Da Década!

Muita quaresma para pouco deserto

Posted in Literatura, Sem-categoria by Tiago Lopes on julho 4, 2016

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Na primeira entrevista da escritora Maria Valéria Rezende (MVR) divulgada depois de ter sido premiada com o Jabuti de melhor romance de 2015, ela aproveitou o megafone como alguém que não confia na eficácia da linguagem insípida de assessoria para vender um produto: “não aguentava mais livro de jovem jornalista frustrado porque não consegue terminar romance sobre jovem jornalista que quer ser escritor”. Em duas linhas, MVR esclareceu bem porque seu peixe é mais fresco do que o da concorrência: se distanciou de patotas, mostrou que se importa com algum planejamento narrativo e se impôs com uma rabissaca verbal de deixar os olhos do Kanye West brilhando.

O enredo do livro premiado, Quarenta Dias, é uma plataforma bem confiável dessas tamancas altas: a professora Alice é intimada pela filha, Norinha, a mudar-se de João Pessoa para Porto Alegre, onde Norinha planeja ter o bebê de seu marido sulista, promovendo sua mãe a avó e babá por tempo integral enquanto cuida da própria carreira. Alice resiste, Norinha joga sujo e sua mãe finalmente cruza o Trópico de Capricórnio com ela, munida de uma cara amarrada por nó de marinheiro e muito lamento pela rotina que deixou em João Pessoa.

Nesse cabo de guerra entre mãe e filha, a família é convocada a tomar partido, extraindo de Alice uma compreensão milagrosa de disputas consanguíneas e dando a Quarenta Dias seu primeiro impulso à grandeza. Como combustível extra, MVR expõe a narrativa em primeira pessoa por meio de um fluxo de consciência que ignora as convenções sintáticas para que as ansiedades de Alice saiam de sua cabeça para a do leitor quase inalteradamente.

Já em Porto Alegre, Norinha dá outra rasteira na mãe, mas a passividade de Alice impede Quarenta Dias de seguir pela promissora rota “Mildred Pierce no Brasil Profundo”: ao invés de sentar uma mãozada no juízo da filha, Alice se acovarda do confronto fugindo da própria casa para vagar a esmo pelas beiradas de Porto Alegre, usando como desculpa a busca pelo filho desaparecido da amiga de uma amiga de João Pessoa e iniciando a quaresma sinalizada no título. A partir daí, o livro segue a estrada cheia de curvas fechadas do romance de cunho social, e MVR e Alice derrapam em quase todas.

O tamanho físico do livro já denuncia o erro de MVR ao jogar Alice nas ruas por quarenta dias só para incitar paralelos com eventos bíblicos de igual duração (Jesus no deserto, israelitas seguindo para a Terra Prometida): depois de 3/4 do total de páginas, Alice ainda está no sexto dia de sua jornada. Se tivesse passado o quarto final em coma num hospital, suscitaria menos enfado do que a repetição da rotina que já havia estabelecido nos dias e páginas anteriores. MVR também ignora a necessidade de multidimensionar esses personagens marginalizados: a voz que ela quer dar aos marginalizados vira um grunhido distorcido graças à perspectiva estreita de sua protagonista.

Uma que chega a ser ofensiva: Alice está tão fascinada pela privação das famílias pobres e dos moradores de rua que encontra em sua peregrinação que chega a igualar a sua situação à deles, ignorando que eles não têm o privilégio que ela possui de cansar de brincar de sem-teto e voltar para casa quando quiser. Ela, que começa sua jornada como uma vítima dos abusos da filha, e uma que provoca empatia genuína, a termina como alguém que corre atrás de sofrimentos desnecessários para fugir de problemas solúveis, muito como os personagens dos escritores que MVR achincalha sem medo de ser barrada na porta da Mercearia. Ainda assim, Quarenta Dias tem toda a cara de ser o 808s & Heartbreak que precede o My Beautiful Dark Twisted Fantasy da literatura BR, só aguardar que logo mais a obra de MVR deve se erguer ao seu muito bem-vindo discurso.

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