Da Década!

Antes da Meia-Noite

Posted in Cinema by Tiago Lopes on junho 14, 2013

Entre Antes do Pôr-do-Sol e Antes da Meia-Noite (que estreia hoje no Brasil), foi lançado Cópia Fiel, filme do iraniano Abbas Kiarostami, com Juliette Binoche e Wlliam Shimell, que começa com um escritor dando uma coletiva sobre seu mais novo livro em Toscana. Ele é abordado por uma fã, os dois iniciam uma extensa caminhada pelas ruas da cidade, e conversam sobre os temas do livro que ele acabou de lançar. Ao serem atendidos por uma garçonete, ela os confunde por marido e mulher e, de repente e sem nenhuma explicação, os dois assumem esses papeis. Cópia Fiel, que até então era uma discussão deliciosamente inteligente sobre arte, se transforma num filme essencial sobre relacionamentos na casa dos 40. Exatamente o que seria uma continuação de Antes do Pôr-do-Sol.

O que deixou a intenção de Richard Linklater de completar sua trilogia um pouco mais difícil: Cópia Fiel não só parece uma finalização natural das ideias de Antes do Pôr-do-Sol como tem uma das fotografias e planos mais criativos do cinema dessa década. É um filme tremendamente bonito, que explora tanto a Toscana como a beleza da Juliette Binoche de um jeito que colocam a Paris e a Julie Delpy de Antes do Pôr-do-Sol numa digna, mais ainda assim segunda posição numa lista de melhores cruzamentos entre cidades europeias e mulheres lindas.

Felizmente, a solução de Antes da Meia-Noite é uma tão engenhosa que me parece até inédita: o foco do filme não é mais o relacionamento entre Jesse e Celine, mas a influência que os filhos possuem em um casal. Além de ter escolhido esse tema e a Grécia para encerrar o ciclo, Linklater ainda dividiu o filme em três seções não declaradas, fazendo de Antes da Meia-Noite o mais diferente da trilogia.

A primeira delas lembra uma mistura do melhor da dobradinha de Denys Arcand formada por O Declínio do Império Americano e As Invasões Bárbaras, ao mostrar vários personagens de diferentes faixas etárias discutindo sobre amor, sexo e suas implicações a curto e longo prazo. Nessa primeira parte, há o monólogo mais choroso de toda a trilogia do Linklater, uma versão de como seria Amor, de Michael Haneke, se fosse um filme mais otimista.

A segunda parte é a única que lembra os filmes anteriores, onde mostra apenas Jesse e Celine caminhando e conversando. Mas, se isso foi basicamente tudo o que vimos nos filmes anteriores, no novo, não dura nem 15 minutos. Logo depois, começa a terceira parte e maior trunfo de Antes da Meia-Noite: uma tour de force que toma o maior tempo do filme e acontece dentro de um só cômodo, para vasculhar o que há de pior e melhor nesses personagens. De novo, a colaboração entre Linklater, Julie Delpy e Ethan Hawke no roteiro se prova a melhor decisão criativa da trilogia. Não há tema comum de discussão entre casal que não tenha sido ao menos levemente lembrado pelo roteiro nessa sequência, todos usados como argumento para o tema maior do filme.

Em termos de cinema, essa sequência representa o único e menor problema do filme: como essa parte é essencialmente teatral, Linklater ainda não tem as manhas de um – para citar exemplo recente – Roman Polanski, que fez de O Deus da Carnificina, um filme com apenas quatro personagens que se passa quase inteiramente em um cômodo, uma experiência viciante. Em Antes da Meia-Noite, as câmeras que filmam essa sequência estão excessivamente quietas e há uma economia de corte que, se por um lado, deixa a conversa ainda mais crua, por outro, provoca dispersão da atenção do espectador.

Mas, reclamando o posto de melhor cruzamento entre cidade europeia e mulher linda, Linklater mostra uma Delpy seminua por um bom tempo dessa conversa. A intenção não é chamar a sua atenção com nudez. Mas provar que nem a intenção de sexo é suficiente para desviar o foco de assuntos mais urgentes como os que estão sendo discutidos (Robert Altman fez o mesmo com Juliane Moore em Short Cuts e Linklater consegue imprimir o mesmo impacto em sua versão).

E todo esse lenga-lenga tremendamente bem escrito e assustadoramente instigante para provar uma tese muito óbvia, sublinhada nos filmes anteriores e escancarada em Antes da Meia-Noite: monogamia duradoura é conseguida a custo de uma insistência humilhante e quase doentia. Linklater criou uma trilogia sobre amor usando uma base muito romântica, mas que sustenta umas verdades muito dolorosas sobre os sacrifícios que um relacionamento demanda.

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Antes do Pôr-do-Sol

Posted in Cinema by Tiago Lopes on junho 13, 2013

Até a Julie Delpy melhorou depois de quase uma década

Uma das qualidades mais óbvias de Antes do Pôr-do-Sol é ser uma das melhores defesas que o cinema já apresentou sobre as vantagens de envelhecer. Exatamente nove anos separam os lançamentos desse de Antes do Amanhecer. Quase uma década de amadurecimento fez com que todos os envolvidos na produção perdessem por completo qualquer resquício de pedantismo presente no primeiro filme da trilogia, fazendo de Antes do Pôr-do-Sol o melhor dos três.

É um pacote completo de entretenimento: realista, engraçado e com um romance que se limita a apenas breves minutos do filme, mas tão convincente e apresentado de um jeito tão original que não há sexo, nem beijo, sequer a aproximação de corpos. E o melhor: Antes do Pôr-do-Sol não perde uma oportunidade de tirar um sarro das situações mais ridículas do filme que o originou.

Esse começa com Jesse em Paris, dando uma coletiva sobre seu livro de estreia, This Time, uma ficção meio autobiográfica detalhando o dia em que conheceu Celine. E essa é a última vez que veremos Jesse no modo “palavras de sabedoria evasivas” que ele exerceu em todo o filme anterior, porque não dá uma resposta direta a nenhuma pergunta dos jornalistas, as aproveita para teorizar em cima do que falaram. Até que Céline vai ao encontro dele, porque leu num jornal sobre a coletiva e se reconheceu no livro.

Quando saem da livraria e dão início à conversa que se desenrola em tempo real até o final do filme, Pôr-do-Sol apresenta uma fotografia tão bonita das ruas de Paris que, tivessem os dois se comportado como se ainda tivessem vinte e poucos anos, esse ainda seria um filme agradável só pelas imagens. Mas com trinta e poucos anos, os dois mostram de imediato que uma das grandes vantagens de crescer é não levar tudo muito a sério.

Ela trabalha como uma ambientalista, mas ri de todas as boas piadas que Jesse faz sobre as implicações cafonas de sua nobre profissão. Ele também ri de todas as boas piadas que ela faz sobre como ser autor de um best-seller não te faz alguém inteligente. E a conversa segue nesse tom realista o filme inteiro: eles falam apenas de suas experiências de vida. Falam como se sentem sobre casos passados, empregos, famílias, sem teorizar sobre nada, só contando uma experiência e falando brevemente sobre como se sentiram e o que aprenderam com elas.

E finalmente a personalidade de ambos vai se moldando. Algo que o primeiro filme não conseguiu ao longo de seus 100 minutos, esse não leva mais de 15. Talvez o principal motivo para um Jesse e uma Celine que se comportam como seres humanos, e não como atendentes de livraria forçando amizade, seja o fato de que Ethan Hawke e Julie Delpy dividem os créditos do roteiro com Linklater. O primeiro filme, ele escreveu com a roteirista Kim Krizan, que só aparece nos créditos do segundo como co-criadora da história original. Depois de Antes do Amanhecer, ela não fez mais nenhum filme de destaque, o que a deixa numa posição de fácil acusação pelos equívocos do primeiro.

Com Delpy e Hawke também no controle criativo de seus personagens, Pôr-do-Sol deixa de ser um romance por grande parte de sua projeção porque quer mesmo mostrar quais as frustrações mais comuns dos trinta e poucos anos: a pressão de se achar a pessoa certa e uma carreira satisfatória. Só que a segunda frustração vai dando espaço à discussão da primeira na medida em que o filme avança, porque os dois vão percebendo a possibilidade cada vez mais real de resolvê-la.

Sendo Antes do Pôr-do-Sol um filme que nunca recorre a obviedades, a resolução vem por meio da imitação mais tosca da cantora Nina Simone já registrada em celuloide, mas também da frase mais romântica já criada em cima das palavras “perder” e “avião”.

Antes do Amanhecer

Posted in Cinema by Tiago Lopes on junho 12, 2013

Nessa sexta-feira, dia 14, estreia nos cinemas Antes da Meia-Noite, a última parte da trilogia iniciada em 1995 com Antes do Amanhecer. Para apreciar melhor a nova visita a Jesse e Celine em mais uma cidade europeia aleatória, acompanhe aqui, de hoje até sexta, resenhas dos três filmes.

Começando pelo que lançou a ótima ideia, mas acaba sendo o mais equivocado da trilogia. Antes do Amanhecer mostra um homem e uma mulher se conhecendo num trem em direção a Veneza no dia 16 de junho de 1994. Como todo jovem proto-intelectual, Jesse (Ethan Hawke) e Céline (Julie Delpy) preferem expor suas preferências em literatura e filosofia antes de qualquer coisa quando estão conhecendo alguém. Essa característica dos personagens é uma das mais óbvias também do cara que os criou. O início da carreira do diretor Richard Linklater é, numa análise superficial, a mesma trajetória que um universitário percorre: de um calouro maconheiro e socialmente engajado a um veterano pedante e tagarela.

Jovens, Loucos e Rebeldes é o segundo filme de Linklater, mas o primeiro que chamou a atenção do público. Mostra um grupo de jovens em 1976 no último dia de aula do ensino médio. Os diálogos não fogem da zona “sexo e drogas”, são constantemente engraçados e possui um elenco tão extenso quanto um filme de Robert Altman. Na sequência, Linklater fez Antes do Amanhecer, o oposto exato de Jovens: apenas dois atores, falando sobre morte e metafísica, sem nenhum humor ou qualquer identidade visual que facilitasse a experiência de ver dois pedantes discutindo basicamente quem tem o maior cartão de biblioteca.

Não que seja desagradável ver um casal com aspirações intelectuais discutindo no cinema. De Jean Renoir a François Truffaut, de Michelangelo Antonioni a Mike Nichols, vários diretores criaram obras geniais em cima desse molde. Só que Linklater esqueceu de colocar qualquer emoção entre Jesse e Céline. Ao longo do dia em que passeiam por Veneza, eles tocam muito superficialmente em assuntos de suas vidas pessoais. Quando, por exemplo, Jesse diz que seus pais são separados, é só mais uma brecha que ele usa para apresentar sua teoria sobre o impacto da influência na formação da personalidade.

E o filme é quase todo assim: eles usam uma experiência pessoal como desculpa para desfilar teorias que vão de reencarnação a feminismo. É um bombardeamento de ideias mal desenvolvidas tão intenso que antes de você terminar de bater o palmo na testa para a última tese besta do Jesse sobre a arte da adivinhação, já tem que estar pronto para revirar os olhos para a próxima da Céline sobre destino e conformismo. Até quando estão discutindo sobre sexo, seja falando de experiências passadas ou quando estão prestes a fazer, os dois analisam o ato sob os ângulos mais entediantes possíveis.

Quando finalmente decidem falar longamente apenas de experiências pessoais, o filme fica instantaneamente agradável. Pena que esses só são dois momentos. E em um, eles inventam até um truque para não parecer que estão se entregando assim tão facilmente: na sequência do restaurante, em que “interpretam” uma conversa telefônica com seus melhores amigos para dizer precisamente o que acham um do outro; e no final, quando estão prestes a se separar na estação de trem.

Essa última sequência é a única com algum sentimento do filme, onde os atores e o diretor tiveram o bom senso de perceber que é impossível intelectualizar uma despedida, especialmente nessas circunstâncias. Ethan Hawke e Julie Delpy, que até então não tinham feito muito além de declamar o roteiro, ficam extremamente vulneráveis, provocando uma empatia no espectador tão inesperada que é quase como receber um golpe brutal de emoção.

Linklater é um ótimo diretor, daqueles que investem em diversos gêneros e está em seu melhor quando estufa seu cinema de ficção. Parece uma declaração óbvia, mas as ideias de um autor, no cinema, precisam estar bem disfarçadas no meio de uma ficção instigante. Essa atrai e segura o público, que vai ficar ainda mais satisfeito com a experiência de ver o filme se descobrir por ele mesmo as intenções do autor.

Além de Antes do Amanhecer, Linklater colocou suas ideias em primeiro plano, em detrimento da ficção, de um jeito ainda mais radical em Waking Life, não por acaso, seu pior filme. Ao mostrar um bando de personagens vagando e falando a esmo sobre tópicos muito bonitos num livro, mas profundamente entediantes na tela, o diretor criou o trabalho mais pedante dos anos 2000. Tanto que ele mesmo aprendeu com esses erros. Anos depois, dirigiu a adaptação de O Homem Duplo, romance de Philip K. Dick,  com a mesma intenção de Waking Life, de usar o cinema para desfilar dezenas de teses filosóficas. Só que, ao contrário do filme ruim, O Homem Duplo sustenta todo o seu falatório intelectual numa história sensacional de um policial infiltrado num grupo de drogados que começa a perder a sua identidade.

Com as sequências de Antes do Amanhecer, essa evolução na maneira de fazer filmes de Linklater fica ainda mais evidente. Mas isso é assunto para a resenha do excelente Antes do Pôr-do-Sol, amanhã, por aqui.

Fim de caso depois de breve encontro com a morte

Posted in Cinema by Tiago Lopes on maio 10, 2013

As duas adúlteras mais famosas da literatura ocidental apelam para o suicídio quando seus amantes as decepcionam: já que a devoção deles é o único motivo pelo qual elas enfrentam a reprovação e aturam o desprezo da sociedade em que vivem, quando essa devoção diminui ou se manifesta em desacordo com o que elas esperam deles, o suicídio é a única saída. A primeira decisão original de Amor Profundo, que estreia hoje em cinemas selecionados, é mostrar a sua adúltera, Hester (Rachel Weisz), cometendo nos primeiros minutos do filme o que Anna Kariênina e Emma Bovary só fizeram nas últimas páginas dos livros que as acompanham.

Só que o filme não é só uma reconstrução em flashbacks do caso de Hester. Sua tentativa de suicídio falha e uma das intenções de Amor Profundo fica um pouco mais clara: se o arsênio não tivesse o efeito esperado por Bovary, se alguém tivesse puxado Kariênina antes dela se jogar, como seus amantes reagiriam, sabendo da intenção de suicídio?

Para ilustrar perfeitamente bem esse imbróglio, o diretor Terence Davies avança um pouco mais na linha temporal dos adultérios clássicos da ficção para construir seu filme, pegando emprestado elementos de dois pilares do cinema e da literatura do século XX: David Lean e Graham Greene.

Do primeiro, ele reproduz em Amor Profundo o mesmo tom (trilha sonora, edição, a maneira como a comédia interfere em um drama pesado) que Lean imprimiu a Desencanto, filme de 1945 que também conta a história de uma mulher dividida entre os confortos de um bom casamento e o amor experimentado em um caso extra-conjugal. O filme de Lean se passa na Londres de 1938; o de Davies, na Londres de 1950. Separando os dois, a Segunda Guerra Mundial e um tanto mais de liberdade nos discursos. Enquanto a adúltera do filme de Lean diz que o que ela sente por seu amante é amor, Hester admite, sempre que questionada, que o desejo pelo seu amante é puramente sexual.

Tanto que, nos momentos em que Amor Profundo faz uso de flashbacks, é para fornecer explicações sobre o comportamento frio do marido de Hester (numa sequência em que ambos visitam a sogra dela, onde os momentos mais tensos e engraçados do filme estão concentrados), e sobre a atitude despojada de seu amante (quando ele a leva para um pub e ela tenta acompanhá-lo enquanto canta em voz alta com seus amigos, num dos raros momentos de felicidade genuína no filme).

Quando Davies se volta para Graham Greene, especificamente Fim de Caso (seu romance que se passa em Londres, durante e após a Segunda Guerra) é para fornecer o peso exato a cada palavra que os membros do triângulo amoroso proferem durante suas discussões. Fim de Caso, que mostra um quadrilátero amoroso entre uma mulher, dois homens e Deus, tem os diálogos mais incisivos já suscitados por uma situação do tipo (sim, Greene arrepia mais em diálogos do que Tolstói e Flaubert). O roteiro de Davies, adaptado da peça de Terence Ratting, é econômico e impactante em igual medida. Cada frase dita pelos personagens, até mesmo os coadjuvantes, vai ressoar por um bom tempo em sua cabeça, por isso as discussões mais importantes são pontuadas por silêncios em que, houvesse uma intromissão mínima da trilha sonora, parte do drama se diluiria.

Se o trio de protagonistas não estivesse em sua melhor forma (Rachel Weisz, Tom Hiddleston e Simon Russell Beale nunca atuaram tão bem em filmes como aqui), as falas soariam pomposas demais, frias e distantes de qualquer possibilidade de empatia com o público. Como são raros os momentos de gritaria, o volume das vozes, as expressões, tudo é mostrado pelos atores da maneira mais comedida possível, carregando no drama, sem apelar para nenhuma manipulação. O filme também não dá piscadela óbvia às suas referências, o que faz de Amor Profundo uma obra que, apesar de se apoiar tanto em trabalhos alheios, se encerra em si mesma, especialmente porque mostra um final completamente diferente de tudo o que foi citado aqui (e uma bela moral para quem acha que o sentido da vida está exclusivamente na devoção a outra pessoa).

Desde Amor à Flor da Pele, último filme original sobre as implicâncias de uma traição a ser lançado, que o impasse de uma adúltera e a felicidade de um amante não provocam o montante exato de empatia necessária para que você se importe com a situação dos dois por muito tempo depois do fim da projeção.

Potencializando as regras do terror

Posted in Cinema by Tiago Lopes on abril 29, 2013
Proibidão da literatura

Com uma premissa que o diferencia ligeiramente do original (jovens se isolam numa cabana em local ermo para ajudarem um membro do grupo a se recuperar do vício em heroína), a refilmagem de A Morte do Demônio passa uma mensagem cifrada hilária sobre as dificuldades de superar um vício: a abstinência não só vai te deixar louco como dá brecha para o demônio te possuir e fazer você esfolar as faces dos seus amigos com um pedaço de vidro. Entre o vício e os horrores mostrados no filme, um viciado vai preferir morrer de overdose do que ser estuprado por uma árvore. Mas, ao contrário do original, a moral desse remake é a única boa piada do filme.

Infelizmente, depois do muito engenhoso O Segredo da Cabana, um filme de terror que mostra um grupo de jovens isolados numa cabine precisa se esforçar mais do que uma cheerleader correndo pela sua vida para provocar um interesse mínimo. Cada passo dos personagens de A Morte… em direção à liberação do demônio via a leitura de um livro que está lacrado com arame farpado lembra a sequência tremendamente engraçada de O Segredo… em que os personagens estão no porão “escolhendo” qual objeto que vai liberar a maldição que deve cair sobre eles. O que esvazia qualquer sensação de antecipação de tragédia que esse momento de A Morte… deveria provocar (fazendo da trilha sonora óbvia mais um entre os muitos elementos desnecessários desse início). 

Não ajuda que A Morte do Demônio tenha diálogos que variam entre falas constrangedoramente automáticas e frases de efeito que nunca provocam o efeito que os roteiristas esperavam. O que faz do início do filme mais uma simulação dramática capenga de um programa de auditório (parece que o elenco foi escolhido na filial americana da Escola de Atores Wolf Maia) do que algo que precisa suscitar a sua empatia por aqueles seres prestes a serem estilisticamente esquartejados.

Mas A Morte do Demônio, quando acerta, nos lembra que, felizmente, nem todo filme de terror precisa desconstruir as regras do gênero para ter alguma relevância no meio do cinismo cuidadosamente cultivado pela nossa geração (são poucos os exemplos, mas O Abismo do Medo, REC, REC 2, Arreste-me Para o Inferno e Sobrenatural  são alguns dos títulos recentes que não recorrem à metalinguagem para chamarem a sua atenção). A refilmagem do clássico de Sam Raimi optou por potencializar ao extremo as duas principais bases do gênero. O suspense nem sempre é bem dosado: quanto uma porta se fecha sozinha pela segunda vez, você para de pensar no poder do demônio e começa a se irritar com a possibilidade da cabine possuir um sistema de segurança insuportavelmente falho.

Mas quando o diretor Fede Alvarez acerta tanto no suspense quanto no gore na mesma sequência, caramba! Ao menos três provocam reações físicas na audiência dignas de uma aula extrema de pilates (as que envolvem os seguintes objetos: uma agulha, um pé-de-cabra e um estilete). O terceiro ato em especial é uma sandice que se estica por 15 minutos em que, a cada dez segundos, algo muito PUTA QUE O PARIU *BATE NO BRAÇO DA CADEIRA E LIGA PRA JESUS PEDINDO CLEMÊNCIA* acontece. Regras básicas de anatomia e da ciência do corpo humano são sumariamente ignoradas pelo bem do seu susto e da sua capacidade de se enojar. Essa última vai ser testada como ela raremente é.  

Ruim como filme, ótimo como catálogo de design

Posted in Cinema by Tiago Lopes on abril 10, 2013

Oblivion (estreia nessa sexta) é o primeiro de muitos filmes de ficção científica programados para 2013. Infelizmente, só aumenta a nuvem de dúvida sobre os que ainda estão por vir, já que é um filme tão desonesto, que suas poucas qualidades nem deveriam ser consideradas, dado o tamanho da ofensa com que insiste em tratar seu público.

Desde o primeiro minuto, qualquer pessoa que tenha assistido a ao menos dois filmes de ficção científica na vida mata a charada de Oblivion. Só que o filme trata seus segredos manjados como se fossem reviravoltas originais, que devem ser entregues aos poucos. Já na primeira frase da narração em off de Jack Hopper (um Tom Cruise com uma cara de pastel inédita em sua carreira), dá para notar que o herói trabalha para os chefes errados, sua esposa não é quem diz ser e a vitória dos humanos sobre os aliens na guerra que destruiu a Terra é uma história mal contada.

Até o quinto minuto de Oblivion, uma sirene gritando O VINGADOR DO FUTURO O VINGADOR DO FUTURO O VINGADOR DO FUTURO vai disparar na sua cabeça e só vai se calar quando a última piada involuntária sobre perda de memória/exploração de energia for feita. Aí entra a questão da desonestidade: copiaram, com míseras mudanças, uma história que já foi adaptada duas vezes para o cinema, sendo que a última foi lançada há apenas um ano. E essa mísera mudança copia o enredo de um outro filme, Lunar, lançado só há quatro anos.

Corta para as credenciais do diretor. A estreia de Joseph Kosinski no cinema foi com Tron: O Legado, um filme que não funciona como filme, mas que é um catálogo imperdível de design, especialmente se visto em IMAX. Essa mesma definição cabe para Oblivion. Há tempos que o apocalipse terrestre não parecia tão bonito como aqui. Ver Nova York soterrada, com suas fileiras de prédios servindo de fendas gigantes costeando os rios nos quais as ruas da cidade se transformou é uma experiência contemplativa que só o cinema consegue entregar.

Para melhorar a apreciação, ele não mostra a Terra sendo destruída, só os efeitos da invasão. Aliens destruíram a Lua, fazendo com que terremotos e outras tragédias domadas pelo satélite natural ocasionassem a destruição da Terra e consequente migração dos humanos sobreviventes para uma das luas de Saturno. Jack e sua esposa ficam na Terra, encarregados da manutenção dos drones, robôs que protegem o que sobrou do planeta de investidas alienígenas, porque máquinas gigantes continuam drenando água dos oceanos para transportá-la para a nova moradia da humanidade. Resumindo: os aliens investem contra essas máquinas, os drones evitam que isso aconteça e Jack precisa reparar eventuais falhas nos drones.

O protagonista explica tudo isso ao longo dos primeiros minutos do filme. Caso não tenha ficado claro para o espectador, o filme vai mostrar exatamente tudo o que Jack explicou em dois minutos ao longo de uma hora. É a redundância mais cara e desnecessária de Hollywood desde que Liam Neeson demorou uns 15 minutos explicando para a audiência como se joga batalha naval num filme que se chama BATALHA NAVAL.

Até o real conflito do filme se formar, o que torna tanta informação repetida aturável é o design. Numa das expedições para consertar um drone, Jack precisa entrar em uma biblioteca abandonada. Vemos um cenário sensacional servir de moldura para uma sequência de ação em que Jack não sabe em quem atira e a gente não está nem aí para o conflito. E o filme segue essa mesma dinâmica até o final.

O trailer de Oblivion entrega em dois minutos o que você só vai ver na segunda hora de filme, quando o diretor finalmente se cansa de mostrar em uma centena de maneiras diferentes a mesma informação. E, quando o conflito finalmente começa, a decepção em confirmar que é tudo um carbono anêmico de O Vingador do Futuro só é intensificada quando o filme entrega uma nova reviravolta, relembrando como Lunar é um filme sensacional.

O único momento em que Oblivion provoca curiosidade genuína é nos 10 minutos finais. Mas essa também é aniquilada quando finalmente aparece o — SPOILER (mesmo sendo impossível soltar um spoiler de um filme que copia tão mal outros filmes) — algoz maior: um HAL 9000, versão vagina (sério). Ao menos a última frustração de Oblivion é a melhor piada involuntária do ano.

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O Oscar continua cimentando balela

Posted in Cinema by Tiago Lopes on janeiro 10, 2013

A lista de indicados ao Oscar 2013 foi divulgada na manhã de hoje. Poucas surpresas, mas nem o óbvio eles souberam fazer direito esse ano. É bom que Lincoln, o novo filme de Steven Spielberg, esteja liderando a corrida, com 12 indicações. Se não vai ser lembrado pela sua escassa originalidade, o diretor e o roteirista Tony Kushner acertaram ao mostrar abordagens menos óbvias: é um filme sobre política que trata seu tema da maneira mais próxima possível, mostrando muito falatório, sem sentimentalismos ou discursos inflamados.

Se tiver que escolher um favorito com reais chances de ganhar em quase tudo, aposte em Lincoln. Nem que seja para que a dupla também responsável por Munique, top 5 Spielberg e um dos melhores filmes da década passada, seja finalmente premiada. Em 2006, Munique concorreu em cinco categorias e perdeu em todas. E aqui está o principal problema da maior premiação do cinema nos últimos anos: Munique perdeu a estatueta de melhor filme para Crash – No Limite, um filme muito ruim (pior, esquecível) dirigido por Paul Higgis, que não emplacou mais nada depois de levar o prêmio máximo da academia.

Para ter uma real dimensão da tragédia que é o Oscar de melhor filme em anos recentes, segue lista da maioria dos ganhadores desde 2001: Uma Mente Brilhante, Menina de Ouro, Crash, O Infiltrado, Quem Quer Ser Um Milionário, O Discurso do Rei e O Artista. Não conheço ninguém que cite esses filmes entre os seus favoritos de todos os tempo, favoritos da década que passou, favoritos da semana em que foram lançados. Mesmo os filmes citados dirigidos por experientes que quase nunca erram estão longe do ápice de suas carreiras. Danny Boyle, Clint Eastwood e Martin Scorsese nunca serão lembrados por seus filmes ganhadores do “prêmio máximo do cinema”.

Se esses caras tiveram o azar de serem reconhecidos com o carequinha por filmes bem menores do que os que costumam fazer, o equívoco em premiar algo como O Discurso do Rei se torna enormemente maior em comparação. E um dos filmes com mais indicações em 2013 é do mesmo diretor da história besta do rei gago. Os Miseráveis, adaptação de um musical que diminue o clássico de Victor Hugo a uma versão cantada de uma novela da Gloria Perez, foi indicado em sete categorias, inclusive melhor filme, com grandes chances de ganhar.

Esse ainda não foi exibido para a imprensa no Brasil, mas os críticos americanos ultrapassam com gosto a barreira de falar mal apenas do filme: falam da capacidade de direção de Tom Hooper como se ele fosse um calouro da pior faculdade de cinema do mundo. Impossível se empolgar com uma premiação que dá trela para esse tipo de amadorismo. Mas, as poucas surpresas desse ano mostram que, em algum nível, o Oscar ainda consegue ajudar a projetar para o grande público nomes experientes e tremendamente originais, que ainda não atravessaram a barreira em direção à popularidade. Abaixo, o melhor do Oscar 2013;

1) As cinco indicações de Amour

Michael Haneke, Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant

O filme do alemão Michael Haneke era certo como indicado e vencedor da categoria “filme estrangeiro”. Ainda cravou melhor filme, atriz, roteiro original e direção. Não deve ganhar o prêmio máximo, mas a melhor atuação feminina do ano é de Emmanuelle Riva, com uma vantagem tão larga, que deveria ocupar sozinha as cinco indicações dessa categoria.

2) As categorias de coadjuvantes

Todos os indicados a ator e atriz coadjuvante são o melhor dos filmes em que atuam. Até Robert De Niro, que não trabalha de verdade há uns 20 anos, e continua sem trabalhar, conseguiu um papel em um bom filme para adaptar a sua preguiça a uma atuação de verdade.

3) A categoria de filmes estrangeiros

Até agora, só não vi Kon-Tiki, da Noruega. Todos os outros são filmes excelentes e originais como nenhum da categoria principal consegue ser. Mesmo o menor título dos cinco, War Witch (exibido na Mostra de São Paulo do ano passado), tem mais culhão até que Django Livre: ao contar a história de uma garota sequestrada de sua vila por membros de um exército rebelde, para ser treinada para lutar na guerra civil, War Witch mostra sequências de uma violência tão real que pode, mesmo para os espectadores mais experientes, revirar um pouco o estômago. Os votantes dessa categoria provam mesmo que são os menos conservadores, quando selecionam um filme que mostra uma sequência de tentativa de estupro interrompida por uma gilete colocada dentro de uma vagina (e o filme não, veja bem, NÃO se apoia em choques fáceis).

4) A contínua ascensão de David O. Russell

Bradley Cooper, David O. Russell e Jennifer Lawrence

Desde o seu primeiro filme, Spanking the Monkey (como não foi lançado no Brasil, não tem título nacional, mas uma boa tradução seria Batendo Uma)*, Russell cria comédias sempre por ângulos inesperados. Procurando Encrenca (não tem nem em DVD no Brasil, mas está disponível via Netflix e recomendo com a ênfase de uma bigorna caindo em cima do Coiote) talvez seja a única grande comédia sobre famílias disfuncionais. Três Reis é o melhor filme de guerra dos anos 1990 (mais humor da próxima vez, Soldado Ryan). Huckabees – A Vida é uma Comédia junta Dustin Hoffman, Lily Tomlin e Isabelle Huppert numa comédia metafísica hilária (yeap) com Mark Wahlberg e Jason Schwartzman como protagonistas (yeap!).

Esse último é um filme tão absurdo que Russell demorou seis anos para fazer o próximo. Com o excelente O Vencedor, ele decidiu que estava na hora de popularizar o seu nome fornecendo seu costumeiro ângulo inesperado a uma história manjada (boxe, superação). Deu tão certo (indicado a sete, ganhador de dois Oscar) que ele decidiu continuar nessa linha editorial. O Lado Bom da Vida é mais uma de suas abordagens espertas em cima de outro tema manjado (doença mental, família disfuncional) e lhe garantiu oito indicações ao Oscar desse ano. É o raríssimo caso de um autor ligeiramente radical, que conseguiu controlar sua ousadia em troca de mais popularidade, sem nenhum prejuízo criativo.

5) As 4 indicações de Anna Karenina

Keira Knightley e Joe Wright

A adaptação de Joe Wright do clássico (maior livro ocidental?) de Tolstói dividiu os críticos tão logo estreou, o que é sempre uma vantagem extra a favor da originalidade de um filme. A academia não comprou os valores criativos desse, mas gostou do fato de que foi filmado inteiramente dentro de um teatro gigante. Anna Karenina foi indicado a melhor fotografia, figurino, trilha sonora e direção de arte. Vai ficar bonito no pôster: INDICADO A 4 OSCAR.

Joe Wright, Keira Knightley e a melhor adúltera da ficção merecem mais, bem mais. Mas reclamar de uma premiação que esnoba até Paul Thomas Anderson e seu The Master é ignorar a regra básica de que o cinema tem mecanismos próprios para dar o devido destaque às suas melhores obras. Como os seguintes títulos provam, esses mecanismos são totalmente independentes de premiações:

Intriga Internacional, Tempos Modernos, O Bebê de Rosemary, Brazil, Vertigo, Quando os Homens são Homens, Rastros de Ódio, Quanto Mais Quente Melhor, Meu Ódio Será Sua Herança, Janela Indiscreta, 2001: Uma Odisséia no Espaço, O Iluminado Alien são alguns nunca indicados ao Oscar de melhor filme, mas fiquem a vontade para preferir Crash – No Limite.

*Update: o leitor atento e pessoa sensata @guigaspar fez uma correção: Spanking the Monkey saiu sim no Brasil, com o título A Mão do Desejo (sempre confie nos responsáveis pelos títulos nacionais para se superarem continuamente no que fazem).

 

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Celeste, Jesse e a melhor trilha de 2012

Posted in Cinema, Música by Tiago Lopes on dezembro 6, 2012

Celeste e Jesse para Sempre (em exibição nos cinemas) deveria ter chamado mais atenção, ao menos pelo nobre esforço de escapar dos sólidos clichês de comédias românticas. A começar pela premissa: o filme inicia quando o casal principal já está separado e, pelo motivo rapidamente mostrado, é uma decisão sem volta. Jesse é um largado, que faz bicos de designer e mora no quarto dos fundos da ex-namorada, Celeste, que é tão bem-sucedida, que seu quarto dos fundos tem sala, cozinha, quarto e banheiro.

Sendo a incompatibilidade financeira (ou desajuste de ambições) o principal motivo do fim do relacionamento, eles terminam o casamento e conseguem manter uma relação bem convincente de amizade, já que o motivo do fim não foi por falta de confiança, traição, ou algo que deixasse algum resquício emocional negativo. Até que Jesse engravida, sem querer, uma das suas ficantes, sente a obrigação de finalmente amadurecer e Celeste percebe que o cara que tanto gosta finalmente está trabalhando no único aspecto da vida dele que não a agradava.

Taí um desenvolvimento genuíno em comédia romântica, mas que resulta em um impasse manjado: Celeste quer retomar o relacionamento com Jesse justamente quando ele faz a fila andar. Como os dois não tem não volta, grande parte do filme se ocupa em mostrar como Celeste vai da negação à superação dos seus sentimentos por Jesse, fazendo uma parada quase imperceptível no quesito “aceitação” e se tornando um fardo na vida dos amigos e de todos os caras que tentam dar em cima dela.

O que distância Celeste e Jesse – especialmente sua porção meio Bridget Jones – das comédias românticas melosas é o fato de Rashida Jones, que a interpreta e roteirizou o filme, ter construído uma personagem impossivelmente atraente, e não só para o público feminino (que deve se identificar com as lamúrias que uma situação do tipo provoca). Mas principalmente para o masculino.

Algumas sequências do filme mostram Celeste alugando os ouvidos de caras que, como de costume, só se submetem a esse tipo de conversa pensando no sexo depois da chorada no ombro. Os caras do filme pensam e dizem isso, mas antes, esperam consolá-la também do jeito convencional, porque ela realmente é uma boa companhia: engraçada pra caramba, bebe, fuma, disfarça decepção amorosa com umas danças constrangedoras na balada. E é a Rashida Jones, a atriz mais beleza carioca daquelas bandas.

Celeste e Jesse para Sempre, mesmo com uma protagonista mulher, se estende para além do “feito para mulheres” de um jeito tão consciente e bem sucedido, que, às vezes, parece algo dirigido por Judd Apatow. Há ainda o clima bacana e quase ininterrupto de balada do filme, ajudado pela trilha sonora mais original de 2012: uma mixtape formada por indies e faixas soul bem distantes de escolhas óbvias. Aqui, uma compilação de todas as ótimas músicas executadas no filme.

Artes marciais, por Wong Kar-Wai

Posted in Cinema by Tiago Lopes on novembro 5, 2012

Wong Kar-Wai é um cineasta chinês que está prestes a lançar o seu décimo filme. Não existe um entre os nove anteriores que não seja menos que excelente. Até mesmo a sua estreia em filme de língua inglesa, Um Beijo Roubado, tem muita Rachel Weisz andando em câmera lenta para desmentir a recepção fria e injusta que recebeu da crítica.

Foi divulgado hoje o novo trailer do seu próximo filme, The Grandmaster, que parece trazer, senão uma mudança de foco dos seus temas usuais, ao menos a adição de mais uma camada, e uma muito sensacional (como já tinha feito anteriormente em um único filme, o excelente Cinzas do Passado): ação e um bocado de lutas coreografadas de um jeito incrível e violento.

Kar-Wai costuma filmar amores impossíveis de um jeito originalmente delicado: seus romances passam bem distante do rótulo de “filmes de mulherzinha”, porque ele nunca criou uma cena ou diálogo óbvios e filma tudo de um jeito altamente estilizado. The Grandmasters, segundo a breve sinopse do IMDB, conta a história do mestre das artes marciais Ip Man, o homem que treinou Bruce Lee.

O extenso e sensacional trailer ainda não tem legendas em inglês, mas, pela presença de uma Zhang Ziyi mais linda do que nunca, Kar-Wai deve balancear o tal do amor impossível com as melhores lutas desde O Tigre e o Dragão. Como, ao contrário de Ang Lee, ele tem um cuidado absurdo com a originalidade das composições de suas imagens, suas lutas devem ter um impacto ainda maior. Merece uma reserva poupuda de cota de ansiedade para ser visto.

Atropelando a fórmula

Posted in Cinema by Tiago Lopes on outubro 22, 2012

Os produtores tinham a intenção óbvia de fazer desse o 007 mais envernizado: contrataram um diretor oscarizado (Sam Mendes, de Beleza Americana, do estupendo Soldado Anônimo); chamaram John Logan, parceiro mais recente de Martin Scorsese (roteirizou A Invenção de Hugo Cabret e O Aviador), para se juntar a dupla de colaboradores regulares da série, Neil Purvis e Robert Wade. Mendes contratou o diretor de fotografia Roger Deakins (colaborador de longa data dos irmãos Coen), colocou Javier Bardem como vilão, Ralph Fiennes como novo personagem.

Tudo em Skyfall tem uma estampa mais chamativa, em relação aos outros 22 filmes da série. Ainda assim, apontá-lo como o melhor da franquia, como muitos vêm fazendo, é precipitado. Por enquanto, pode-se dizer que é, de longe, o mais plasticamente bonito. Mas 007 ainda é, independente de qualquer camada de verniz, uma série de filmes de ação. Skyfall, como havia suspeitado logo quando o primeiro trailer e a breve sinopse foram divulgados, é o primeiro filme da série que faz com que Bond se importe com uma família. Sam Mendes não consegue fazer a ação que permeia uma história tão delicada ser memorável, mas todo o resto é.

Em Cassino Royale, Bond se apaixona de verdade por Vesper. Em Quantum of Solace, passa o filme inteiro de luto por ela. Em Skyfall, nem se dá ao trabalho de cortejar nenhuma mulher (ele traça duas, mas sem esforço nenhum), porque está muito ocupado tentando salvar a vida de M. O vilão, também ineditamente, não quer destruir países, atacar regimes ou roubar riquezas, só quer se vingar de M, que por sua vez, vira alvo do próprio governo britânico quando, em uma missão comandada por ela e executada por Bond, perde uma lista contendo os nomes de todos os agentes em campo do MI6.

Judi Dench é a Bond girl de Skyfall e o filme segue nessa contra-corrente de protagonistas jovens em cinema de ação, não só colocando-a no centro da história, como apontando o Bond de Craig constantemente como um cara velho demais para o seu trabalho. Se em Cassino Royale ele falhava bastante porque não tinha experiência de campo, em Skyfall, suas falhas provem de articulações enferrujadas e outros males da idade. Sévérine, a Bond girl anunciada (uma Bérénice Marlohe com crazy eyes de arrepiar), aparece tão rapidamente que sua personagem funciona mais como um dado extra da maldade do vilão do que alguém realmente importante para a trama (ainda assim, ela arrebenta muito no pouco tempo de tela que ocupa).

Sam Mendes tem dificuldades em criar tensão em suas sequências de ação. Compensa destruindo coisas de maneiras originais e orquestrado-as em locações com uma direção de arte bem chamativa. Também continua arrepiando muito quando coloca  personagens em confronto psicológico e, pela primeira vez em sua filmografia, os personagens nunca esbravejam quando travam esses conflitos. A primeira aparição de Silva (Javier Bardem como Clodovil, como Marta Suplicy) é a melhor entrada de um vilão em toda a série. Não contente em se apresentar com um monólogo intimidante e assustador, Silva trava com Bond o diálogo mais hilário da história da franquia logo em seguida, fazendo aparecer o primeiro de muitos pontos superlativos de Skyfall sobre os outros filmes da série.

Esse se estende por um tempo bem maior que a média dos anteriores (2 horas e 23 minutos) porque Mendes, depois que marca todos os quadradinhos de sequências obrigatórias em um filme da franquia, se dá o direito de construir o seu final original. O último ato de Skyfall é de uma beleza e de uma gravidade sem tamanho, acontece numa locação inesperada (mas óbvia para o grande tema do filme), entrega a tensão que faltou às sequências de ação anteriores, explode coisas de maneiras ainda mais espetaculares e fecha mais um ciclo na vida do Bond de Daniel Craig.

Fazendo dezenas de referências a outras entradas da franquia (convém não estragar nenhuma piada) e preparando sabiamente o terreno para novas abordagens, Skyfall é um 007 que se distancia do tom dos outros filmes para ser a abordagem mais diferente de James Bond até agora. Seria injusto com os outros apontá-lo como o melhor, quando ele se beneficia tanto das fórmulas estabelecidas anteriormente, especialmente quando decide dobrá-las ou ignorá-las por completo.

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