Da Década!

Antes do Amanhecer

Posted in Cinema by Tiago Lopes on junho 12, 2013

Nessa sexta-feira, dia 14, estreia nos cinemas Antes da Meia-Noite, a última parte da trilogia iniciada em 1995 com Antes do Amanhecer. Para apreciar melhor a nova visita a Jesse e Celine em mais uma cidade europeia aleatória, acompanhe aqui, de hoje até sexta, resenhas dos três filmes.

Começando pelo que lançou a ótima ideia, mas acaba sendo o mais equivocado da trilogia. Antes do Amanhecer mostra um homem e uma mulher se conhecendo num trem em direção a Veneza no dia 16 de junho de 1994. Como todo jovem proto-intelectual, Jesse (Ethan Hawke) e Céline (Julie Delpy) preferem expor suas preferências em literatura e filosofia antes de qualquer coisa quando estão conhecendo alguém. Essa característica dos personagens é uma das mais óbvias também do cara que os criou. O início da carreira do diretor Richard Linklater é, numa análise superficial, a mesma trajetória que um universitário percorre: de um calouro maconheiro e socialmente engajado a um veterano pedante e tagarela.

Jovens, Loucos e Rebeldes é o segundo filme de Linklater, mas o primeiro que chamou a atenção do público. Mostra um grupo de jovens em 1976 no último dia de aula do ensino médio. Os diálogos não fogem da zona “sexo e drogas”, são constantemente engraçados e possui um elenco tão extenso quanto um filme de Robert Altman. Na sequência, Linklater fez Antes do Amanhecer, o oposto exato de Jovens: apenas dois atores, falando sobre morte e metafísica, sem nenhum humor ou qualquer identidade visual que facilitasse a experiência de ver dois pedantes discutindo basicamente quem tem o maior cartão de biblioteca.

Não que seja desagradável ver um casal com aspirações intelectuais discutindo no cinema. De Jean Renoir a François Truffaut, de Michelangelo Antonioni a Mike Nichols, vários diretores criaram obras geniais em cima desse molde. Só que Linklater esqueceu de colocar qualquer emoção entre Jesse e Céline. Ao longo do dia em que passeiam por Veneza, eles tocam muito superficialmente em assuntos de suas vidas pessoais. Quando, por exemplo, Jesse diz que seus pais são separados, é só mais uma brecha que ele usa para apresentar sua teoria sobre o impacto da influência na formação da personalidade.

E o filme é quase todo assim: eles usam uma experiência pessoal como desculpa para desfilar teorias que vão de reencarnação a feminismo. É um bombardeamento de ideias mal desenvolvidas tão intenso que antes de você terminar de bater o palmo na testa para a última tese besta do Jesse sobre a arte da adivinhação, já tem que estar pronto para revirar os olhos para a próxima da Céline sobre destino e conformismo. Até quando estão discutindo sobre sexo, seja falando de experiências passadas ou quando estão prestes a fazer, os dois analisam o ato sob os ângulos mais entediantes possíveis.

Quando finalmente decidem falar longamente apenas de experiências pessoais, o filme fica instantaneamente agradável. Pena que esses só são dois momentos. E em um, eles inventam até um truque para não parecer que estão se entregando assim tão facilmente: na sequência do restaurante, em que “interpretam” uma conversa telefônica com seus melhores amigos para dizer precisamente o que acham um do outro; e no final, quando estão prestes a se separar na estação de trem.

Essa última sequência é a única com algum sentimento do filme, onde os atores e o diretor tiveram o bom senso de perceber que é impossível intelectualizar uma despedida, especialmente nessas circunstâncias. Ethan Hawke e Julie Delpy, que até então não tinham feito muito além de declamar o roteiro, ficam extremamente vulneráveis, provocando uma empatia no espectador tão inesperada que é quase como receber um golpe brutal de emoção.

Linklater é um ótimo diretor, daqueles que investem em diversos gêneros e está em seu melhor quando estufa seu cinema de ficção. Parece uma declaração óbvia, mas as ideias de um autor, no cinema, precisam estar bem disfarçadas no meio de uma ficção instigante. Essa atrai e segura o público, que vai ficar ainda mais satisfeito com a experiência de ver o filme se descobrir por ele mesmo as intenções do autor.

Além de Antes do Amanhecer, Linklater colocou suas ideias em primeiro plano, em detrimento da ficção, de um jeito ainda mais radical em Waking Life, não por acaso, seu pior filme. Ao mostrar um bando de personagens vagando e falando a esmo sobre tópicos muito bonitos num livro, mas profundamente entediantes na tela, o diretor criou o trabalho mais pedante dos anos 2000. Tanto que ele mesmo aprendeu com esses erros. Anos depois, dirigiu a adaptação de O Homem Duplo, romance de Philip K. Dick,  com a mesma intenção de Waking Life, de usar o cinema para desfilar dezenas de teses filosóficas. Só que, ao contrário do filme ruim, O Homem Duplo sustenta todo o seu falatório intelectual numa história sensacional de um policial infiltrado num grupo de drogados que começa a perder a sua identidade.

Com as sequências de Antes do Amanhecer, essa evolução na maneira de fazer filmes de Linklater fica ainda mais evidente. Mas isso é assunto para a resenha do excelente Antes do Pôr-do-Sol, amanhã, por aqui.

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