Da Década!

Potencializando as regras do terror

Posted in Cinema by Tiago Lopes on abril 29, 2013
Proibidão da literatura

Com uma premissa que o diferencia ligeiramente do original (jovens se isolam numa cabana em local ermo para ajudarem um membro do grupo a se recuperar do vício em heroína), a refilmagem de A Morte do Demônio passa uma mensagem cifrada hilária sobre as dificuldades de superar um vício: a abstinência não só vai te deixar louco como dá brecha para o demônio te possuir e fazer você esfolar as faces dos seus amigos com um pedaço de vidro. Entre o vício e os horrores mostrados no filme, um viciado vai preferir morrer de overdose do que ser estuprado por uma árvore. Mas, ao contrário do original, a moral desse remake é a única boa piada do filme.

Infelizmente, depois do muito engenhoso O Segredo da Cabana, um filme de terror que mostra um grupo de jovens isolados numa cabine precisa se esforçar mais do que uma cheerleader correndo pela sua vida para provocar um interesse mínimo. Cada passo dos personagens de A Morte… em direção à liberação do demônio via a leitura de um livro que está lacrado com arame farpado lembra a sequência tremendamente engraçada de O Segredo… em que os personagens estão no porão “escolhendo” qual objeto que vai liberar a maldição que deve cair sobre eles. O que esvazia qualquer sensação de antecipação de tragédia que esse momento de A Morte… deveria provocar (fazendo da trilha sonora óbvia mais um entre os muitos elementos desnecessários desse início). 

Não ajuda que A Morte do Demônio tenha diálogos que variam entre falas constrangedoramente automáticas e frases de efeito que nunca provocam o efeito que os roteiristas esperavam. O que faz do início do filme mais uma simulação dramática capenga de um programa de auditório (parece que o elenco foi escolhido na filial americana da Escola de Atores Wolf Maia) do que algo que precisa suscitar a sua empatia por aqueles seres prestes a serem estilisticamente esquartejados.

Mas A Morte do Demônio, quando acerta, nos lembra que, felizmente, nem todo filme de terror precisa desconstruir as regras do gênero para ter alguma relevância no meio do cinismo cuidadosamente cultivado pela nossa geração (são poucos os exemplos, mas O Abismo do Medo, REC, REC 2, Arreste-me Para o Inferno e Sobrenatural  são alguns dos títulos recentes que não recorrem à metalinguagem para chamarem a sua atenção). A refilmagem do clássico de Sam Raimi optou por potencializar ao extremo as duas principais bases do gênero. O suspense nem sempre é bem dosado: quanto uma porta se fecha sozinha pela segunda vez, você para de pensar no poder do demônio e começa a se irritar com a possibilidade da cabine possuir um sistema de segurança insuportavelmente falho.

Mas quando o diretor Fede Alvarez acerta tanto no suspense quanto no gore na mesma sequência, caramba! Ao menos três provocam reações físicas na audiência dignas de uma aula extrema de pilates (as que envolvem os seguintes objetos: uma agulha, um pé-de-cabra e um estilete). O terceiro ato em especial é uma sandice que se estica por 15 minutos em que, a cada dez segundos, algo muito PUTA QUE O PARIU *BATE NO BRAÇO DA CADEIRA E LIGA PRA JESUS PEDINDO CLEMÊNCIA* acontece. Regras básicas de anatomia e da ciência do corpo humano são sumariamente ignoradas pelo bem do seu susto e da sua capacidade de se enojar. Essa última vai ser testada como ela raremente é.  

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