Da Década!

Antes da Meia-Noite

Posted in Cinema by Tiago Lopes on junho 14, 2013

Entre Antes do Pôr-do-Sol e Antes da Meia-Noite (que estreia hoje no Brasil), foi lançado Cópia Fiel, filme do iraniano Abbas Kiarostami, com Juliette Binoche e Wlliam Shimell, que começa com um escritor dando uma coletiva sobre seu mais novo livro em Toscana. Ele é abordado por uma fã, os dois iniciam uma extensa caminhada pelas ruas da cidade, e conversam sobre os temas do livro que ele acabou de lançar. Ao serem atendidos por uma garçonete, ela os confunde por marido e mulher e, de repente e sem nenhuma explicação, os dois assumem esses papeis. Cópia Fiel, que até então era uma discussão deliciosamente inteligente sobre arte, se transforma num filme essencial sobre relacionamentos na casa dos 40. Exatamente o que seria uma continuação de Antes do Pôr-do-Sol.

O que deixou a intenção de Richard Linklater de completar sua trilogia um pouco mais difícil: Cópia Fiel não só parece uma finalização natural das ideias de Antes do Pôr-do-Sol como tem uma das fotografias e planos mais criativos do cinema dessa década. É um filme tremendamente bonito, que explora tanto a Toscana como a beleza da Juliette Binoche de um jeito que colocam a Paris e a Julie Delpy de Antes do Pôr-do-Sol numa digna, mais ainda assim segunda posição numa lista de melhores cruzamentos entre cidades europeias e mulheres lindas.

Felizmente, a solução de Antes da Meia-Noite é uma tão engenhosa que me parece até inédita: o foco do filme não é mais o relacionamento entre Jesse e Celine, mas a influência que os filhos possuem em um casal. Além de ter escolhido esse tema e a Grécia para encerrar o ciclo, Linklater ainda dividiu o filme em três seções não declaradas, fazendo de Antes da Meia-Noite o mais diferente da trilogia.

A primeira delas lembra uma mistura do melhor da dobradinha de Denys Arcand formada por O Declínio do Império Americano e As Invasões Bárbaras, ao mostrar vários personagens de diferentes faixas etárias discutindo sobre amor, sexo e suas implicações a curto e longo prazo. Nessa primeira parte, há o monólogo mais choroso de toda a trilogia do Linklater, uma versão de como seria Amor, de Michael Haneke, se fosse um filme mais otimista.

A segunda parte é a única que lembra os filmes anteriores, onde mostra apenas Jesse e Celine caminhando e conversando. Mas, se isso foi basicamente tudo o que vimos nos filmes anteriores, no novo, não dura nem 15 minutos. Logo depois, começa a terceira parte e maior trunfo de Antes da Meia-Noite: uma tour de force que toma o maior tempo do filme e acontece dentro de um só cômodo, para vasculhar o que há de pior e melhor nesses personagens. De novo, a colaboração entre Linklater, Julie Delpy e Ethan Hawke no roteiro se prova a melhor decisão criativa da trilogia. Não há tema comum de discussão entre casal que não tenha sido ao menos levemente lembrado pelo roteiro nessa sequência, todos usados como argumento para o tema maior do filme.

Em termos de cinema, essa sequência representa o único e menor problema do filme: como essa parte é essencialmente teatral, Linklater ainda não tem as manhas de um – para citar exemplo recente – Roman Polanski, que fez de O Deus da Carnificina, um filme com apenas quatro personagens que se passa quase inteiramente em um cômodo, uma experiência viciante. Em Antes da Meia-Noite, as câmeras que filmam essa sequência estão excessivamente quietas e há uma economia de corte que, se por um lado, deixa a conversa ainda mais crua, por outro, provoca dispersão da atenção do espectador.

Mas, reclamando o posto de melhor cruzamento entre cidade europeia e mulher linda, Linklater mostra uma Delpy seminua por um bom tempo dessa conversa. A intenção não é chamar a sua atenção com nudez. Mas provar que nem a intenção de sexo é suficiente para desviar o foco de assuntos mais urgentes como os que estão sendo discutidos (Robert Altman fez o mesmo com Juliane Moore em Short Cuts e Linklater consegue imprimir o mesmo impacto em sua versão).

E todo esse lenga-lenga tremendamente bem escrito e assustadoramente instigante para provar uma tese muito óbvia, sublinhada nos filmes anteriores e escancarada em Antes da Meia-Noite: monogamia duradoura é conseguida a custo de uma insistência humilhante e quase doentia. Linklater criou uma trilogia sobre amor usando uma base muito romântica, mas que sustenta umas verdades muito dolorosas sobre os sacrifícios que um relacionamento demanda.

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Antes do Pôr-do-Sol

Posted in Cinema by Tiago Lopes on junho 13, 2013

Até a Julie Delpy melhorou depois de quase uma década

Uma das qualidades mais óbvias de Antes do Pôr-do-Sol é ser uma das melhores defesas que o cinema já apresentou sobre as vantagens de envelhecer. Exatamente nove anos separam os lançamentos desse de Antes do Amanhecer. Quase uma década de amadurecimento fez com que todos os envolvidos na produção perdessem por completo qualquer resquício de pedantismo presente no primeiro filme da trilogia, fazendo de Antes do Pôr-do-Sol o melhor dos três.

É um pacote completo de entretenimento: realista, engraçado e com um romance que se limita a apenas breves minutos do filme, mas tão convincente e apresentado de um jeito tão original que não há sexo, nem beijo, sequer a aproximação de corpos. E o melhor: Antes do Pôr-do-Sol não perde uma oportunidade de tirar um sarro das situações mais ridículas do filme que o originou.

Esse começa com Jesse em Paris, dando uma coletiva sobre seu livro de estreia, This Time, uma ficção meio autobiográfica detalhando o dia em que conheceu Celine. E essa é a última vez que veremos Jesse no modo “palavras de sabedoria evasivas” que ele exerceu em todo o filme anterior, porque não dá uma resposta direta a nenhuma pergunta dos jornalistas, as aproveita para teorizar em cima do que falaram. Até que Céline vai ao encontro dele, porque leu num jornal sobre a coletiva e se reconheceu no livro.

Quando saem da livraria e dão início à conversa que se desenrola em tempo real até o final do filme, Pôr-do-Sol apresenta uma fotografia tão bonita das ruas de Paris que, tivessem os dois se comportado como se ainda tivessem vinte e poucos anos, esse ainda seria um filme agradável só pelas imagens. Mas com trinta e poucos anos, os dois mostram de imediato que uma das grandes vantagens de crescer é não levar tudo muito a sério.

Ela trabalha como uma ambientalista, mas ri de todas as boas piadas que Jesse faz sobre as implicações cafonas de sua nobre profissão. Ele também ri de todas as boas piadas que ela faz sobre como ser autor de um best-seller não te faz alguém inteligente. E a conversa segue nesse tom realista o filme inteiro: eles falam apenas de suas experiências de vida. Falam como se sentem sobre casos passados, empregos, famílias, sem teorizar sobre nada, só contando uma experiência e falando brevemente sobre como se sentiram e o que aprenderam com elas.

E finalmente a personalidade de ambos vai se moldando. Algo que o primeiro filme não conseguiu ao longo de seus 100 minutos, esse não leva mais de 15. Talvez o principal motivo para um Jesse e uma Celine que se comportam como seres humanos, e não como atendentes de livraria forçando amizade, seja o fato de que Ethan Hawke e Julie Delpy dividem os créditos do roteiro com Linklater. O primeiro filme, ele escreveu com a roteirista Kim Krizan, que só aparece nos créditos do segundo como co-criadora da história original. Depois de Antes do Amanhecer, ela não fez mais nenhum filme de destaque, o que a deixa numa posição de fácil acusação pelos equívocos do primeiro.

Com Delpy e Hawke também no controle criativo de seus personagens, Pôr-do-Sol deixa de ser um romance por grande parte de sua projeção porque quer mesmo mostrar quais as frustrações mais comuns dos trinta e poucos anos: a pressão de se achar a pessoa certa e uma carreira satisfatória. Só que a segunda frustração vai dando espaço à discussão da primeira na medida em que o filme avança, porque os dois vão percebendo a possibilidade cada vez mais real de resolvê-la.

Sendo Antes do Pôr-do-Sol um filme que nunca recorre a obviedades, a resolução vem por meio da imitação mais tosca da cantora Nina Simone já registrada em celuloide, mas também da frase mais romântica já criada em cima das palavras “perder” e “avião”.

Antes do Amanhecer

Posted in Cinema by Tiago Lopes on junho 12, 2013

Nessa sexta-feira, dia 14, estreia nos cinemas Antes da Meia-Noite, a última parte da trilogia iniciada em 1995 com Antes do Amanhecer. Para apreciar melhor a nova visita a Jesse e Celine em mais uma cidade europeia aleatória, acompanhe aqui, de hoje até sexta, resenhas dos três filmes.

Começando pelo que lançou a ótima ideia, mas acaba sendo o mais equivocado da trilogia. Antes do Amanhecer mostra um homem e uma mulher se conhecendo num trem em direção a Veneza no dia 16 de junho de 1994. Como todo jovem proto-intelectual, Jesse (Ethan Hawke) e Céline (Julie Delpy) preferem expor suas preferências em literatura e filosofia antes de qualquer coisa quando estão conhecendo alguém. Essa característica dos personagens é uma das mais óbvias também do cara que os criou. O início da carreira do diretor Richard Linklater é, numa análise superficial, a mesma trajetória que um universitário percorre: de um calouro maconheiro e socialmente engajado a um veterano pedante e tagarela.

Jovens, Loucos e Rebeldes é o segundo filme de Linklater, mas o primeiro que chamou a atenção do público. Mostra um grupo de jovens em 1976 no último dia de aula do ensino médio. Os diálogos não fogem da zona “sexo e drogas”, são constantemente engraçados e possui um elenco tão extenso quanto um filme de Robert Altman. Na sequência, Linklater fez Antes do Amanhecer, o oposto exato de Jovens: apenas dois atores, falando sobre morte e metafísica, sem nenhum humor ou qualquer identidade visual que facilitasse a experiência de ver dois pedantes discutindo basicamente quem tem o maior cartão de biblioteca.

Não que seja desagradável ver um casal com aspirações intelectuais discutindo no cinema. De Jean Renoir a François Truffaut, de Michelangelo Antonioni a Mike Nichols, vários diretores criaram obras geniais em cima desse molde. Só que Linklater esqueceu de colocar qualquer emoção entre Jesse e Céline. Ao longo do dia em que passeiam por Veneza, eles tocam muito superficialmente em assuntos de suas vidas pessoais. Quando, por exemplo, Jesse diz que seus pais são separados, é só mais uma brecha que ele usa para apresentar sua teoria sobre o impacto da influência na formação da personalidade.

E o filme é quase todo assim: eles usam uma experiência pessoal como desculpa para desfilar teorias que vão de reencarnação a feminismo. É um bombardeamento de ideias mal desenvolvidas tão intenso que antes de você terminar de bater o palmo na testa para a última tese besta do Jesse sobre a arte da adivinhação, já tem que estar pronto para revirar os olhos para a próxima da Céline sobre destino e conformismo. Até quando estão discutindo sobre sexo, seja falando de experiências passadas ou quando estão prestes a fazer, os dois analisam o ato sob os ângulos mais entediantes possíveis.

Quando finalmente decidem falar longamente apenas de experiências pessoais, o filme fica instantaneamente agradável. Pena que esses só são dois momentos. E em um, eles inventam até um truque para não parecer que estão se entregando assim tão facilmente: na sequência do restaurante, em que “interpretam” uma conversa telefônica com seus melhores amigos para dizer precisamente o que acham um do outro; e no final, quando estão prestes a se separar na estação de trem.

Essa última sequência é a única com algum sentimento do filme, onde os atores e o diretor tiveram o bom senso de perceber que é impossível intelectualizar uma despedida, especialmente nessas circunstâncias. Ethan Hawke e Julie Delpy, que até então não tinham feito muito além de declamar o roteiro, ficam extremamente vulneráveis, provocando uma empatia no espectador tão inesperada que é quase como receber um golpe brutal de emoção.

Linklater é um ótimo diretor, daqueles que investem em diversos gêneros e está em seu melhor quando estufa seu cinema de ficção. Parece uma declaração óbvia, mas as ideias de um autor, no cinema, precisam estar bem disfarçadas no meio de uma ficção instigante. Essa atrai e segura o público, que vai ficar ainda mais satisfeito com a experiência de ver o filme se descobrir por ele mesmo as intenções do autor.

Além de Antes do Amanhecer, Linklater colocou suas ideias em primeiro plano, em detrimento da ficção, de um jeito ainda mais radical em Waking Life, não por acaso, seu pior filme. Ao mostrar um bando de personagens vagando e falando a esmo sobre tópicos muito bonitos num livro, mas profundamente entediantes na tela, o diretor criou o trabalho mais pedante dos anos 2000. Tanto que ele mesmo aprendeu com esses erros. Anos depois, dirigiu a adaptação de O Homem Duplo, romance de Philip K. Dick,  com a mesma intenção de Waking Life, de usar o cinema para desfilar dezenas de teses filosóficas. Só que, ao contrário do filme ruim, O Homem Duplo sustenta todo o seu falatório intelectual numa história sensacional de um policial infiltrado num grupo de drogados que começa a perder a sua identidade.

Com as sequências de Antes do Amanhecer, essa evolução na maneira de fazer filmes de Linklater fica ainda mais evidente. Mas isso é assunto para a resenha do excelente Antes do Pôr-do-Sol, amanhã, por aqui.