Da Década!

Antes do Pôr-do-Sol

Posted in Cinema by Tiago Lopes on junho 13, 2013

Até a Julie Delpy melhorou depois de quase uma década

Uma das qualidades mais óbvias de Antes do Pôr-do-Sol é ser uma das melhores defesas que o cinema já apresentou sobre as vantagens de envelhecer. Exatamente nove anos separam os lançamentos desse de Antes do Amanhecer. Quase uma década de amadurecimento fez com que todos os envolvidos na produção perdessem por completo qualquer resquício de pedantismo presente no primeiro filme da trilogia, fazendo de Antes do Pôr-do-Sol o melhor dos três.

É um pacote completo de entretenimento: realista, engraçado e com um romance que se limita a apenas breves minutos do filme, mas tão convincente e apresentado de um jeito tão original que não há sexo, nem beijo, sequer a aproximação de corpos. E o melhor: Antes do Pôr-do-Sol não perde uma oportunidade de tirar um sarro das situações mais ridículas do filme que o originou.

Esse começa com Jesse em Paris, dando uma coletiva sobre seu livro de estreia, This Time, uma ficção meio autobiográfica detalhando o dia em que conheceu Celine. E essa é a última vez que veremos Jesse no modo “palavras de sabedoria evasivas” que ele exerceu em todo o filme anterior, porque não dá uma resposta direta a nenhuma pergunta dos jornalistas, as aproveita para teorizar em cima do que falaram. Até que Céline vai ao encontro dele, porque leu num jornal sobre a coletiva e se reconheceu no livro.

Quando saem da livraria e dão início à conversa que se desenrola em tempo real até o final do filme, Pôr-do-Sol apresenta uma fotografia tão bonita das ruas de Paris que, tivessem os dois se comportado como se ainda tivessem vinte e poucos anos, esse ainda seria um filme agradável só pelas imagens. Mas com trinta e poucos anos, os dois mostram de imediato que uma das grandes vantagens de crescer é não levar tudo muito a sério.

Ela trabalha como uma ambientalista, mas ri de todas as boas piadas que Jesse faz sobre as implicações cafonas de sua nobre profissão. Ele também ri de todas as boas piadas que ela faz sobre como ser autor de um best-seller não te faz alguém inteligente. E a conversa segue nesse tom realista o filme inteiro: eles falam apenas de suas experiências de vida. Falam como se sentem sobre casos passados, empregos, famílias, sem teorizar sobre nada, só contando uma experiência e falando brevemente sobre como se sentiram e o que aprenderam com elas.

E finalmente a personalidade de ambos vai se moldando. Algo que o primeiro filme não conseguiu ao longo de seus 100 minutos, esse não leva mais de 15. Talvez o principal motivo para um Jesse e uma Celine que se comportam como seres humanos, e não como atendentes de livraria forçando amizade, seja o fato de que Ethan Hawke e Julie Delpy dividem os créditos do roteiro com Linklater. O primeiro filme, ele escreveu com a roteirista Kim Krizan, que só aparece nos créditos do segundo como co-criadora da história original. Depois de Antes do Amanhecer, ela não fez mais nenhum filme de destaque, o que a deixa numa posição de fácil acusação pelos equívocos do primeiro.

Com Delpy e Hawke também no controle criativo de seus personagens, Pôr-do-Sol deixa de ser um romance por grande parte de sua projeção porque quer mesmo mostrar quais as frustrações mais comuns dos trinta e poucos anos: a pressão de se achar a pessoa certa e uma carreira satisfatória. Só que a segunda frustração vai dando espaço à discussão da primeira na medida em que o filme avança, porque os dois vão percebendo a possibilidade cada vez mais real de resolvê-la.

Sendo Antes do Pôr-do-Sol um filme que nunca recorre a obviedades, a resolução vem por meio da imitação mais tosca da cantora Nina Simone já registrada em celuloide, mas também da frase mais romântica já criada em cima das palavras “perder” e “avião”.