Da Década!

Mildred Pierce: melhor argumento contra a lei da palmada

Posted in Home video by Tiago Lopes on maio 29, 2012

Mildred Pierce é um dos melhores filmes do ano passado. Talvez você não tenha percebido, porque foi lançado como uma minissérie dividida em cinco episódios, exibidos pela HBO no primeiro semestre de 2011. O que não impediu que Mildred Pierce entrasse em quase todas as listas de melhores, ao lado de A Árvore da Vida, Drive, O Espião que Sabia Demais e outras quase unanimidades (ao menos esses foram os meus favoritos).

A minissérie possui todos os fatores para ser considerada uma obra prima além do meio onde foi exibida. Mostra uma das fotografias mais geométricas e bonitas de anos recentes (é uma versão em cores perfeita dos tons p&b característicos de filmes noir), até o mais distante figurante atua de maneira superlativa e possui uma narrativa firmemente bem construída, como quase nenhum dos indicados ao Oscar desse ano. E agora, Mildred Pierce finalmente é lançada em DVD duplo (Warner Home Video, R$ 59,90, vendido exclusivamente pela Livraria Cultura), para ser assistida como deve: um filme acachapante de cinco horas.

Adaptando o romance de mesmo nome de James M. Cain, lançado em 1941 e considerado um dos resumos mais exatos da depressão econômica iniciada no fim da década de 20 e que se arrastou por toda a década seguinte, Mildred Pierce é nome da protagonista, uma dona de casa que se separa do marido incompetente (um desempregado que ainda a traía) e tem que se virar sozinha para garantir o sustento das duas filhas pequenas.

O que propulsiona esse enredo já é um acontecimento trágico, de grandes, mas contornáveis consequências. Uma mãe solteira e desempregada no início do século XX estava mais fadada à sarjeta do que gato de rua. Mas o orgulho de Mildred para manter as aparências de senhora de classe média, ao invés de se transformar em nariz empinado, é canalizado como uma força quase sobre-humana de trabalho. E são nessas cenas, que mostram seu início de carreira como garçonete até se tornar dona do próprio restaurante, que Kate Winslet sua em tempo real para convencer de verdade como uma trabalhadora braçal, a ponto de você se sentir cansado por ela.

Quando a tragédia inicial é finalmente superada, Mildred tem que lidar com o tipo de revés que impulsiona as maiores tragédias, e é a partir daí que o seu drama passa de ordniário mas convincente para angustiantemente insolúvel: quando alguém tão próximo de você, sangue do seu sangue, se torna seu pior inimigo, e o amor que você sente por essa pessoa só impossibilita qualquer ideia de retaliação. Sua filha, Veda, é uma criança vulgarmente mimada, que cresce para se tornar uma jovem tão perversa que, sozinha, serve como o melhor argumento para aniquilar qualquer lei da palmada.

A Veda jovem é interpretada por Evan Rachel Wood, mais gata do que nunca em Mildred Pierce e protagonizando o melhor nu frontal desde o da Eva Green em Os Sonhadores. Quando acontece, você tem certeza que quer fazer as coisas mais sujas com ela e também castigá-la severamente, só não sabe em que ordem.

A minissérie foi dirigida por Todd Haynes. Sua filmografia costuma tratar as convenções narrativas do cinema como uma doença (o psicótico Safe, o Cidadão Kane do glam em Velvet Goldmine e a cinebiografia que mais combina com a inconstância do seu objeto de estudo em I’m Not There). Em Mildred Pierce, a história é contada de um jeito extremamente convencional, para evitar qualquer distração da tragédia de não poder esganar sua própria prole, mesmo com toda a razão do mundo para justificar o ato.

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Esbórnia de luto

Posted in Música by Tiago Lopes on maio 4, 2012

Adam Yauch (de preto) aprova o luto em clima de esbórnia

Adam Yauch, “MCA” e a voz rouca do Beastie Boys, morreu hoje, depois de travar uma batalha de três anos contra um câncer em uma glândula salivar e um linfoma. É uma notícia profundamente triste, mas é a uma das poucas mortes que merecem um período de luto regado a álcool e a seu disco favorito da banda tocado no volume máximo. 

Yauch era o membro do Beastie Boys mais ligado a cinema. Usava o nome “Nathanial Hörnblowér” para assinar a direção de alguns vídeos e outras incursões audiovisuais da banda. Tinha um gosto apurado pela coisa, como esse top 10 feito por ele pode provar.

Logo depois do lançamento de To The 5 Burroughs, o disco mais politizado dos caras, fiz um texto afirmando que ninguém além do Beck ou do Beastie Boys foi capaz de criar música com o mesmo clima de esbórnia infinita que só eles sabiam atingir. Continuo com a mesma impressão, e uma ainda mais pesarosa, já que a morte de Yauch representa o fim definitivo desse estado de espírito.

Desde que o Beastie Boys e o Beck perderam um pouco da graça, ninguém mais conseguiu chegar ao nível de entertainment que eles chegaram. GRAÇA eles tinham enquanto faziam a música mais egoísta de toda a curta história da música pop. Tudo o que o Beck fez antes do Mutations e o Beastie Boys antes do To The 5 Buroughs são livres de qualquer citação a outra pessoa ou objeto usados para outra coisa além de dar uma satisfação extremamente pessoal a quem os propaga. Sexual delight, na maioria dos casos. Se os anos 90 foram a década do cinismo, ninguém conseguiu elevar essa bandeira a tão alto pico quanto essa trinca de Bs.

Eles eram produtos de uma conjunção de fatores que creio ser impossível de reproduzir novamente, uma constatação penosa, já que a esbórnia toda que só eles sabiam fazer não será mais nunca recriada. Eram brancos, de classe média, infanto-juvenis quando atingiram reconhecimento nacional, e sem qualquer ligação política declarada (ou sem qualquer ligação política mesmo, que é o mais provável). Só essas condições já riscaram da lista de prioridades de suas letras uma penca de assuntos secundários: racismo, pobreza, existencialismo, monogamia e música militante. Não consigo pensar em outros assuntos que tornem uma música instantaneamente menos divertida do que esses. E outra, o produto branco, classe média, despolitizado e cheio de sarcasmo pra dar deve estar mais desvalorizado nos dias de hoje do que churrasquinho de gato.

Atualmente, quem se propõe a entreter as massas oferecendo coisa boa de verdade sempre arranha ou é especialista em uma dessas temáticas. O próprio Beck e todos do Beastie Boys já construiram discos inteiros em cima de alguma dessas variantes, mas há a desculpa de que eles cresceram, casaram. Só dá pra manter o bom senso nesse estado sem querer emular uma criançona de 40 anos. Certo eles. Mas, por mais que eu respeite a M.I.A., o LCD Soundsystem, o Vampire Weekend, sempre fico com a impressão de que eles deviam ser mais cínicos só um pouco, pra que a esbórnia que eles fazem com tanto gosto em suas músicas chegue ainda mais perto da criada pelos senhores absolutos.

Sei que é meio absurdo querer que a nostalgia por essa era de ouro seja aplacada por gente que evita a todo custo comparações com outros e quer atingir seu lugar único. Eles atingem, mas fazem uso de tanto ranço terceiro-mundista, tanto existencialismo de brechó, que não ficam imunes a uma eventual acusação de cafonice ou de deslocamento temático. A M.I.A. é a melhor e mais improvável descendente do The Clash que já ouvi, e Jimmy é esbórnia a granel, mas é só uma música no meio de um mar de reclamações contra a opressão do capitalismo, do homem branco, do calor senegalês. James Murphy, criador do LCD Soundsystem, já despontou no business com idade e temas favoritos do seu tio preferido. O Vampire Weekend é limpinho demais, mauricinho demais para falar coisas como “passing the dutchee from coast to coast” ou “had to diss the girl because she got too emotional”.

O melhor é que todo esse egocentrismo era realmente valorizado nos anos 90, o que só aumenta ainda mais a chateação de ter crescido no tempo errado.

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Top 5 Heather Graham

Posted in Cinema, Música, Outra cabeça by Tiago Lopes on maio 2, 2012

Heather Graham é uma atriz sem um filme para chamar de seu, mas que, segundo o IMDB, já participou de mais de setenta produções, incluindo curtas e séries de TV. Gata e sexy pra caramba, ela merecia o tipo de atenção reservada para protagonistas do grande escalão. Enquanto o mundo sustenta essa injustiça, o blog Cabeça faz a parte que lhe cabe, com um top 5 com o melhor da atriz.

 1º lugar – Boogie Nights (Paul Thomas Anderson, 1997)

Não é porque Heather Graham faz o papel de uma atriz pornô dos anos 70 e só aparece de shortinho e patins durante todo o filme que Boogie Nights é a sua melhor obra. O segundo filme do melhor diretor americano dessa geração, Paul Thomas Anderson, é um drama que começa como uma vitrine das grandes vantagens de trabalhar no ramo e termina indo bem além de uma demonstração deprimente das desvantagens.

 2º lugar – Swingers (Doug Liman, 1996)

Antes de se tornar um dos nomes mais requisitados de Hollywood depois de dirigir Homem de Ferro 1 e 2, Jon Fraveau fez seu nome no cinema independente escrevendo e atuando no ótimo Swingers. No filme, ele faz um ator que, depois de terminar um relacionamento de seis anos, não consegue parar de chorar nos cantos pela ex, enquanto seus amigos fazem o que podem para resgatá-lo da fossa. Mas só o personagem de Heather Graham consegue o feito, aparecendo apenas no terço final do filme, fazendo uma dancinha irresistível e não temendo ser a primeira a ligar no dia seguinte.

 3º lugar – Os Picaretas (Frank Oz, 1999)

Uma comédia tão genial (e esquecida) que merecia Palma de Ouro e todas as indicações possíveis ao Oscar, inclusive na categoria de melhor documentário curta-metragem. Tem Eddie Murphy em seu último grande filme, Steve Martin pegando fogo e Heather Graham mostrando pela primeira vez um timing impressionante para comédia. Os Picaretas tem uma premissa absurda de original: um produtor fracassado de Hollywood não consegue o astro mais caro da cidade para protagonizar sua ficção científica de baixo orçamento, mas decide filmar sua produção ao redor do cara, sem ele saber.

 4º lugar – Twin Peaks (David Lynch/Mark Frost, 1990-1991)

Antes do canal HBO produzir um clássico da TV a cada dois anos, houve uma época em que Twin Peaks estava sozinha no topo das séries mais originais do meio. Sua 1ª temporada não oficial (que vai do episódio piloto até o nono episódio da 2ª temporada, quando o assassino de Laura Palmer é finalmente revelado) é elogiada sem ressalvas, enquanto o resto da série, que ainda se estende por mais 13 episódios, é considerada uma bobagem. Bem, até que tem ao menos uma narrativa inútil (a da MILF misteriosa seduzindo o ex de Laura Palmer), mas a 2ª temporada da série é tremendamente divertida, se assumindo como o melhor do entretenimento para donas de casa, sem abandonar as bizarrices que a tornaram um clássico (o último episódio ainda é a hora mais assustadora da TV). Ah, tem a Heather Graham o grande amor do agente Cooper. Como 90% das mulheres de Twin Peaks, sua personagem é uma garçonete linda e misteriosa.

 5º lugar – American Woman (vídeo do mala do Lenny Kravitz)

A única música decente do mala supracitado (e ainda é um cover!) ganhou um vídeo em que a Heather Graham dança desavergonhadamente em cima de um trailer enquanto faz cara de safada.