Da Década!

O Oscar continua cimentando balela

Posted in Cinema by Tiago Lopes on janeiro 10, 2013

A lista de indicados ao Oscar 2013 foi divulgada na manhã de hoje. Poucas surpresas, mas nem o óbvio eles souberam fazer direito esse ano. É bom que Lincoln, o novo filme de Steven Spielberg, esteja liderando a corrida, com 12 indicações. Se não vai ser lembrado pela sua escassa originalidade, o diretor e o roteirista Tony Kushner acertaram ao mostrar abordagens menos óbvias: é um filme sobre política que trata seu tema da maneira mais próxima possível, mostrando muito falatório, sem sentimentalismos ou discursos inflamados.

Se tiver que escolher um favorito com reais chances de ganhar em quase tudo, aposte em Lincoln. Nem que seja para que a dupla também responsável por Munique, top 5 Spielberg e um dos melhores filmes da década passada, seja finalmente premiada. Em 2006, Munique concorreu em cinco categorias e perdeu em todas. E aqui está o principal problema da maior premiação do cinema nos últimos anos: Munique perdeu a estatueta de melhor filme para Crash – No Limite, um filme muito ruim (pior, esquecível) dirigido por Paul Higgis, que não emplacou mais nada depois de levar o prêmio máximo da academia.

Para ter uma real dimensão da tragédia que é o Oscar de melhor filme em anos recentes, segue lista da maioria dos ganhadores desde 2001: Uma Mente Brilhante, Menina de Ouro, Crash, O Infiltrado, Quem Quer Ser Um Milionário, O Discurso do Rei e O Artista. Não conheço ninguém que cite esses filmes entre os seus favoritos de todos os tempo, favoritos da década que passou, favoritos da semana em que foram lançados. Mesmo os filmes citados dirigidos por experientes que quase nunca erram estão longe do ápice de suas carreiras. Danny Boyle, Clint Eastwood e Martin Scorsese nunca serão lembrados por seus filmes ganhadores do “prêmio máximo do cinema”.

Se esses caras tiveram o azar de serem reconhecidos com o carequinha por filmes bem menores do que os que costumam fazer, o equívoco em premiar algo como O Discurso do Rei se torna enormemente maior em comparação. E um dos filmes com mais indicações em 2013 é do mesmo diretor da história besta do rei gago. Os Miseráveis, adaptação de um musical que diminue o clássico de Victor Hugo a uma versão cantada de uma novela da Gloria Perez, foi indicado em sete categorias, inclusive melhor filme, com grandes chances de ganhar.

Esse ainda não foi exibido para a imprensa no Brasil, mas os críticos americanos ultrapassam com gosto a barreira de falar mal apenas do filme: falam da capacidade de direção de Tom Hooper como se ele fosse um calouro da pior faculdade de cinema do mundo. Impossível se empolgar com uma premiação que dá trela para esse tipo de amadorismo. Mas, as poucas surpresas desse ano mostram que, em algum nível, o Oscar ainda consegue ajudar a projetar para o grande público nomes experientes e tremendamente originais, que ainda não atravessaram a barreira em direção à popularidade. Abaixo, o melhor do Oscar 2013;

1) As cinco indicações de Amour

Michael Haneke, Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant

O filme do alemão Michael Haneke era certo como indicado e vencedor da categoria “filme estrangeiro”. Ainda cravou melhor filme, atriz, roteiro original e direção. Não deve ganhar o prêmio máximo, mas a melhor atuação feminina do ano é de Emmanuelle Riva, com uma vantagem tão larga, que deveria ocupar sozinha as cinco indicações dessa categoria.

2) As categorias de coadjuvantes

Todos os indicados a ator e atriz coadjuvante são o melhor dos filmes em que atuam. Até Robert De Niro, que não trabalha de verdade há uns 20 anos, e continua sem trabalhar, conseguiu um papel em um bom filme para adaptar a sua preguiça a uma atuação de verdade.

3) A categoria de filmes estrangeiros

Até agora, só não vi Kon-Tiki, da Noruega. Todos os outros são filmes excelentes e originais como nenhum da categoria principal consegue ser. Mesmo o menor título dos cinco, War Witch (exibido na Mostra de São Paulo do ano passado), tem mais culhão até que Django Livre: ao contar a história de uma garota sequestrada de sua vila por membros de um exército rebelde, para ser treinada para lutar na guerra civil, War Witch mostra sequências de uma violência tão real que pode, mesmo para os espectadores mais experientes, revirar um pouco o estômago. Os votantes dessa categoria provam mesmo que são os menos conservadores, quando selecionam um filme que mostra uma sequência de tentativa de estupro interrompida por uma gilete colocada dentro de uma vagina (e o filme não, veja bem, NÃO se apoia em choques fáceis).

4) A contínua ascensão de David O. Russell

Bradley Cooper, David O. Russell e Jennifer Lawrence

Desde o seu primeiro filme, Spanking the Monkey (como não foi lançado no Brasil, não tem título nacional, mas uma boa tradução seria Batendo Uma)*, Russell cria comédias sempre por ângulos inesperados. Procurando Encrenca (não tem nem em DVD no Brasil, mas está disponível via Netflix e recomendo com a ênfase de uma bigorna caindo em cima do Coiote) talvez seja a única grande comédia sobre famílias disfuncionais. Três Reis é o melhor filme de guerra dos anos 1990 (mais humor da próxima vez, Soldado Ryan). Huckabees – A Vida é uma Comédia junta Dustin Hoffman, Lily Tomlin e Isabelle Huppert numa comédia metafísica hilária (yeap) com Mark Wahlberg e Jason Schwartzman como protagonistas (yeap!).

Esse último é um filme tão absurdo que Russell demorou seis anos para fazer o próximo. Com o excelente O Vencedor, ele decidiu que estava na hora de popularizar o seu nome fornecendo seu costumeiro ângulo inesperado a uma história manjada (boxe, superação). Deu tão certo (indicado a sete, ganhador de dois Oscar) que ele decidiu continuar nessa linha editorial. O Lado Bom da Vida é mais uma de suas abordagens espertas em cima de outro tema manjado (doença mental, família disfuncional) e lhe garantiu oito indicações ao Oscar desse ano. É o raríssimo caso de um autor ligeiramente radical, que conseguiu controlar sua ousadia em troca de mais popularidade, sem nenhum prejuízo criativo.

5) As 4 indicações de Anna Karenina

Keira Knightley e Joe Wright

A adaptação de Joe Wright do clássico (maior livro ocidental?) de Tolstói dividiu os críticos tão logo estreou, o que é sempre uma vantagem extra a favor da originalidade de um filme. A academia não comprou os valores criativos desse, mas gostou do fato de que foi filmado inteiramente dentro de um teatro gigante. Anna Karenina foi indicado a melhor fotografia, figurino, trilha sonora e direção de arte. Vai ficar bonito no pôster: INDICADO A 4 OSCAR.

Joe Wright, Keira Knightley e a melhor adúltera da ficção merecem mais, bem mais. Mas reclamar de uma premiação que esnoba até Paul Thomas Anderson e seu The Master é ignorar a regra básica de que o cinema tem mecanismos próprios para dar o devido destaque às suas melhores obras. Como os seguintes títulos provam, esses mecanismos são totalmente independentes de premiações:

Intriga Internacional, Tempos Modernos, O Bebê de Rosemary, Brazil, Vertigo, Quando os Homens são Homens, Rastros de Ódio, Quanto Mais Quente Melhor, Meu Ódio Será Sua Herança, Janela Indiscreta, 2001: Uma Odisséia no Espaço, O Iluminado Alien são alguns nunca indicados ao Oscar de melhor filme, mas fiquem a vontade para preferir Crash – No Limite.

*Update: o leitor atento e pessoa sensata @guigaspar fez uma correção: Spanking the Monkey saiu sim no Brasil, com o título A Mão do Desejo (sempre confie nos responsáveis pelos títulos nacionais para se superarem continuamente no que fazem).

 

Tagged with:

Celeste, Jesse e a melhor trilha de 2012

Posted in Cinema, Música by Tiago Lopes on dezembro 6, 2012

Celeste e Jesse para Sempre (em exibição nos cinemas) deveria ter chamado mais atenção, ao menos pelo nobre esforço de escapar dos sólidos clichês de comédias românticas. A começar pela premissa: o filme inicia quando o casal principal já está separado e, pelo motivo rapidamente mostrado, é uma decisão sem volta. Jesse é um largado, que faz bicos de designer e mora no quarto dos fundos da ex-namorada, Celeste, que é tão bem-sucedida, que seu quarto dos fundos tem sala, cozinha, quarto e banheiro.

Sendo a incompatibilidade financeira (ou desajuste de ambições) o principal motivo do fim do relacionamento, eles terminam o casamento e conseguem manter uma relação bem convincente de amizade, já que o motivo do fim não foi por falta de confiança, traição, ou algo que deixasse algum resquício emocional negativo. Até que Jesse engravida, sem querer, uma das suas ficantes, sente a obrigação de finalmente amadurecer e Celeste percebe que o cara que tanto gosta finalmente está trabalhando no único aspecto da vida dele que não a agradava.

Taí um desenvolvimento genuíno em comédia romântica, mas que resulta em um impasse manjado: Celeste quer retomar o relacionamento com Jesse justamente quando ele faz a fila andar. Como os dois não tem não volta, grande parte do filme se ocupa em mostrar como Celeste vai da negação à superação dos seus sentimentos por Jesse, fazendo uma parada quase imperceptível no quesito “aceitação” e se tornando um fardo na vida dos amigos e de todos os caras que tentam dar em cima dela.

O que distância Celeste e Jesse – especialmente sua porção meio Bridget Jones – das comédias românticas melosas é o fato de Rashida Jones, que a interpreta e roteirizou o filme, ter construído uma personagem impossivelmente atraente, e não só para o público feminino (que deve se identificar com as lamúrias que uma situação do tipo provoca). Mas principalmente para o masculino.

Algumas sequências do filme mostram Celeste alugando os ouvidos de caras que, como de costume, só se submetem a esse tipo de conversa pensando no sexo depois da chorada no ombro. Os caras do filme pensam e dizem isso, mas antes, esperam consolá-la também do jeito convencional, porque ela realmente é uma boa companhia: engraçada pra caramba, bebe, fuma, disfarça decepção amorosa com umas danças constrangedoras na balada. E é a Rashida Jones, a atriz mais beleza carioca daquelas bandas.

Celeste e Jesse para Sempre, mesmo com uma protagonista mulher, se estende para além do “feito para mulheres” de um jeito tão consciente e bem sucedido, que, às vezes, parece algo dirigido por Judd Apatow. Há ainda o clima bacana e quase ininterrupto de balada do filme, ajudado pela trilha sonora mais original de 2012: uma mixtape formada por indies e faixas soul bem distantes de escolhas óbvias. Aqui, uma compilação de todas as ótimas músicas executadas no filme.

Pulp, festivais fracos e shows para ver ainda em 2012

Posted in Música, Shows e festivais by Tiago Lopes on novembro 29, 2012

Com raras exceções (Justice? Tv On The Radio?), nenhum dos melhores shows de 2012 aconteceu nos principais festivais de música de São Paulo. A apresentação dos britânicos do Pulp na noite de quarta-feira, dia 28, no Via Funchal, em São Paulo, só inflou o pacote de argumentos de que a curadoria desses eventos (Lollapalooza, Planeta Terra, Sónar) foi especialmente equivocada em 2012. E, se contarmos a partir dos excelentes shows da Feist (que aconteceram nos dias 22 e 23 de outubro em São Paulo, e no dia 24, no Rio de Janeiro), a programação desse último trimestre dá um line-up bem mais decente que os desses três festivais*.

Se, por um lado, ver um show da sua banda favorita num lugar onde ela é a única atração garante uma experiência ainda mais completa, por outro, sua conta bancária é quem mais sua nessa maratona. Com o preço do ingresso de um dia de festival na média de R$ 200, e cada apresentação de uma banda isolada cobrando cerca de R$ 150, se você sacrificasse seis shows ao longo do ano, conseguiria ir a ao menos um dia de três festivais diferentes, com a possibilidade de ver cinco bandas por dia, ao invés de apenas uma. E economizando um outro bocado em transporte e bebidas. Mas quem, de posse de ao menos 15% de saúde mental, deixaria de ver nem que fosse apenas a execução da música This Is Hardcore ao vivo por um dia do Lollapalooza Brasil 2012?

Esse momento do show do Pulp foi o ápice de uma apresentação que durou 2 horas e 20 minutos, nunca se alongou em pausas por mais de três minutos (nem durante os dois intervalos que precederam os bis) e mostrou um Jarvis Cocker com uma vontade de agradar o público bem superior a 90% dos vocalistas que apalparam mulatas no Brasil em 2012.

Foi além do “tudo bem?” em português (falou de “massa” a “sinistro”) e rebolou e desmunhecou o suficiente para ser a síntese perfeita de todos os tios bêbados em festas de casamento ao redor do mundo. A longo prazo, provou que, assim como os shows da turnê do Pavement em 2010, reuniões de bandas tão sensacionais como essas têm que acontecer ao menos de cinco em cinco anos, não importa que sejam motivadas especificamente pelo dinheiro (nada de material novo, músicas executadas no palco sem mudanças significativas das versões do disco). Quem cria álbuns como Different Class e Crooked Rain, Crooked Rain, tem moral para brincar com nossa memória afetiva sem culpa nenhuma, de ambos os lados.

Sublinhar a execução de This Is Hardcore como o melhor momento de um show do Pulp, que caprichou absurdamente na empolgação ao executar hits mais famosos e mais velozes, como Common People, Babies e Mis-Shapes, é fugir da redundância: esses hits provocariam pulos coreografados de 100% do público presente mesmo se fossem tocadas em versão “pau e lata”. Mas, tanto This Is Hardcore como outras músicas menos óbvias da banda, como Like A Friend, Sunrise e Bar Italia, pegaram de surpresa parte do público que, se não respondeu com a mesma empolgação, ao menos ficou quieto sustentando um olhar de reverência hipnótico em direção ao palco. Quem conhecia mesmo o Pulp, talvez nunca mais se esgoele tanto ao cantar junto com um vocalista numa apresentação ao vivo.

*Abaixo, uma lista com breves comentários dos ótimos shows que devem acontecer no Brasil ainda esse ano (devem né, taí a cadela doente da Fiona Apple para estraçalhar nossas expectativas):

Dirty Projectors

Os zé-doidinhos dessa ótima banda novaiorquina tocam daqui a pouco no Rio de Janeiro, no Circo Voador, com ingressos de R$ 70 a R$ 140. Amanhã, tocam em São Paulo, no Cine Joia. Os ingressos para essa apresentação já estão no segundo lote, de R$ 60 a R$ 120.

Supercordas

Nesse fim de semana, fazem em São Paulo o último show do ano. A Mágica Deriva dos Elefantes é tão bom que até sem a ajuda do “nacional”, continua entre os melhores discos de 2012.

01/12 – São Paulo
Studio SP
De R$ 15 a R$ 40.

Ben Kweller

Ah, Ben Kweller! Meu eu de 15 anos custa a acreditar que vou finalmente ver um show desse cara ao vivo (se Grandaddy e Eels se apresentarem por aqui nos próximos meses, volto a usar camisa básica da C&A diariamente, em memória a esses anos de outrora). E ele continua gravando boas músicas. Esse ano, lançou Go Fly A Kite: ótimo título, faixas meio automáticas (até para os padrões Ben Kweller), mas You Can Count On Me vale umas centenas de audições. RunSha Sha, aquela e outras tantas já fazem desse show um melhor que metade do line-up do último Terra.

04/12-São Paulo
Sesc Vila Mariana
De R$ 6 a R$ 24 (e ainda tem o custo/benefício mais alinhado com as diretrizes econômicas do Brasil)

06/12-Rio de Janeiro
Imperator
De R$ 40 a R$ 80

Norah Jones

Tem que ser um ser humano muito derrubado para não gostar de Norah Jones. Ainda mais depois da sua participação no filme Ted, onde prova que tem um senso de humor bem desprendido. E ela tem uma vontade constante de ampliar o escopo da sua música, como a excelente Sinkin’ Soon e o seu mais recente disco, Little Broken Hearts, provam. Os ingressos para os shows em São Paulo (15/12) e no Rio de Janeiro (16/12) já estão esgotados. Para a apresentação em Porto Alegre (12/12), os ingressos custam de R$ 170 a R$ 240. Clique aqui para mais informações.

Top 5 candidatas a proibidões das baladas

Posted in Música by Tiago Lopes on novembro 21, 2012

À esquerda, The Party God

Dia desses, numa maratona não planejada, acabei indo ao menos em duas baladas por noite ao longo de um fim de semana e escutei em 70% das discotecagens a mesma música, uma com mais de 30 anos de idade, de ampla aceitação entre o público, mas que é tão executada, que já deveria ter esgotado a sua cota de rotatividade no mundo há ao menos uma década.

Claro que sou eu quem está errado. Tivesse ficado em casa mais tempo, teria economizado uma grana e ganhando uns cinco anos extra de vida útil do fígado. Mas ouvindo em um curto espaço de tempo discotecagens de dê-jotas variados, foi fácil perceber que a aparência entre eles é inversamente proporcional ao gosto por escolhas óbvias no som.

E não é só mandar uma Satisfaction entre uma música do Ty Segall e outra do Dismembermant Plan. É tocar uma seleção de duas horas que mais parece um best of dos best ofs da Jovem Pan lançados nos anos 90. Músicas tão manjadas, que o pagodeiro desavisado que entrou na balada errada vai saber cantar ao menos o refrão de todas as músicas escolhidas pelo DJ, que usa camisa do Sonic Youth para não passar a mensagem errada, mas é pego na mentira quando toca o combo mais repetitivo que fast forward em filme pornô formado por Rage Against the Machine, Pearl Jam e Alice in Chains.

Para tentar colocar alguma sensibilidade na cabeça dos dê-jotas desse Brasil, segue um top 5 das músicas que deveriam ser proibidas em discotecagens de baladas indie/rock/eletrônica/pop e subgêneros. Longe de querer ensinar vossas senhorias a fazer vossos trabalhos (até dias desses, minha banda favorita era Diante do Trono). Mas é porque é chato pra caramba pagar umas dezenas de reais para escutar músicas de alta rotação no táxi, no supermercado e na casa do tio do pavê.

5º) Rock The Casbah – The Clash

Tremenda música de uma tremenda banda. Mas até o grupo menos connoisseur de cultura pop desse país (políticos? ufanistas?) deve conhecer a piada da “Charlize, que saudade!”, de tanto que ouviram nos by nights das FMs, e quiçá AMs, do Brasil desde que foi lançada, no longínquo ano de 1982.

Substitua por: Look Here, do incrível e, caramba, ainda meio ignorado Sandinista!

 4º)  Killing in the Name – Rage Against the Machine

Quando tocam essa, qualquer pessoa sensata sai no prejuízo: as mulheres são enxotadas da pista, empurradas pelos caras que ainda classificam músicas em seus iPods como “rock nacional” e “rock internacional”. Esses mesmos caras acham que todos curtem um corpo a corpo violento mediado por muito suor. E raios! Para cada minuto de atenção que vocês dão a essa banda, um yuppie de Wall Street enrica na base de uns 2%. É uma pena que, com tanta internet por aí, esses caras ainda consigam formar público novo entre pessoas que acreditam que o efeito é justamente o contrário.

Substitua por: combata a crítica de condomínio fechado com ironia em estado puro: a banda de pagode evangélico do ex-jogador Marcelinho Carioca, Divina Inspiração. Não é um Raça Negra, não é um É o Tchan, esses que a indiezada já adotou há um tempo. É um troço que nem o Carioca deve lembrar que já existiu. É futebol, pagode e cristianismo juntos, numa colisão de Brasil pré-Lula que deixaria até Sérgio Buarque de Holanda sem jeito. E qualquer um com mais de 20 anos vai lembrar na hora ao menos dos primeiros versos, as minas vão chamar outras minas “porque vocês não vão acreditaaaaaar no que tá tocando”. Enfim, só vantagem.

 3º) Bizarre Love Triangle – New Order

Parece que o gosto incansável por essa está intimamente ligado à descoberta de drogas mais pesadas pelas pessoas que ainda se importam com com a execução pública do clássico do New Order. Perceba que, quando tocada, a pista lota de gente com mais de 30 anos, se movendo em velocidade colombiana.

Substitua for: se a ideia é manter esse grupo demográfico animado, vá de Can’t You Hear Me Knocking, uma das melhores, mais animadas e menos executadas músicas dos Rolling Stones em pistas desse (ouso dizer) mundo. Vai trocar uma de sete minutos por outra de mesma duração, suingue superior e escolha bem mais surpreendente.

 2º) Lust For Life – Iggy Pop

Enquanto vocês refletem sobre a execução excessiva dessa música desde que foi lançada, aproveitem e pensem também sobre como Cova Rasa é bem superior a Trainspotting.

Substitua por: qualquer uma do The Stooges. The Stooges está sempre em falta nas casas de esculhambação desse país.

 1º) Psycho Killer – Talking Heads

A música a qual me refiro no primeiro parágrafo desse apanhado de generalizações rasteiras (mas reais ^^) é essa. Nem preciso elaborar muito sobre a necessidade urgente de criminalizar quaisquer execuções futuras dessa música do Talking Heads. A sagacidade do dê-jota que toca essa nos dias de hoje tá no nível da desses caras: http://www.youtube.com/watch?v=6RUKolPEsDA

Substitua por: não entendo como LCD Soundsystem ainda é tão pouco tocado nas quebradas. Quando a banda ainda estava por aí, qualquer dê-jota de churrascaria alardeava seu amor  incondicional pelo James Murphy. Mas, tirando uma All My Friends aqui, uma Daft Punk Is Playing At My House ali, é raro ouvir alguma coisa da banda em baladas. E até já acabou. Se dê-jota óbvio é dê-jota que só toca velharia óbvia, pode usar isso como desculpa. Com 30 megas de conexão chegando até no interior do Ceará, LCD Soundsystem já pode ser considerado tão antigo quanto Mozart. A essa altura, uma música como Yeah deveria ser primeiro lugar nessa lista, de tão obviamente massa e não-ignorável que é, a primeira escolha de qualquer dê-jota preguiçoso. Mas segue reclusa a fones de ouvido, a saída menos recomendada para se ouvir essa catarse de awesomeness.

 P.S.: o link da imagem do texto é um gif da animação Adventure Time, uma das coisas mais criativas e engraçadas já veiculadas na TV desde que Henry Winkler pulou sobre um tubarão em Arrested Development.

Artes marciais, por Wong Kar-Wai

Posted in Cinema by Tiago Lopes on novembro 5, 2012

Wong Kar-Wai é um cineasta chinês que está prestes a lançar o seu décimo filme. Não existe um entre os nove anteriores que não seja menos que excelente. Até mesmo a sua estreia em filme de língua inglesa, Um Beijo Roubado, tem muita Rachel Weisz andando em câmera lenta para desmentir a recepção fria e injusta que recebeu da crítica.

Foi divulgado hoje o novo trailer do seu próximo filme, The Grandmaster, que parece trazer, senão uma mudança de foco dos seus temas usuais, ao menos a adição de mais uma camada, e uma muito sensacional (como já tinha feito anteriormente em um único filme, o excelente Cinzas do Passado): ação e um bocado de lutas coreografadas de um jeito incrível e violento.

Kar-Wai costuma filmar amores impossíveis de um jeito originalmente delicado: seus romances passam bem distante do rótulo de “filmes de mulherzinha”, porque ele nunca criou uma cena ou diálogo óbvios e filma tudo de um jeito altamente estilizado. The Grandmasters, segundo a breve sinopse do IMDB, conta a história do mestre das artes marciais Ip Man, o homem que treinou Bruce Lee.

O extenso e sensacional trailer ainda não tem legendas em inglês, mas, pela presença de uma Zhang Ziyi mais linda do que nunca, Kar-Wai deve balancear o tal do amor impossível com as melhores lutas desde O Tigre e o Dragão. Como, ao contrário de Ang Lee, ele tem um cuidado absurdo com a originalidade das composições de suas imagens, suas lutas devem ter um impacto ainda maior. Merece uma reserva poupuda de cota de ansiedade para ser visto.

Atropelando a fórmula

Posted in Cinema by Tiago Lopes on outubro 22, 2012

Os produtores tinham a intenção óbvia de fazer desse o 007 mais envernizado: contrataram um diretor oscarizado (Sam Mendes, de Beleza Americana, do estupendo Soldado Anônimo); chamaram John Logan, parceiro mais recente de Martin Scorsese (roteirizou A Invenção de Hugo Cabret e O Aviador), para se juntar a dupla de colaboradores regulares da série, Neil Purvis e Robert Wade. Mendes contratou o diretor de fotografia Roger Deakins (colaborador de longa data dos irmãos Coen), colocou Javier Bardem como vilão, Ralph Fiennes como novo personagem.

Tudo em Skyfall tem uma estampa mais chamativa, em relação aos outros 22 filmes da série. Ainda assim, apontá-lo como o melhor da franquia, como muitos vêm fazendo, é precipitado. Por enquanto, pode-se dizer que é, de longe, o mais plasticamente bonito. Mas 007 ainda é, independente de qualquer camada de verniz, uma série de filmes de ação. Skyfall, como havia suspeitado logo quando o primeiro trailer e a breve sinopse foram divulgados, é o primeiro filme da série que faz com que Bond se importe com uma família. Sam Mendes não consegue fazer a ação que permeia uma história tão delicada ser memorável, mas todo o resto é.

Em Cassino Royale, Bond se apaixona de verdade por Vesper. Em Quantum of Solace, passa o filme inteiro de luto por ela. Em Skyfall, nem se dá ao trabalho de cortejar nenhuma mulher (ele traça duas, mas sem esforço nenhum), porque está muito ocupado tentando salvar a vida de M. O vilão, também ineditamente, não quer destruir países, atacar regimes ou roubar riquezas, só quer se vingar de M, que por sua vez, vira alvo do próprio governo britânico quando, em uma missão comandada por ela e executada por Bond, perde uma lista contendo os nomes de todos os agentes em campo do MI6.

Judi Dench é a Bond girl de Skyfall e o filme segue nessa contra-corrente de protagonistas jovens em cinema de ação, não só colocando-a no centro da história, como apontando o Bond de Craig constantemente como um cara velho demais para o seu trabalho. Se em Cassino Royale ele falhava bastante porque não tinha experiência de campo, em Skyfall, suas falhas provem de articulações enferrujadas e outros males da idade. Sévérine, a Bond girl anunciada (uma Bérénice Marlohe com crazy eyes de arrepiar), aparece tão rapidamente que sua personagem funciona mais como um dado extra da maldade do vilão do que alguém realmente importante para a trama (ainda assim, ela arrebenta muito no pouco tempo de tela que ocupa).

Sam Mendes tem dificuldades em criar tensão em suas sequências de ação. Compensa destruindo coisas de maneiras originais e orquestrado-as em locações com uma direção de arte bem chamativa. Também continua arrepiando muito quando coloca  personagens em confronto psicológico e, pela primeira vez em sua filmografia, os personagens nunca esbravejam quando travam esses conflitos. A primeira aparição de Silva (Javier Bardem como Clodovil, como Marta Suplicy) é a melhor entrada de um vilão em toda a série. Não contente em se apresentar com um monólogo intimidante e assustador, Silva trava com Bond o diálogo mais hilário da história da franquia logo em seguida, fazendo aparecer o primeiro de muitos pontos superlativos de Skyfall sobre os outros filmes da série.

Esse se estende por um tempo bem maior que a média dos anteriores (2 horas e 23 minutos) porque Mendes, depois que marca todos os quadradinhos de sequências obrigatórias em um filme da franquia, se dá o direito de construir o seu final original. O último ato de Skyfall é de uma beleza e de uma gravidade sem tamanho, acontece numa locação inesperada (mas óbvia para o grande tema do filme), entrega a tensão que faltou às sequências de ação anteriores, explode coisas de maneiras ainda mais espetaculares e fecha mais um ciclo na vida do Bond de Daniel Craig.

Fazendo dezenas de referências a outras entradas da franquia (convém não estragar nenhuma piada) e preparando sabiamente o terreno para novas abordagens, Skyfall é um 007 que se distancia do tom dos outros filmes para ser a abordagem mais diferente de James Bond até agora. Seria injusto com os outros apontá-lo como o melhor, quando ele se beneficia tanto das fórmulas estabelecidas anteriormente, especialmente quando decide dobrá-las ou ignorá-las por completo.

Tagged with: ,

Oliver Stone e a crítica de meme de Facebook

Posted in Cinema by Tiago Lopes on outubro 15, 2012

Oliver Stone: nem aí para a burguesia

Se não morrer de uma maneira trágica, é possível que Oliver Stone tenha o seu trabalho esquecido tão logo deixe de fumar sua última ponta. Com duas dúzias de filmes sob a sua direção, Stone é um cineasta panfletário que insiste em passar mensagens mais descuidadas e ingênuas que meme político de Facebook. Se Michael Bay é apontado como a escória criativa da indústria, ele ao menos não é desonesto sobre o que faz. Já Stone, além de não ter mostrado uma nesga de ideia original em 30 anos de carreira, ainda tenta dar a seus filmes vergonhosamente oportunistas um verniz de cinema denúncia.

Analisando superficialmente a sua filmografia, quase todos os que dirigiu são uma tentativa de capitalizar em cima do que quer que estivesse nas manchetes na época do lançamento ou de tendências da indústria do cinema. Assassinos por Natureza se aproveitava de um jeito raso do debate tão em voga nos anos 90 da violência no entretenimento. Alexandre quis tirar uma lasquinha da leva de filmes-de-sandália iniciada com Gladiador e acabou sendo o pior de todos.

W.  foi só mais um dos muitos xingamentos feitos a George W. Bush, no período em que até as suas filhas já tinham perdido o pudor em falar mal dele. World Trade Center foi a primeira versão fictícia feita por Hollywood da tragédia do 11 de setembro, tão formuláica, desonesta e irritante que, se um parente meu tivesse morrido no evento, me sentiria pessoalmente insultado com a abordagem (e ainda foi lançado na época do muito mais barato, inventivo e chocante Voo United 93).

Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme é a única continuação que fez de um filme seu e, dessa vez, ele nem se preocupou em disfarçar seu oportunismo como cinema de denúncia: tão logo a crise econômica provocada pela bolha imobiliária estourou, ele anunciou que iria se aproveitar do estado das coisas para repaginar a “crítica contra o sistema” do seu filme de maior sucesso, que acabou sendo bem pior que o primeiro (que, se também não cruza a barreira da qualidade regular, tem o charme cafona oitentista, Daryl Hannah e a já lendária frase de Charlie Sheen, descamisado em uma sacada, fazendo a pergunta quintessencial do babaca: “WHO AM I?”).

Blake Lively, se querendo muito

Que Oliver Stone ainda consiga financiamento para filmes de alto custo, que não fazem sucesso de público, nem agradam a crítica, é algo que merece um estudo a sério. Selvagens, o seu mais recente, em exibição nos cinemas, ao menos parecia um que iria se ater apenas a contar uma história, sem criticar regimes ou suscitar debates. Mas nem tornar uma ficção minimamente aturável ele consegue. Com os truques de edição mais manjados que videoclipe do Samuel Bayer e as atuações mais constrangedoras desde que o elenco de Crepúsculo se sentou numa mesa de leitura pela primeira vez, Selvagens é o filme mais panaca do ano até agora.

Ao recusarem uma parceria com um cartel mexicano, dois vendedores independentes de maconha começam a ser chantageados até que cedam ao acordo proposto. A pressão aumenta quando o cartel sequestra a mulher que os dois dividem. A moça em questão, interpretada por uma Blake Lively ainda longe de capacidades razoáveis de atuação, mas mais gostosa do que nunca, é quem narra o filme, o que aumenta absurdamente a quantidade de observações toscas sobre uma trama tosca (ela é uma riquinha-mimada-de-pais-ausentes [sério, o cara que dá sinal verde para um filme que tem como principal narradora uma personagem TÃO original deve ter um esquema Primavera Para Hitler na manga]).

Suntory time

Como Oliver Stone está trabalhando com personagens tão incapazes de boas ideias quanto ele (yay pela coerência, ao menos), os caras executam um plano idiota atrás do outro contra o cartel, que revida descontando na namoradinha deles. O capanga principal é feito por um Benício Del Toro com óbvia intenção de enterrar qualquer boa memória que a gente tenha de grandes atuações anteriores dele. O cara que atuou em Traffic, Snatch21 Gramas e Che não precisa ficar aceitando esse tipo de trabalho. Seu personagem é um resumo tão grosseiro dos clichês latinos que deveria estar numa propaganda do partido republicano dos Estados Unidos. Claro que atores também têm contas a pagar, mas nem uma dívida de milhões com a Yakuza justifica essa escolha.

No meio de tudo isso, Salma Hayek, que faz a chefe do cartel, é a única que consegue agradar quando aparece. Não é só não irritar, é agradar mesmo, o que quer dizer muito num filme tão ruim. Sua personagem é solidária (também tem uma filha adolescente) e perversa (é uma mulher comandando um cartel) em igual medida, e ela consegue matar e afagar sem perder o humor. A participação da atriz na série 30 Rock foi uma das mais engraçadas do programa de Tina Fey e é possível que ela tenha aceitado o papel em Selvagens justamente para explorar ainda mais esse seu lado cômico.

Duvido que essa tenha sido a intenção de Oliver Stone, mas, se Hayek foi a única pessoa que se tocou que o material que tinha em mãos era tão ridículo que poderia ser hilário, só explicita a incapacidade que o diretor tem de perceber o potencial cômico de tudo que já fez. Como todo aspirante a político de 20 anos com mesada e cargo em DCE, o mundo sempre tem que ser muito sério na visão desses caras, saca, brow?

Notas sobre (e para quem já viu) Looper

Posted in Cinema by Tiago Lopes on outubro 1, 2012

Looper, em cartaz desde sexta-feira da semana passada, é um dos grandes filmes do ano. Caso ainda não tenha visto, o texto abaixo discute pontos cruciais do enredo (que é bem imprevisível e original, mesmo lembrando outros clássicos do cinema de gênero, como  A Profecia, Akira, 12 Macacos e O Exterminador do Futuro). Na Vip de setembro, tem uma resenha livre de spoilers do filme. Caso já tenha visto ou não se importa com spoilers, siga sem medo.

– As comparações de Looper com Matrix, Inception e outros filmes de ficção científica recentes são bem infundadas. Não há nada similar entre esses além do fato de pertencerem ao mesmo gênero. Qualquer filme que use algum recurso de metalinguagem lançado  depois de Quero Ser John Malkovich também é imediatamente comparado com algo de Charlie Kaufman (Mais Estranho que a Ficção, Cold Souls, Ruby Sparks). Matrix não inventou a ficção científica no cinema, nem Kaufman usou pioneiramente a metalinguagem como truque de roteiro. É ainda mais errado que comparações tão equivocadas sejam feitas com tanta internet por aí, lembrando a cada segundo que o cinema já tem mais de um século de vida. Também, foi justamente essa geração que fez com que o reboot de uma trilogia cujo primeiro filme só tem 10 anos de vida (Spider Man) fosse um sucesso. Vai entender.

– Ver Looper pela segunda vez ajuda a perceber ainda melhor o cuidado que o diretor e roteirista Rian Johnson tomou com os possíveis furos de roteiro. Além do já clássico diálogo em que o Joe velho fala para o Joe novo não se preocupar em entender as implicações de uma viajem no tempo (wink wink, desempregados que participam excessivamente de foros de discussão sobre Inception e acham que, no final de Lost, estavam todos mortos [não estavam]). Se demoram a acertar uma bala durante um tiroteio, uma fala do Kid Blue explica o porquê (aquela sobre o alcance dos blunderbuss e das pistolas de cano longo). O clímax do filme é todo narrado pelo Joe velho na conversa que ele tem com o Joe novo na mesa da lanchonete. Ele fala rapidamente das lendas que surgiram sobre o Rainmaker: viu sua mãe levar um tiro, sua mandíbula é um pedaço de aço e ele extermina todos os mendigos no futuro. Cid, o guri, leva um tiro na bochecha, tem um medo absurdo dos mendigos que atacam a sua fazenda e quase vê a sua mãe levar um tiro.

– A morte do Joe no final é realmente imprevisível (ao menos para mim), mas, quando acontece, parece a decisão mais natural e original a ser tomada. E de dois pontos de vista: da evolução do caráter do personagem e do alto grau de criatividade do roteiro. O Joe é um cara tremendamente egoísta. Nem ouvindo da boca da sua versão mais experiente (mais sobre isso no próximo item), ele consegue entender a importância de uma mudança radical de vida. Quando finalmente aprende, é durante uma epifania tão rápida e decisiva, que no segundo em que toma consciência de que precisa ser um homem bom, ele percebe que só existe uma atitude possível para que tal mudança aconteça: cometendo o sacrifício de tirar a sua própria vida. Até Jesus recebeu um aviso prévio. Já do ponto de vista criativo: acredito que um autor tem muita HOMBRIDADE quando investe anos de sua vida na criação de uma história tão intrincada, com personagens tão instigantes, para amarrar e dar consistência a tudo justamente com a morte (suicídio!) de seu protagonista.

– A conversa entre o Joe velho e o novo na mesa do bar é um dos diálogos mais moralmente complexos que o cinema de ação pode jogar na cara do espectador médio. É o Rian Johnson afirmando que não existe nada pior do que um jovem sem a consciência do estado passageiro das coisas. É o Joe velho vendo o farrapo humano que era quando jovem e implorando para que o seu eu estúpido não seja mais tão estúpido, e o Joe novo sendo o pirralho mimado que não aprende nem quando é uma versão mais experiente dele mesmo que lhe diz o que deve ser feito. Uma versão engenhosamente adulta do COME AS VERDURAS, MENINO! Mas esse personagem é tão absurdamente bem escrito que o Joe velho ainda guarda uma nesga do egoísmo que ostentou ao longo de grande parte da sua vida. O fato de ele ter a coragem de matar uma criança que não tem nada a ver com a sua tragédia (e essa cena tem uma carga dramática bem maior quando vista pela segunda vez) diz muito sobre a sua índole quase imutável. Também é desse diálogo que saiu a minha frase de efeito favorita do Bruce Willis (“shut your fucking child mouth”).

– Entre tanta coisa, Looper ainda consegue ser um dos raros filmes a falar do poder transformador do amor sem parecer tão cafona quanto essa expressão dita em voz alta.

– A sequência em que o Seth velho vai “perdendo” as partes do corpo enquanto tenta achar o Seth jovem já é tão clássica quanto aquela de Sangue Negro em que H.W. Plainview fica surdo. Em outras palavras: já é cânone ocidental.

– Rian Johnson leu muito Philip K. Dick, Shakespeare, Haruki Murakami e T.S. Elliot enquanto escrevia o roteiro de Looper. Não consigo nem elaborar uma opinião sóbria sobre O NÍVEL dessas credenciais.

– Caso ainda não tenha visto, os filmes anteriores de Rian Johnson, A Ponta de um Crime e Vigaristas, são igualmente superlativos. Como Paul Thomas Anderson, os irmãos Coen, Wes Anderson, Noah Baumbach, Olivier Assayas e outros grandes dessa geração, Rian Johnson já faz parte do grupo seleto de autores do cinema atual que dificulta bastante a escolha de uma obra favorita sua.

Tagged with: ,

O melhor (e mais desconhecido) de Clint Eastwood

Posted in Cinema, Home video by Tiago Lopes on setembro 26, 2012

Graças a Sobre Meninos e Lobos, Clint Eastwood passou a ser conhecido por toda uma nova geração, por causa da onipresença do filme em premiações, algo que não acontecia com uma obra dele desde 1992, com Os Imperdoáveis. A partir de 2003, todos os seus filmes são indicados a ao menos uma das categorias principais do Oscar e todas as discussões sobre “os melhores do Eastwood” ignoram o que ele fez antes do filme que tem Sean Penn babando dramaticamente. Em verdade vos digo que o Eastwood raiz, o Eastwood mais sincero que reunião de família no Natal, está nos seus filmes que não entram no radar das premiações, especialmente Um Mundo Perfeito.

Lançado em 1993, quando ele ainda aproveitava seu mais recente respaldo com a crítica conseguido com Os Imperdoáveis, Um Mundo Perfeito é um daqueles filmes que podem servir de termômetro para medir a índole de qualquer pessoa. Se viu e não considera um dos melhores que o diretor já fez, boa pessoa não é.

A Warner Home Video lançou recentemente uma edição em Blu-Ray sem extras, mas essencial de Um Mundo Perfeito (R$ 39,90). Há anos em falta nas prateleiras, o filme é um item tão obrigatório em sua estante quanto a sua própria estante. Nele, Eastwood criou o manual mais básico e eficiente de como crescer (e se manter) como um homem de verdade. É um pouco ingênuo considerar qualquer obra de ficção como um guia de como agir no mundo real, mas esse filme foi criado para ser exatamente isso.

Kevin Costner, em sua melhor contribuição para o cinema, interpreta Butch, um prisioneiro em fuga que, para manter poder de barganha durante a escapada, sequestra uma criança. Phillip, com apenas oito anos de idade, já possui todas as inseguranças que costumam desenvolver só na adolescência, muito por causa da educação conservadora que recebeu de sua mãe. Assim como Butch, Phillip cresceu sem ter o pai por perto e os dois, tão logo percebem esse ponto em comum, desenvolvem uma afeição mútua: um vê a oportunidade de ter um pai, o outro, de educar uma criança do jeito que não foi educado.  A tragédia se anuncia tão logo os dois começam a se entender: a polícia está no encalço de Butch e, enquanto continua fugindo com o garoto, ele só aumenta sua lista de crimes de maneiras bem violentas.

Um Mundo Perfeito tem muito da seriedade dos filmes recentes do diretor, mas, ao contrário desses, mostra também um humor tão inesperado e um lado emocional tão sincero que supera o cinismo de A Consquita da Honra/Cartas de Iwo Jima, o choque de A Troca e a tragédia de Sobre Meninos e Lobos (os seus melhores da safra recente). Um Mundo Perfeito é igualmente cínico, chocante e trágico, só que Eastwood não explora nenhum desses elementos da história, trata tudo como consequência de uma amizade sincera, de admiração mútua, que nasceu na pior das circunstâncias. Para quem só conhece o Eastwood da última década, é difícil acreditar que ele já fez filmes que tinham, antes de qualquer coisa, a intenção de entreter e ainda servir como parábolas indispensáveis.

Stendhal galhofa, Stendhal moleque

Posted in Literatura by Tiago Lopes on setembro 13, 2012

Stendhal, como muitos outros, é uma vítima da Gangue dos Acadêmicos de Monóculo. Formada por velhinhos carecas e tias de cabelo vermelho, a principal função da GAM é analisar, contextualizar e reanalisar à exaustão os clássicos, drenando qualquer força de atração que esses venham a ter sobre nós, pessoas comuns, que só queremos entretenimento superlativo em troca de uma travessia de centenas de páginas.

Exemplo: por causa da fama que a GAM deu a O Vermelho e o Negro, achava que Stendhal só escrevia parágrafos gigantes sobre as políticas inerentes às ações de Napoleão, ou seja, zero de ação. Com o lançamento da nova tradução de A Cartuxa de Parma (Penguim-Companhia, 616 páginas, R$ 35), veio uma imagem de capa muito convidativa e, escrito na contracapa, algo como “sequências de batalha que influenciaram de Tolstói a Hemingway”.

Dois sujeitos (e vítimas quase fatais da GAM) que escreviam sequências de guerra de um jeito tão realista que, se você estivesse lá, suas memórias não seriam tão acuradas quanto as descritas em Guerra e Paz e Por Quem os Sinos Dobram. E, se foi Stendhal quem influenciou a origem dessas, a GAM merecia corte marcial por tratá-lo de um jeito tão pedante.

A Cartuxa de Parma dá conta de toda a vida do nobre Fabrice del Dongo. Usando poucas páginas para falar sobre a sua educação durante a infância, o livro começa de verdade quando ele, com a arrogância ingênua característica dos 17 anos de idade, decide fugir da Itália para tentar se juntar ao exército de Napoleão, movido apenas pela vontade de participar de algum conflito armado e se provar como homem. Sem saber empunhar uma arma, entra sem querer no meio da Batalha de Waterloo, sem ter ideia de onde está, e acaba virando um paspalhão na mão de um bocado de aproveitadores.

É durante sua andança pelos campos dessa batalha que Stendhal descreve essas sequências que influenciaram as melhores passagens de guerra da literatura posteriormente. Sem narrar um conflito maior, ele detalha apenas eventos isolados, testemunhados diretamente por Fabrice. Uns são bem violentos (como um cavalo ferido esfregando as fuças nas próprias tripas), outros de suspense bem construído, como quando Fabrice precisa aprender a usar uma arma em segundos para não ser morto. Mas a maior parte desses eventos são cômicos, de gerar gargalhadas constrangedoras, já que o “nosso herói” (como Stendhal costuma chamá-lo) insiste em querer ser tratado como um nobre mimado.

Quando a batalha termina (Fabrice só descobre num jornal velho, dias depois, que participou do conflito mais importante do século XIX, enquanto procurava irritantemente por uma boa desculpa para ser macho e matar a esmo), Stendhal deixa claro que essa passagem era só um mote menor para justificar os muitos infortúnios que seu herói ainda iria viver. A Batalha de Waterloo ocupa só um quinto das mais de 600 páginas de As Cartuxas de Parma. O que vem depois é o melhor em futrica de cidade de interior, pegação desenfreada, duelos pela manutenção da honra e as consequências deprimentes de todos esses excessos.

Por ter lutado do lado dos franceses, com a derrota de Napoleão, Fabrice vira persona non grata em sua cidade natal, Parma, na Itália. Sua tia, a duquesa Sanseverina, desenvolve um amor meio incestuoso pelo sobrinho. Com seu marido, o Conde Mosca, traçam um plano para garantir um bom futuro para o herói. Enviam o jovem para Nápoles, para que ele dê início a sua formação de arcebispo. Fabrice, enquanto tenta seguir carreira religiosa, procura seu “grande amor” na base do empirismo: testa todas as mulheres que quer e espera que o sentimento nobre nasça. Quando não acontece, ele parte para outra.

Todos os problemas que Fabrice arranja até o seu último dia de vida são consequências dessas investidas em mulheres comprometidas. Sua tia assume a responsabilidade de aliviar as punições que ele sofre, usando da influência em constante declínio que possui na cidade. Em um certo ponto, esse cabo de guerra da duquesa com as autoridades locais vira quase um livro paralelo, do qual Fabrice pouco ou nada sabe, mesmo quando se torna figura central de um embate de poder entre os carreiristas mais mesquinhos da cidade.

Stendhal usa esse paralelo como brecha para dizer o que tinha que dizer sobre a política da Itália e da França pós-ocupação napoleônica. Uma pena que a GAM só sublinhe o aspecto menor do livro. Por mais que tivesse algo a dizer sobre o *estado das coisas*, é óbvia a sua intenção de diluir observações sérias em uma trama altamente galhofeira. No final, o que fica com o leitor é uma profunda sensação de entretenimento, não a lembrança de um tratado sobre política sofisticadíssimo. Se tomarmos Fabrice como exemplo, até mesmo na literatura, é sempre bom ficar alheio aos aspectos mais sérios dos acontecimentos.