Da Década!

Por que se empolgar com a estreia de House of Cards

Posted in tv by Tiago Lopes on janeiro 30, 2013

A melhor entre as muitas ótimas ideias de House of Cards é que usa como ponta pé do seu enredo – uma série que trata de política – exatamente o que movimenta essa ciência: a troca de favores.

Kevin Spacey é Frank Underwood, um deputado que trabalhou pesado na campanha do candidato a presidente Garrett Walker. O primeiro minuto do episódio de estreia de House of Cards mostra Underwood observando e narrando para o espectador a festa de comemoração da eleição de Walker. Ele fala para a câmera e mostra uma confiança absurda na promessa que o novo presidente fez a ele durante a campanha – de nomeá-lo seu Secretário de Estado – enquanto capricha nas piadas pejorativas sobre os figurões presentes na festa. No minuto seguinte, o novo presidente pede para a sua nova Chefe de Gabinete avisar a Frank que ele prefere mantê-lo no Congresso, escolhendo outra pessoa para o cargo de Secretário de Estado e quebrando a sua promessa.

O fato da série ser narrada pelo próprio protagonista, um esnobe de autoconfiança aguda e irritante com o orgulho agora gravemente ferido, dá a Kevin Spacey o absurdo de sarcasmo como o qual ele sempre trabalhou tão bem (só lembrar de Os Suspeitos, Seven, Los Angeles – Cidade Proibida e Beleza Americana), fazendo de House of Cards uma espécie de The West Wing do capeta. Se a língua rápida de quase todos os personagens da série de Aaron Sorkin trabalhava para construir um governo eficiente, a de Underwood só trabalha em prol da reconstrução do seu orgulho ferido.

Kevin Spacey

Sendo um político absolutamente egoísta e ambicioso, seu único objetivo passa a ser derrubar o presidente dos Estados Unidos, um pouco por vingança, mas mais para provar para o espectador (com quem ele fala diretamente) que ele é mesmo o cara que mais entende de poder em Washington.

E é nessa segurança irritante de Frank que a série esconde bem todo o potencial de tragédia que deve explorar ao longo da sua primeira temporada. Ele se autonomeou o cara mais esperto da política local e, num primeiro momento, também tem controle sobre a narrativa. Só que House of Cards vai mostrando aos poucos como o seu narrador não merece a confiança do espectador, especialmente quando apresenta a sua esposa, Claire Underwood (Robin Wright). A melhor sequêncida do episódio de estreia é quando Frank conta para ela sobre a decisão do presidente de não promovê-lo e, de um jeito bizarramente quieto e breve, mostra uma mudança na dinâmica de manipulação que Frank tanto quer que você acredite que ele tem controle.

E que sensacional ver tanto da Robin Wright em um só programa. Ela já tem 46 anos de idade, atuou em dezenas de filmes, mas parece que só a Claire Underwood pode lhe dar o reconhecimento que sempre mereceu. Sua personagem é uma mulher tão cínica que até um “oi” dela vem carregado de intenções escusas.

Robin Wright

Como ela é uma mulher gata, sua Claire pode entrar no rol clássico de personagens que misturam manipulação e sensualidade de um jeito impressionante (para ficar em exemplos recentes, Michelle Pfeiffer em Ligações Perigosas e Sharon Stone em Instinto Selvagem; em um clássico, Marlene Dietrich em Pavor nos Bastidores). E ela ainda destoa do exemplo recente de outras séries do alto escalão da TV, como Mad Men, Breaking Bad e Sopranos, que eventualmente fizeram das mulheres de seus protagonistas personagens irritantes, que se tornavam obstáculos tanto na vida de seus maridos quanto na nossa apreciação dos programas.

Além de Carrie, gravitam ao redor de Frank uma repórter carreirista, assessores fieis e vários políticos com aparências que o roteiro faz questão de mostrar como muito flexíveis para classificá-los num primeiro momento. O deputado que tem um caso com a secretária e gasta uma grana com o distinto díptico de pó & putas pode não ser o cara mais estúpido do Congresso, assim como a senadora de fala mansa pode não ser a pessoa mais confiável para se ter por perto.

Com tantos personagens dúbios, só um é apresentado nos primeiros episódios que parece com uma real ameaça a Frank, uma espécie de vilão do vilão. Enquanto fazia campanha para Garret, Frank prometia favores a lobistas em troca de doações, favores que só poderia executar quando ocupasse o esperado cargo de Secretário de Estado. Com a imprevisível quebra de promessa, ele começa a receber as devidas cobranças.

Essa tensão é uma das raras fontes de suspense dos primeiros episódios, que deve aumentar gradualmente até explodir na violência que o cartaz da série deixa entrever. O que se vê muito nos episódios 1 e 2 é a perfeita execução do plano de Frank, que derruba dois peões sem suar. É sempre bom ver uma pessoa inteligente conseguindo o que quer por meios que fazem juz à sua inteligência (e a do espectador, no caso). Mas o melhor mesmo é ver como as pontas soltas vão se acumulando até provocarem o caos que vai dar uma rasteira em tanta autoconfiança. Ou não. O que House of Cards faz à perfeição é manter tudo em um patamar viciante de imprevisibilidade.

Não é TV, nem HBO

House of Cards é a primeira produção de alto padrão do serviço de streaming Netflix, que vai colocar no ar todos os 13 episódios da primeira temporada de uma vez, no dia 1º de fevereiro. É uma adaptação de uma série inglesa de mesmo nome, produzida pela BBC em 1990. Beau Williams está no comando da nova versão. Seu crédito mais conhecido é como um dos roteiristas do ótimo Tudo pelo Poder, drama político de 2011 dirigido e protagonizado por George Clooney, que garantiu a Williams (também autor da peça na qual o filme foi baseado) uma indicação ao Oscar.

David Fincher e Kevin Spacey

O 1º e o 2º episódio de House of Cards foram dirigidos por David Fincher, que também é produtor executivo da série. Fincher tomou para si a responsabilidade de determinar o tom da série, e os seus dois melhores filmes são o que mais ecoam em House of Cards: a incisão de Zodíaco (meticulosidade, um roteiro intrincado filmado de um jeito claro e sem apelar para a obviedade) e a velocidade e o cinismo de A Rede Social.

Como esse talento foi parar na Netflix, e não na HBO, Showtime ou AMC, os três canais mais citados quando falam de programação original de TV, é só uma questão de dinheiro e de construção de marca. Os produtores ofereceram House of Cards a todos esses canais, mas a Netflix, querendo iniciar sua própria produção de programação original, fez a melhor oferta. O que o serviço de streaming está fazendo é só repetindo o que a HBO fez pioneiramente no início dos anos 90: investir em ideias originais vindas de pessoas que já provaram seus talentos em outras mídias. Os canais Showtime e AMC também repetiram a fórmula da HBO e hoje são responsáveis por Homeland e Breaking Bad, respectivamente.

O diferencial da Netflix é aplicar essa fórmula de produção testada e aprovada a um novo modelo de distribuição: os 13 episódios de House of Cards vão estrear no dia 1º de fevereiro em todos os países que a Netflix atua. Os espectadores do Brasil e dos Estados Unidos poderão opinar e discutir sobre a série ao mesmo tempo, sem preocupação com spoilers ou falta de legendas, já que não vai mais existir a janela de exibição entre o país onde a série é produzida e o mercado internacional.

Com os 13 episódios disponíveis de uma só vez, a Netflix também dá ao espectador a oportunidade de acompanhar a série como quiser. Pela experiência de quem sempre recorre a torrents ou caixas de DVD, é possível que até segunda-feira da próxima semana, três dias depois que a série for disponibilizada, quem realmente gostou de House of Cards já tenha visto tudo.

A série tem a mesma qualidade das melhores produções dramáticas em exibição no momento (Mad Men, Homeland, Breaking Bad). Mas, numa análise superficial, o que garante que a Netflix continue investindo em outras temporadas de House of Cards e na produção de novas séries do mesmo patamar é a quantidade de novos assinantes do serviço que esses programas devem atrair, mais do que a audiência de cada novo episódio exibido.

Se o experimento der certo, vai fazer a Netflix investir ainda mais pesado em conteúdo original e deve influenciar positivamente no modelo de distribuição dos canais de TV tradicionais. Especialmente nessa bendita janela de exibição, quando um episódio de, por exemplo, The Walking Dead, é exibido no Brasil duas semanas depois de sua exibição nos Estados Unidos. Qualquer mudança positiva no mercado televisivo é bem vinda, especialmente uma que atrela qualidade de programação ao imediatismo que todo espectador cultiva quando se dedica a uma programação seriada.

Update: Nos comentários, o leitor Fabio apontou o erro do “porque” no título. O correto é “por que” mesmo.

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A patetice válida de Philippe Garrel

Posted in Sem-categoria by Tiago Lopes on janeiro 24, 2013

Não conheço Philippe Garrel além dos seus três filmes mais recentes: Amantes Constantes, A Fronteira da Alvorada e Um Verão Escaldante. O primeiro, vi há quatro anos e ainda lembro bem da sensação de ter gostado bastante daquele ritmo cadenciado e de um Kinks disparado numa festa. O terceiro, vi quando estreou nos cinemas, escrevi sobre aqui e continuo achando tudo isso desse. O segundo, assisti há pouco e teve o efeito negativo de potencializar os muitos defeitos dos dois anteriores, mas também possui os melhores argumentos pró-Philippe Garrel.

A Fronteira da Alvorada é um filme mal escrito, com grande parte dos diálogos explicitando mais o estado de espírito dos personagens do que parecendo falas possíveis ditas por pessoas experimentando esses dramas. Como em seus outros filmes, os personagens de Alvorada sofrem muito, mas muito mesmo por amor. Só que, ao invés do filme justificar a escalada de tanto amor entre eles para que, quando atingisse o auge e disparasse os conflitos todos, nos importássemos com tudo aquilo, em cinco minutos de projeção, Carole (Laura Smet) já está dizendo para François (Louis Garrel) que ele é o amor da sua vida e que ela não vai conseguir viver sem ele.

A passagem do tempo nos filmes de Garrel costuma ser abrupta e larga, o que pode servir de desculpa para justificar tamanha doação em uma relação mostrada em tão pouco tempo de filme. Mas esses pulos temporais espaçados não acontecem na primeira metade de Alvorada, fazendo do amor declarado de Carole por François mais resultado de carência beirando o distúrbio emocional do que uma sensação crível. Mais na frente, sabemos que o problema de Carole é realmente fruto de um distúrbio, mas François é uma pessoa sã e, mesmo assim, não se acanha em ecoar na mesma intensidade os sentimentos dele por ela, duplicando a quantidade de diálogos estupidamente óbvios e fazendo dos dois um par de trouxas.

Garrel não deixa que os seus personagens ajam como personagens, prefere construí-los como panfletos que divulgam emoções genéricas ao invés de senti-las, fazendo com que trabalhem mais em prol da mensagem do filme do que no desenvolvimento cuidadoso de suas histórias pessoais (caminho natural para gerar alguma empatia).

Mas é justamente na mensagem explícita que transmite que Garrel se redime. A história de A Fronteira da Alvorada (a mensagem) só faz sentido nos três minutos finais do filme, depois de mostrar muita gente falando muita idiotice o tempo inteiro. Garrel continua metendo no meio da história principal observações sócio-políticas com a convicção de um adolescente que acabou de assistir A Lista de Schindler.

Em um momento, François está na cama com Carole e, do nada, fala: “quando o último sobrevivente dos campos de concentração morrer, a Terceira Guerra Mundial vai começar”. Carole responde: “você é o amor da minha vida”. A cena acaba aí, da maneira como começou: sem nenhum sentido prático para a história do filme. Em outra sequência, igualmente abrupta e desconectada de todo o filme, François está em um bar, ouvindo um velhinho se auto-declarar, com orgulho, um anti-semita. François responde: “eu sou um judeu” e a sequência acaba, não só servindo para nada no filme como provocando um revirar de olhos tão poderoso que faz até barulho.

Mas a pior intromissão desse espírito DCA vem mais na frente, quando François procura um amigo para falar sobre o medo de se casar. O amigo diz que ele está com “medo da felicidade burguesa” e você queria mesmo uma coleira para segurar seus globos oculares.

Mas a mensagem maior do filme é válida e, no final, você sente que vale a pena aturar tanta infantilidade e procurar equilibrar os adjetivos “panaca” e “sincero” para acompanhar o nome de Garrel. François não consegue esquecer Carole nem quando está prestes a casar com a mulher que ele acredita ser o amor da sua vida (Ève, uma personagem tão mal escrita que consegue, de uma tacada só, explicitar o quão machista o diretor é e como ele não tem pudor de sacrificar qualquer senso de continuidade a favor da mensagem). Ignorou Carole quando podia e, agora que ela não está mais por perto, François não consegue superá-la, de um jeito tão penoso que prefere se sacrificar a continuar vivendo com esse arrependimento.

A sequência final é bonita, ligeiramente assustadora e dá um estofo ao filme que, até então, faltando três minutos para acabar, não existia, porque finalmente mostra os efeitos trágicos de incitar tanta carência por meio de mentira. A Fronteira da Alvorada é um filme de execução preguiçosa, mas com uma “moral da história” tão válida que até parece que Philippe Garrel a construiu com algum esforço, o que não é o caso.

*A Fronteira da Alvorada saiu depois, mas, como vi antes outro filme em que a Laura Smet faz papel semelhante, A Dama de Honra (Claude Chabrol), me irritei ainda mais com a preguiça de Garrel. Nesse filme, ela também faz uma doida que ama demais. Só que como Chabrol entende de ironia, piada e suspense, a personagem de Smet em A Dama de Honra é sensacional de um jeito que nenhuma personagem mulher criada por Garrel consegue ser.

*Apesar disso, Garrel filma mulheres de um jeito raro hoje em dia: só coloca lindezas de pouca roupa em poses inesperadas na frente das câmeras. O que explicita ainda mais seu machismo, mas, como não estou no negócio de queimar sutiãs, nem me incomodo.

O Oscar continua cimentando balela

Posted in Cinema by Tiago Lopes on janeiro 10, 2013

A lista de indicados ao Oscar 2013 foi divulgada na manhã de hoje. Poucas surpresas, mas nem o óbvio eles souberam fazer direito esse ano. É bom que Lincoln, o novo filme de Steven Spielberg, esteja liderando a corrida, com 12 indicações. Se não vai ser lembrado pela sua escassa originalidade, o diretor e o roteirista Tony Kushner acertaram ao mostrar abordagens menos óbvias: é um filme sobre política que trata seu tema da maneira mais próxima possível, mostrando muito falatório, sem sentimentalismos ou discursos inflamados.

Se tiver que escolher um favorito com reais chances de ganhar em quase tudo, aposte em Lincoln. Nem que seja para que a dupla também responsável por Munique, top 5 Spielberg e um dos melhores filmes da década passada, seja finalmente premiada. Em 2006, Munique concorreu em cinco categorias e perdeu em todas. E aqui está o principal problema da maior premiação do cinema nos últimos anos: Munique perdeu a estatueta de melhor filme para Crash – No Limite, um filme muito ruim (pior, esquecível) dirigido por Paul Higgis, que não emplacou mais nada depois de levar o prêmio máximo da academia.

Para ter uma real dimensão da tragédia que é o Oscar de melhor filme em anos recentes, segue lista da maioria dos ganhadores desde 2001: Uma Mente Brilhante, Menina de Ouro, Crash, O Infiltrado, Quem Quer Ser Um Milionário, O Discurso do Rei e O Artista. Não conheço ninguém que cite esses filmes entre os seus favoritos de todos os tempo, favoritos da década que passou, favoritos da semana em que foram lançados. Mesmo os filmes citados dirigidos por experientes que quase nunca erram estão longe do ápice de suas carreiras. Danny Boyle, Clint Eastwood e Martin Scorsese nunca serão lembrados por seus filmes ganhadores do “prêmio máximo do cinema”.

Se esses caras tiveram o azar de serem reconhecidos com o carequinha por filmes bem menores do que os que costumam fazer, o equívoco em premiar algo como O Discurso do Rei se torna enormemente maior em comparação. E um dos filmes com mais indicações em 2013 é do mesmo diretor da história besta do rei gago. Os Miseráveis, adaptação de um musical que diminue o clássico de Victor Hugo a uma versão cantada de uma novela da Gloria Perez, foi indicado em sete categorias, inclusive melhor filme, com grandes chances de ganhar.

Esse ainda não foi exibido para a imprensa no Brasil, mas os críticos americanos ultrapassam com gosto a barreira de falar mal apenas do filme: falam da capacidade de direção de Tom Hooper como se ele fosse um calouro da pior faculdade de cinema do mundo. Impossível se empolgar com uma premiação que dá trela para esse tipo de amadorismo. Mas, as poucas surpresas desse ano mostram que, em algum nível, o Oscar ainda consegue ajudar a projetar para o grande público nomes experientes e tremendamente originais, que ainda não atravessaram a barreira em direção à popularidade. Abaixo, o melhor do Oscar 2013;

1) As cinco indicações de Amour

Michael Haneke, Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant

O filme do alemão Michael Haneke era certo como indicado e vencedor da categoria “filme estrangeiro”. Ainda cravou melhor filme, atriz, roteiro original e direção. Não deve ganhar o prêmio máximo, mas a melhor atuação feminina do ano é de Emmanuelle Riva, com uma vantagem tão larga, que deveria ocupar sozinha as cinco indicações dessa categoria.

2) As categorias de coadjuvantes

Todos os indicados a ator e atriz coadjuvante são o melhor dos filmes em que atuam. Até Robert De Niro, que não trabalha de verdade há uns 20 anos, e continua sem trabalhar, conseguiu um papel em um bom filme para adaptar a sua preguiça a uma atuação de verdade.

3) A categoria de filmes estrangeiros

Até agora, só não vi Kon-Tiki, da Noruega. Todos os outros são filmes excelentes e originais como nenhum da categoria principal consegue ser. Mesmo o menor título dos cinco, War Witch (exibido na Mostra de São Paulo do ano passado), tem mais culhão até que Django Livre: ao contar a história de uma garota sequestrada de sua vila por membros de um exército rebelde, para ser treinada para lutar na guerra civil, War Witch mostra sequências de uma violência tão real que pode, mesmo para os espectadores mais experientes, revirar um pouco o estômago. Os votantes dessa categoria provam mesmo que são os menos conservadores, quando selecionam um filme que mostra uma sequência de tentativa de estupro interrompida por uma gilete colocada dentro de uma vagina (e o filme não, veja bem, NÃO se apoia em choques fáceis).

4) A contínua ascensão de David O. Russell

Bradley Cooper, David O. Russell e Jennifer Lawrence

Desde o seu primeiro filme, Spanking the Monkey (como não foi lançado no Brasil, não tem título nacional, mas uma boa tradução seria Batendo Uma)*, Russell cria comédias sempre por ângulos inesperados. Procurando Encrenca (não tem nem em DVD no Brasil, mas está disponível via Netflix e recomendo com a ênfase de uma bigorna caindo em cima do Coiote) talvez seja a única grande comédia sobre famílias disfuncionais. Três Reis é o melhor filme de guerra dos anos 1990 (mais humor da próxima vez, Soldado Ryan). Huckabees – A Vida é uma Comédia junta Dustin Hoffman, Lily Tomlin e Isabelle Huppert numa comédia metafísica hilária (yeap) com Mark Wahlberg e Jason Schwartzman como protagonistas (yeap!).

Esse último é um filme tão absurdo que Russell demorou seis anos para fazer o próximo. Com o excelente O Vencedor, ele decidiu que estava na hora de popularizar o seu nome fornecendo seu costumeiro ângulo inesperado a uma história manjada (boxe, superação). Deu tão certo (indicado a sete, ganhador de dois Oscar) que ele decidiu continuar nessa linha editorial. O Lado Bom da Vida é mais uma de suas abordagens espertas em cima de outro tema manjado (doença mental, família disfuncional) e lhe garantiu oito indicações ao Oscar desse ano. É o raríssimo caso de um autor ligeiramente radical, que conseguiu controlar sua ousadia em troca de mais popularidade, sem nenhum prejuízo criativo.

5) As 4 indicações de Anna Karenina

Keira Knightley e Joe Wright

A adaptação de Joe Wright do clássico (maior livro ocidental?) de Tolstói dividiu os críticos tão logo estreou, o que é sempre uma vantagem extra a favor da originalidade de um filme. A academia não comprou os valores criativos desse, mas gostou do fato de que foi filmado inteiramente dentro de um teatro gigante. Anna Karenina foi indicado a melhor fotografia, figurino, trilha sonora e direção de arte. Vai ficar bonito no pôster: INDICADO A 4 OSCAR.

Joe Wright, Keira Knightley e a melhor adúltera da ficção merecem mais, bem mais. Mas reclamar de uma premiação que esnoba até Paul Thomas Anderson e seu The Master é ignorar a regra básica de que o cinema tem mecanismos próprios para dar o devido destaque às suas melhores obras. Como os seguintes títulos provam, esses mecanismos são totalmente independentes de premiações:

Intriga Internacional, Tempos Modernos, O Bebê de Rosemary, Brazil, Vertigo, Quando os Homens são Homens, Rastros de Ódio, Quanto Mais Quente Melhor, Meu Ódio Será Sua Herança, Janela Indiscreta, 2001: Uma Odisséia no Espaço, O Iluminado Alien são alguns nunca indicados ao Oscar de melhor filme, mas fiquem a vontade para preferir Crash – No Limite.

*Update: o leitor atento e pessoa sensata @guigaspar fez uma correção: Spanking the Monkey saiu sim no Brasil, com o título A Mão do Desejo (sempre confie nos responsáveis pelos títulos nacionais para se superarem continuamente no que fazem).

 

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