Da Década!

Muita quaresma para pouco deserto

Posted in Literatura, Sem-categoria by Tiago Lopes on julho 4, 2016

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Na primeira entrevista da escritora Maria Valéria Rezende (MVR) divulgada depois de ter sido premiada com o Jabuti de melhor romance de 2015, ela aproveitou o megafone como alguém que não confia na eficácia da linguagem insípida de assessoria para vender um produto: “não aguentava mais livro de jovem jornalista frustrado porque não consegue terminar romance sobre jovem jornalista que quer ser escritor”. Em duas linhas, MVR esclareceu bem porque seu peixe é mais fresco do que o da concorrência: se distanciou de patotas, mostrou que se importa com algum planejamento narrativo e se impôs com uma rabissaca verbal de deixar os olhos do Kanye West brilhando.

O enredo do livro premiado, Quarenta Dias, é uma plataforma bem confiável dessas tamancas altas: a professora Alice é intimada pela filha, Norinha, a mudar-se de João Pessoa para Porto Alegre, onde Norinha planeja ter o bebê de seu marido sulista, promovendo sua mãe a avó e babá por tempo integral enquanto cuida da própria carreira. Alice resiste, Norinha joga sujo e sua mãe finalmente cruza o Trópico de Capricórnio com ela, munida de uma cara amarrada por nó de marinheiro e muito lamento pela rotina que deixou em João Pessoa.

Nesse cabo de guerra entre mãe e filha, a família é convocada a tomar partido, extraindo de Alice uma compreensão milagrosa de disputas consanguíneas e dando a Quarenta Dias seu primeiro impulso à grandeza. Como combustível extra, MVR expõe a narrativa em primeira pessoa por meio de um fluxo de consciência que ignora as convenções sintáticas para que as ansiedades de Alice saiam de sua cabeça para a do leitor quase inalteradamente.

Já em Porto Alegre, Norinha dá outra rasteira na mãe, mas a passividade de Alice impede Quarenta Dias de seguir pela promissora rota “Mildred Pierce no Brasil Profundo”: ao invés de sentar uma mãozada no juízo da filha, Alice se acovarda do confronto fugindo da própria casa para vagar a esmo pelas beiradas de Porto Alegre, usando como desculpa a busca pelo filho desaparecido da amiga de uma amiga de João Pessoa e iniciando a quaresma sinalizada no título. A partir daí, o livro segue a estrada cheia de curvas fechadas do romance de cunho social, e MVR e Alice derrapam em quase todas.

O tamanho físico do livro já denuncia o erro de MVR ao jogar Alice nas ruas por quarenta dias só para incitar paralelos com eventos bíblicos de igual duração (Jesus no deserto, israelitas seguindo para a Terra Prometida): depois de 3/4 do total de páginas, Alice ainda está no sexto dia de sua jornada. Se tivesse passado o quarto final em coma num hospital, suscitaria menos enfado do que a repetição da rotina que já havia estabelecido nos dias e páginas anteriores. MVR também ignora a necessidade de multidimensionar esses personagens marginalizados: a voz que ela quer dar aos marginalizados vira um grunhido distorcido graças à perspectiva estreita de sua protagonista.

Uma que chega a ser ofensiva: Alice está tão fascinada pela privação das famílias pobres e dos moradores de rua que encontra em sua peregrinação que chega a igualar a sua situação à deles, ignorando que eles não têm o privilégio que ela possui de cansar de brincar de sem-teto e voltar para casa quando quiser. Ela, que começa sua jornada como uma vítima dos abusos da filha, e uma que provoca empatia genuína, a termina como alguém que corre atrás de sofrimentos desnecessários para fugir de problemas solúveis, muito como os personagens dos escritores que MVR achincalha sem medo de ser barrada na porta da Mercearia. Ainda assim, Quarenta Dias tem toda a cara de ser o 808s & Heartbreak que precede o My Beautiful Dark Twisted Fantasy da literatura BR, só aguardar que logo mais a obra de MVR deve se erguer ao seu muito bem-vindo discurso.

A patetice válida de Philippe Garrel

Posted in Sem-categoria by Tiago Lopes on janeiro 24, 2013

Não conheço Philippe Garrel além dos seus três filmes mais recentes: Amantes Constantes, A Fronteira da Alvorada e Um Verão Escaldante. O primeiro, vi há quatro anos e ainda lembro bem da sensação de ter gostado bastante daquele ritmo cadenciado e de um Kinks disparado numa festa. O terceiro, vi quando estreou nos cinemas, escrevi sobre aqui e continuo achando tudo isso desse. O segundo, assisti há pouco e teve o efeito negativo de potencializar os muitos defeitos dos dois anteriores, mas também possui os melhores argumentos pró-Philippe Garrel.

A Fronteira da Alvorada é um filme mal escrito, com grande parte dos diálogos explicitando mais o estado de espírito dos personagens do que parecendo falas possíveis ditas por pessoas experimentando esses dramas. Como em seus outros filmes, os personagens de Alvorada sofrem muito, mas muito mesmo por amor. Só que, ao invés do filme justificar a escalada de tanto amor entre eles para que, quando atingisse o auge e disparasse os conflitos todos, nos importássemos com tudo aquilo, em cinco minutos de projeção, Carole (Laura Smet) já está dizendo para François (Louis Garrel) que ele é o amor da sua vida e que ela não vai conseguir viver sem ele.

A passagem do tempo nos filmes de Garrel costuma ser abrupta e larga, o que pode servir de desculpa para justificar tamanha doação em uma relação mostrada em tão pouco tempo de filme. Mas esses pulos temporais espaçados não acontecem na primeira metade de Alvorada, fazendo do amor declarado de Carole por François mais resultado de carência beirando o distúrbio emocional do que uma sensação crível. Mais na frente, sabemos que o problema de Carole é realmente fruto de um distúrbio, mas François é uma pessoa sã e, mesmo assim, não se acanha em ecoar na mesma intensidade os sentimentos dele por ela, duplicando a quantidade de diálogos estupidamente óbvios e fazendo dos dois um par de trouxas.

Garrel não deixa que os seus personagens ajam como personagens, prefere construí-los como panfletos que divulgam emoções genéricas ao invés de senti-las, fazendo com que trabalhem mais em prol da mensagem do filme do que no desenvolvimento cuidadoso de suas histórias pessoais (caminho natural para gerar alguma empatia).

Mas é justamente na mensagem explícita que transmite que Garrel se redime. A história de A Fronteira da Alvorada (a mensagem) só faz sentido nos três minutos finais do filme, depois de mostrar muita gente falando muita idiotice o tempo inteiro. Garrel continua metendo no meio da história principal observações sócio-políticas com a convicção de um adolescente que acabou de assistir A Lista de Schindler.

Em um momento, François está na cama com Carole e, do nada, fala: “quando o último sobrevivente dos campos de concentração morrer, a Terceira Guerra Mundial vai começar”. Carole responde: “você é o amor da minha vida”. A cena acaba aí, da maneira como começou: sem nenhum sentido prático para a história do filme. Em outra sequência, igualmente abrupta e desconectada de todo o filme, François está em um bar, ouvindo um velhinho se auto-declarar, com orgulho, um anti-semita. François responde: “eu sou um judeu” e a sequência acaba, não só servindo para nada no filme como provocando um revirar de olhos tão poderoso que faz até barulho.

Mas a pior intromissão desse espírito DCA vem mais na frente, quando François procura um amigo para falar sobre o medo de se casar. O amigo diz que ele está com “medo da felicidade burguesa” e você queria mesmo uma coleira para segurar seus globos oculares.

Mas a mensagem maior do filme é válida e, no final, você sente que vale a pena aturar tanta infantilidade e procurar equilibrar os adjetivos “panaca” e “sincero” para acompanhar o nome de Garrel. François não consegue esquecer Carole nem quando está prestes a casar com a mulher que ele acredita ser o amor da sua vida (Ève, uma personagem tão mal escrita que consegue, de uma tacada só, explicitar o quão machista o diretor é e como ele não tem pudor de sacrificar qualquer senso de continuidade a favor da mensagem). Ignorou Carole quando podia e, agora que ela não está mais por perto, François não consegue superá-la, de um jeito tão penoso que prefere se sacrificar a continuar vivendo com esse arrependimento.

A sequência final é bonita, ligeiramente assustadora e dá um estofo ao filme que, até então, faltando três minutos para acabar, não existia, porque finalmente mostra os efeitos trágicos de incitar tanta carência por meio de mentira. A Fronteira da Alvorada é um filme de execução preguiçosa, mas com uma “moral da história” tão válida que até parece que Philippe Garrel a construiu com algum esforço, o que não é o caso.

*A Fronteira da Alvorada saiu depois, mas, como vi antes outro filme em que a Laura Smet faz papel semelhante, A Dama de Honra (Claude Chabrol), me irritei ainda mais com a preguiça de Garrel. Nesse filme, ela também faz uma doida que ama demais. Só que como Chabrol entende de ironia, piada e suspense, a personagem de Smet em A Dama de Honra é sensacional de um jeito que nenhuma personagem mulher criada por Garrel consegue ser.

*Apesar disso, Garrel filma mulheres de um jeito raro hoje em dia: só coloca lindezas de pouca roupa em poses inesperadas na frente das câmeras. O que explicita ainda mais seu machismo, mas, como não estou no negócio de queimar sutiãs, nem me incomodo.

Cedendo ao óbvio

Posted in Cinema, Sem-categoria by Tiago Lopes on março 10, 2011

Judd Apatow disse que esperava que o Woody Allen parasse de fazer filmes como uma desculpa para se distrair do medo de morrer. Foi a opinião mais suscinta e respeitosa sobre o Allen dos últimos dez anos. As críticas negativas feitas aos seus filmes recentes são sempre acompanhadas de uma lamentação pela sua fase áurea. As duas opniões disparadas em lados opostos dos textos, sem qualquer conexão uma com a outra, como se um bodysnatcher tivesse se apossado do Woody desde a década de 80.

Antes de desconsiderar qualquer obra, acredito que um autor mantém até o fim da vida o mesmo senso apurado que o fez esconder rascunhos de idéias ruins do público, levando adiante apenas aquelas que, posteriormente, seriam vistas como uma fileira irretocável de trabalho. Os filmes do Altman formam essa fileira. O próprio afirmava que todos os seus filmes resultam de uma produção muito pessoal e, quando finalizados, são exatamente como ele queria que fossem. Se Dr. T lhe parece um filme ruim, pense que você ainda não o viu sob o ângulo certo e precisa acumular algum tipo de conhecimento específico, colocando-o em um contexto mais amplo, por exemplo, para justificar suas falhas. Se o Altman dizia que nunca fez nada que não fosse planejado, isso parece mais uma afirmação acurada do que um rompante de falsa modéstia, vindo de alguém que fez Nashville.

Só que o Allen é bem mais flexível sobre o seu trabalho, especialmente o mais recente. Sempre diz que não consegue parar de escrever e filmar porque precisa se distrair de trinta e dez tipos de ansiedade. Mas ele criou Purple Rose of Cairo e seria bom se os naysayers entendessem que ainda está lúcido o suficiente para não lançar um trabalho ruim toda vez que passa em frente a uma funerária. Se o problema dos filmes que não agradam é mais preguiça do que experimentalismo ininteligível, é no mínimo educado da nossa parte procurar e se agarrar ao que é válido.

You Will Meet A Tall Dark Stranger é o mais monótono da safra recente. Entenda como monótono o fato do filme seguir, na maior parte do tempo, em apenas um tom, sem mudanças bruscas. Também é o único da última década que mostrou ao menos duas coisas originais se comparadas com toda a sua obra, com uma personagem que está entre as suas melhores criações. É na Helena que o Woody deposita a perversidade que pratica regularmente com suas personagens mulheres. Em um resumo grosseiro, ele costuma fazer delas pessoas muito esperançosas e otimistas, negando ao final tudo o que elas esperam. A Helena só quer encontrar um novo companheiro depois que o seu marido a abandonou por uma mulher bem mais jovem. E se apega a um recém viúvo. Eles partilham um interesse por assuntos sobrenaturais, sendo esse o maior motivo dos dois se gostarem, mas também principal atestado da ingenuidade de ambos.

É por essa brecha que o Allen cria uma das suas sequências mais dolorosas. Pouco depois da Helena se convencer de que o Jonathan é o homem que vai lhe trazer paz de espírito – como previsto pela vidente – e estar satisfeita com a reciprocidade, a gente se convence de que o Allen está velhinho e, finalmente, cedeu à felicidade. Uma que foi sugerida e incitada por uma vidente, mas nem por isso menos empolgante. Já estava convencido de que a Helena teria uma resolução feliz no filme, quando Jonathan a convida para uma sessão espírita, em que ele tenta invocar a sua falecida esposa. Helena se sente traída e tem um ataque de histerismo muito breve, engraçado e ao mesmo tempo profundamente deprimente: o Allen nega mais uma vez uma resolução otimista, mesmo depois de ter aparentemente cimentado essa decisão. 

No final, ele decidiu fazer com que os dois se unissem para explicitar o mote maior do filme, que vinha sendo sublinhado pela teimosia de todos os outros personagens: é preferível se contentar com o que temos, porque a vida é curta e mudanças drásticas podem vir acompanhadas de frustrações idem. Mesmo sabendo que o Jonathan não tinha superado a morte da sua mulher, Helena decide ficar com ele e ainda consegue se vingar do seu ex-marido, que tenta a reconciliação depois de se tocar do desastre que será o seu casamento com a moça mais jovem.

É uma resolução irônica: no fundo, Helena vai ter só a ilusão de felicidade, porque já está consciente de que ela também é só uma substituta de um inalcançável padrão ideal. Mas qualquer coisa é melhor do que a solidão, especialmente quando você começa a confrontar o medo da proximidade da morte.

O que leva à outra adição original ao seu escopo: a maneira como tratou a morte. É possível que o próprio Allen me prove errado em seus próximos filmes, mas essa talvez seja sua grande obra sobre o tall dark stranger. Em todos os seus filmes, ele enfrenta a sua maior ansiedade com alguma piada, quase sempre ancorada em seu ateísmo duvidoso. Se tomarmos os seus filmes como obras de cunho extremamente pessoal, o motivo da descrença do Allen em Deus é bem egoísta, porque quase sempre citada quando ele toma consciência da sua finitude. Só que em You Will Meet A Tall Dark Stranger, ele se permite, pela primeira vez, acreditar que ter fé em algo alivia essa ansiedade. Para quem conhece os filmes do Allen, perceber essa mudança brusca de opinião só pode ser algo sinceramente único e admirável.

~:)

Posted in Sem-categoria by Tiago Lopes on abril 20, 2010

Ocupado com umas coisas aí. Me formando a contragosto, para honrar todos os centavos gastos em ônibus durante seis anos, principalmente. A Mischa é bonita né? Assim, muito mesmo. Queria que ela fosse algo mais nessa vida. Tô do lado da tua empregada Mischa, só quero o teu bem. Tenho twitter agora ó —> @landshark_

Causa maior de arrependimento no porvir

Posted in Sem-categoria by Tiago Lopes on dezembro 29, 2009

Nessa década, recorreu-se bastante à figura do anti-herói sob a justificativa de aproximar o homem comum do fruto da sua imaginação mais boazinha. O conceito já tenta apresentar a sua existência fazendo uso de um prefixo que quer eliminar sozinho a noção de “herói” acimentada por séculos altos nas cabeças das pessoas todas. Tá claro que chamar esse tipo de personagem de “anti-heroi” é insistir num equívoco besta. A noção limpa e esterilizada de “herói” é a noção correta e exata. Recorrer a um “anti” para denominar essas figuras que guardam características tortas – comportamento levemente heróico, mas um cheio de brechas, preenchidas por falhas comuns a gente comum – de um herói não só não é suficiente, como o uso indevido e exagerado do termo será visto pelos futuros autores de documentários da BBC sobre esses tempos que acabam de passar como um dos equívocos mais engraçados da humanidade. Tão engraçado quanto elogio ao Philip Roth pós-2004 e surgimento do viagra.

(O uso indevido da epifania em séries de tv também será devidamente condenado daqui a alguns decênios. Por enquanto, a gente segue gostando, se entretendo com o esforço dos roteiristas em criar enredos intrincados para, em segundos de expressão facial jizz in my pants, dar high-fives em toda a galera e proclamar o fim do dia).

“No reputation left to destroy”: ha ha ha*

Posted in Cinema, Literatura, Música, Sem-categoria by Tiago Lopes on abril 16, 2009

O Castelo dos Destinos Cruzados é okey, com a nota final ajudando numa compreensão melhor da coisa toda e meio que sabotando-a também. Fiquei com a impressão de que todo o intricado e difícil trabalho que o Calvino falou que sofreu para elaborar a segunda parte é um tanto quanto nhé quando você presta bem atenção no seguinte: por mais que ele detalhe os significados das cartas, para elas não parecerem com outra coisa além da que ele está dizendo que são em determinado momento, dá pra notar que o senhor meio que perdeu o critério de verossimilhança. Em algum ponto do final, uma carta podia ser qualquer coisa que ele quisesse que fosse. Essa free-and-loosidade toda também se estende ao leitor, qualquer coisa que eu quero que uma carta seja, ela vai ser, é só eu arranjar uma desculpa que não envergonhe a vizinhança pra ligar todas elas. Então, o esclarecimento que a nota faz no final, quando o Calvino diz que quase abandonou tudo por não conseguir ligar os contos da segunda parte, soa como uma auto-valorização de um trabalho que nem foi tão grande sim. A parte em que ele acha três peças do Shakespeare no meio das cartas confirma o que eu tô querendo dizer.

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The Substance of Style é uma série de artigos da Moving Image Source sobre as principais influências do Wes Anderson. É dividido em cinco parte: Bill Melendez, Orson Welles, and François Truffaut, Martin Scorsese, Richard Lester, and Mike Nichols, Hal Ashby, Salinger e um vídeo do prólogo do Royal Tenenbaums com umas anotações. Não li nada ainda, por falta de unidades temporais disponíveis, mas me senti impelido a indicar (‘impelido’ as ‘showing my google skills’).

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Ler algumas das resenhas já publicadas sobre Moscou (Coutinho) tem me dado mais satisfação do que a sentida em quase todos os filmes que eu vi esse ano. Com algum exagero, afirmo isso a vocês.

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O disco é irregular e esse vídeo parece bastante influenciado pelas últimas incursões no gênero feitas por george michael, mas a música é BOA, bem boa.

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quê mais? quê mais?

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Dr. Jules Meecham: You mean you don’t drink?
Reverend David Ruteledge: No.
Dr. Jules Meecham: In other words, when you get up in the morning that’s as good as you’re gonna feel all day.

ou

Shelby Munker: Well I try to do natural things. A lot of people in my family died of cancer. Bye.
Ruby Sparr: They… they died of cancer smoking pot?

E esses nem são os diálogos mais engraçados de A Wedding, um dos melhores do Altman. Sério. Já já deve chegar em dvd com o tratamento de luxo da Criterion Collection. Daí, se algum crítico do fim dos 70 ainda estiver vivo e tiver que rever, vai engolir tudo o que escreveu de negativo sobre essa maravilha na época. Gosto muitão daqueles dois grandes planos se abrindo no início do filme: um sobre a igreja e o outro sobre a casa aonde a festa de recepção acontece. O plano final é mais bonito ainda. E o timing. O Altman criou uma espécie de ritmo pra comédia que ninguém conseguiu imitar, ou se aproximar com cuidado suficiente para citar como influência. A maneira como as piadas são montadas aos poucos, uma sequência sendo interrompida por outra, culminando num punch-line sempre hilário das duas (nos melhores filmes), merece uma apreciação respeitosa, no mínimo. Os trejeitos esnobes e um tanto imutáveis que os atores sustentam por quase todo o filme passa uma falsa impressão de que eles são só um mero tamborete para o que realmente importa (a joke). Mas é só falsa mesmo. Tenta você ser esnobe por 30 minutos seguidos que sejam. Acho que só a Kristin Scott Thomas nasceu com o dom de parecer esnobe o tempo todo. Mas só usou-o bem uma única vez (em Gosford Park, sim sim).

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Já que citei Criterion, deixo aqui o link para as listas de top’s 10 dos filmes já lançados por ela, feitas por umas galeras massas aí. Tem de Mike Allred a Adam Yauch (a lista dele é a mais engraçada).

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*Embróglio mais divertido do ano, até agora. Se o cara ganhar a causa com uma desculpa dessas, é o fim do mundo civilizado como o conhecemos. Kids today…

“MTV makes me wanna smoke crack” é causa da culpa moderna

Posted in Sem-categoria by Tiago Lopes on fevereiro 27, 2009

Desde que o Beastie Boys e o Beck ficaram sem graça, ninguém mais conseguiu chegar ao nível de entertainment que eles chegaram. GRAÇA eles tinham enquanto faziam a música mais egoísta de toda a curta história da música pop. Tudo o que o Beck fez antes do Mutations e o Beastie Boys antes do To The 5 Buroughs são livres de qualquer citação a outrem ou algo usados para outra coisa além de dar uma satisfação extremamente pessoal a quem os propaga. Sexual delight, na maioria dos casos. Se os anos 90 foram a década do cinismo, ninguém conseguiu elevar essa bandeira a tão alto pico quanto essa trinca de Bs.

Eles eram produtos de uma conjunção de fatores que creio ser impossível de reproduzir novamente, constatação que me deixa meio triste, já que a esbórnia toda que só eles sabiam fazer não será mais nunca recriada. Eram brancos, de classe média, infanto-juvenis quando atingiram reconhecimento nacional, e sem qualquer ligação política declarada (ou sem qualquer ligação política mesmo, que é o mais provável). Só essas condições já riscaram da lista de prioridades de suas letras uma penca de assuntos secundários: racismo, pobreza, existencialismo, monogamia e música militante. Não consigo pensar em outros assuntos que tornem uma música instantaneamente menos divertida do que esses. E outra, o produto branco, classe média, despolitizado e cheio de sarcasmo pra dar deve estar mais desvalorizado nos dias de hoje do que churrasquinho de gato.

Atualmente, quem se propõe a entreter as massas oferecendo coisa boa de verdade sempre arranha ou é especialista em uma dessas temáticas. O próprio Beck e todos do Beastie Boys já construiram discos inteiros em cima de alguma dessas variantes, mas há a desculpa de que eles cresceram, casaram. Só dá pra manter o bom senso nesse estado sem querer emular uma criançona de 40 anos. Certo eles. Mas, por mais que eu respeite a M.I.A., o LCD Soundsystem, o Vampire Weekend, sempre fico com a impressão de que eles deviam ser mais cínicos só um pouco, pra que a esbórnia que eles fazem com tanto gosto em suas músicas chegue ainda mais perto da criada pelos senhores absolutos.

Sei que é meio absurdo querer que a nostalgia pelos good-old-days seja aplacada por gente que evita a todo custo comparações com outros e quer atingir seu lugar único. Eles atingem, mas fazem uso de tanto ranço terceiro-mundista, tanto existencialismo de brechó, que não ficam imunes a uma eventual acusação de cafonice ou de deslocamento temático. A M.I.A. é a melhor e mais improvável descendente do Clash que já ouvi, e “Jimmy” é esbórnia a granel, mas é só uma música no meio de um mar de reclamações contra a opressão do capitalismo, do homem branco, do calor senegalês (literalmente). James Murphy já despontou no business com idade e temas favoritos do seu tio preferido. O Vampire Weekend é limpinho demais, mauricinho demais para falar coisas como “passing the dutchee from coast to coast” ou “had to diss the girl because she got too emotional”.

O melhor é que todo esse egocentrismo era realmente valorizado nos anos 90, o que só aumenta ainda mais a chateção de ter crescido no tempo errado. Só para se ter uma idéia, fica aqui um vídeo do Beck cantando a clássica “One Foot In The Grave”, música de um dos seus discos lançados por um gravadora independente e longe do reconhecimento que “Devil’s Haircut”, por exemplo, obteve. So many people… It gives me the shivers:

Daí que já estamos em 2009 e essa foi a década de quê mesmo? Do bundismo generalizado?

o outro é o medo de estar próximo a um transportador de oxigênio

Posted in Sem-categoria by Tiago Lopes on janeiro 25, 2009

Antes de sentir a traseira do palio vermelho encostar na lateral do seu joelho direito e notar que, à medida em que o carro ia descendo mais ainda a leve inclinação da ladeira do estacionamento, seu joelho direito era empurrado com uma força cada vez maior; tentou ficar em pé e fez com que a força do carro contra a lateral do seu joelho direito chegasse também ao seu joelho esquerdo, fazendo com que suas pernas ficassem numa inclinação incômoda, como um triangulo em que o cateto ‘a’ seria a distância entre o chão e a traseira do carro e o cateto ‘b’ seria a distância entre a traseira do carro e os seus joelhos e a hipotenusa fosse toda a extensão das suas pernas, a ponto de elas não mais conseguirem se mexer, impossibilitando ao rapaz uma fuga da força da traseira do palio vermelho e fazendo com que, enfim, seus dois joelhos se partissem exatamente no ponto em que a traseira do palio vermelho havia encostado e forçado todo o peso do restante do carro com a ajuda da leve inclinação do  chão do estacionamento, deixando dois ossos quebrados de maneira irregular, e ele viu que estavam quebrados de maneira irregular porque, antes de cair com o ombro esquerdo no chão, a dor dos joelhos se partindo conseguiu chamar a sua atenção para o exato momento em que esses se partiram e perfuraram a pele e ficaram expostos a uma temperatura amena de 25° na sombra, já que o rapaz agora ocupava um espaço sombreado, quando caiu no chão e viu a traseira do palio vermelho continuar seu caminho irrefreável em direção à rua, fazendo com que a visão do sol fosse gradativamente substituída pelo escuro da parte de baixo do pálio vermelho, lugar sob o qual ele agora se encontrava completamente escondido, tornando um tanto mais difícil uma possível ajuda de um passante não tão distraído quanto ele. Antes de tentar adormecer para não sentir o sangue que escapava das perfurações em sua pele – abertas pelas irregulares pontas de ossos partidos – chegar às pernas e deixá-las todas pegajosas, atraindo insetos e animais de pequeno porte que porventura consiguissem localizá-lo embaixo do carro, lembrou que, antes de sentir a traseira do palio vermelho encostar na lateral do seu joelho direito, havia prestado atenção exagerada à motorista que acabara de sair do palio vermelho e em como o quê a sua roupa vestia excluía qualquer dúvida que pudesse existir sobre essa mulher ser uma exceção à regra de que o corpo feminino não possui espaço o suficiente para abrigar beleza em excesso e alguma esperteza acima da média. Antes de adormecer, riu da maneira como seu argumento foi ratificado pela falha da mulher que possuía apenas beleza em excesso.

harry rag

Posted in Sem-categoria by Tiago Lopes on outubro 21, 2008

Essa parada de indignação é coisa estranha demais. É o catch-22 do nowadays: é fácil se afastar da origem da indignação e escolher tomar um banho ao invés de dar piti. Mas tá lá ela, se exibindo em praticamente todo pedaço visível de matéria, aí fica difícil dizer que não se importa. Há o fator possibilidade também: a indignação cresce proporcionalmente aos buracos de despejos de reclamação, tendo em blogs seu receptáculo de maior diâmetro.

Então, isso aqui é alguma coisa que eu pretendo nunca mais repetir.

Nem queria reclamar aqui não. Só queria ir lá mesmo, postar “burros” e dar destaque ao adjetivo usando todas as ferramentas de ênfase criadas por Deus via word e photoshop. Primeiro, digitava em caixa alta e em um tom de cor destacado; depois, colocava a trindade itálico-sublinhado-negrito. Aí criava uma animação de uns piscas-piscas natalinos ao redor e aumentava para um tamanho inédito a fonte dos caracteres. Postava lá, sob o risco de ter a minha sincera opinião censurada e recusada. “Lá” é um fórum de discussão onde vários intelequituais debateram nos últimos dias sobre… adivinhem só… é inacreditável!… e todos possuem mais de 30 anos!!… supostamente lêem livros!!!… professores universitários*!!!!… ÉTICA NO JORNALISMO.

Queria virar um caminhão de sorvete da kibon, pegar todos os cornetos, tocar a campanhia de cada um desses opinadores e alocar agressivamente o sorvetão em suas testas. Enquanto eles conjecturam sobre os motivos do meu gesto – um ato fascista? um ato de direita? um ato anti-ético? – eu já estaria em casa, postando outro “burros” com os mesmo recursos enfáticos usados anteriormente, só que, dessa vez, ao invés de piscas-piscas, colocaria vários pintos cabeludos ao redor, sob o perigo de, em uma semana, ver a minha obra impressa, emoldurada e exposta na frente da capitania das artes.

*Quase um atestado de ignorância nos dias de hoje. Ao menos eu, em apenas quatro anos de universidade, nunca ouvi sair da boca de um acadêmico (a) algo que não instalasse em mim um imediato desejo de vomitar sangue na cara do orador em questão.