo lento deixa todo esse amontoado de cantada de encanador (que, imagino, esteja uma escala abaixo da de pedreiro) ainda mais audível.

No novo disco, ele ainda inventa os termos mais retardados e inadequadamente infantis em Strawberry Bubblegum para se referir a vagina (“chiclete de morango”) e pênis (“pirulito de mirtilo”). Essas escolhas só não são passíveis de queimar numa fogueira em praça pública porque a música é bem sensacional.

Justin já é um cara casado, seu currículo de mulheres é mundialmente conhecido e o ‘N Sync acabou há mais de uma década. Se a ideia é continuar insistindo na autoafirmação sexual, rouba as ideias de letras do Prince também. Se aprendeu com o cara a fazer música pop de verdade, não deve ser tão difícil aprender a escrever letras além do nível “estava no avião tomando leita moça / meu pai foi mais esperto e comeu a aeromoça”.

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