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Fim de caso depois de breve encontro com a morte

Posted in Cinema by Tiago Lopes on maio 10, 2013

As duas adúlteras mais famosas da literatura ocidental apelam para o suicídio quando seus amantes as decepcionam: já que a devoção deles é o único motivo pelo qual elas enfrentam a reprovação e aturam o desprezo da sociedade em que vivem, quando essa devoção diminui ou se manifesta em desacordo com o que elas esperam deles, o suicídio é a única saída. A primeira decisão original de Amor Profundo, que estreia hoje em cinemas selecionados, é mostrar a sua adúltera, Hester (Rachel Weisz), cometendo nos primeiros minutos do filme o que Anna Kariênina e Emma Bovary só fizeram nas últimas páginas dos livros que as acompanham.

Só que o filme não é só uma reconstrução em flashbacks do caso de Hester. Sua tentativa de suicídio falha e uma das intenções de Amor Profundo fica um pouco mais clara: se o arsênio não tivesse o efeito esperado por Bovary, se alguém tivesse puxado Kariênina antes dela se jogar, como seus amantes reagiriam, sabendo da intenção de suicídio?

Para ilustrar perfeitamente bem esse imbróglio, o diretor Terence Davies avança um pouco mais na linha temporal dos adultérios clássicos da ficção para construir seu filme, pegando emprestado elementos de dois pilares do cinema e da literatura do século XX: David Lean e Graham Greene.

Do primeiro, ele reproduz em Amor Profundo o mesmo tom (trilha sonora, edição, a maneira como a comédia interfere em um drama pesado) que Lean imprimiu a Desencanto, filme de 1945 que também conta a história de uma mulher dividida entre os confortos de um bom casamento e o amor experimentado em um caso extra-conjugal. O filme de Lean se passa na Londres de 1938; o de Davies, na Londres de 1950. Separando os dois, a Segunda Guerra Mundial e um tanto mais de liberdade nos discursos. Enquanto a adúltera do filme de Lean diz que o que ela sente por seu amante é amor, Hester admite, sempre que questionada, que o desejo pelo seu amante é puramente sexual.

Tanto que, nos momentos em que Amor Profundo faz uso de flashbacks, é para fornecer explicações sobre o comportamento frio do marido de Hester (numa sequência em que ambos visitam a sogra dela, onde os momentos mais tensos e engraçados do filme estão concentrados), e sobre a atitude despojada de seu amante (quando ele a leva para um pub e ela tenta acompanhá-lo enquanto canta em voz alta com seus amigos, num dos raros momentos de felicidade genuína no filme).

Quando Davies se volta para Graham Greene, especificamente Fim de Caso (seu romance que se passa em Londres, durante e após a Segunda Guerra) é para fornecer o peso exato a cada palavra que os membros do triângulo amoroso proferem durante suas discussões. Fim de Caso, que mostra um quadrilátero amoroso entre uma mulher, dois homens e Deus, tem os diálogos mais incisivos já suscitados por uma situação do tipo (sim, Greene arrepia mais em diálogos do que Tolstói e Flaubert). O roteiro de Davies, adaptado da peça de Terence Ratting, é econômico e impactante em igual medida. Cada frase dita pelos personagens, até mesmo os coadjuvantes, vai ressoar por um bom tempo em sua cabeça, por isso as discussões mais importantes são pontuadas por silêncios em que, houvesse uma intromissão mínima da trilha sonora, parte do drama se diluiria.

Se o trio de protagonistas não estivesse em sua melhor forma (Rachel Weisz, Tom Hiddleston e Simon Russell Beale nunca atuaram tão bem em filmes como aqui), as falas soariam pomposas demais, frias e distantes de qualquer possibilidade de empatia com o público. Como são raros os momentos de gritaria, o volume das vozes, as expressões, tudo é mostrado pelos atores da maneira mais comedida possível, carregando no drama, sem apelar para nenhuma manipulação. O filme também não dá piscadela óbvia às suas referências, o que faz de Amor Profundo uma obra que, apesar de se apoiar tanto em trabalhos alheios, se encerra em si mesma, especialmente porque mostra um final completamente diferente de tudo o que foi citado aqui (e uma bela moral para quem acha que o sentido da vida está exclusivamente na devoção a outra pessoa).

Desde Amor à Flor da Pele, último filme original sobre as implicâncias de uma traição a ser lançado, que o impasse de uma adúltera e a felicidade de um amante não provocam o montante exato de empatia necessária para que você se importe com a situação dos dois por muito tempo depois do fim da projeção.

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